
Foto: imagem feita por IA, com base nos fatos contados na crônica
Luiz Antônio Costa
Agosto de 1973 permanece como um marco doloroso na história de Patrocínio. Foi um mês em que a cidade, acostumada ao ritmo sereno do interior, viu-se confrontada com a fragilidade da vida e com a dureza do acaso. Ainda hoje, passadas décadas, os acontecimentos daquele período continuam vivos na memória coletiva.
O dia 15 de agosto, dedicado a Nossa Senhora da Abadia, sempre foi carregado de significado religioso para os patrocinenses. Naquela madrugada, dezenas de romeiros preparavam-se para seguir viagem até Romaria, então conhecida como Água Suja, para cumprir promessas e renovar a fé. O transporte era feito em um caminhão Alfa-Romeo FNM, de propriedade do senhor Ramiro Gonçalves, prática comum à época.
Antes da partida, houve despedidas simples, palavras de encorajamento e até brincadeiras, típicas de quem não imaginava o destino que os aguardava. Alguns moradores, por motivos banais — um atraso, um despertador que não tocou, uma mudança de ideia de última hora —, acabaram ficando para trás. Esses pequenos acontecimentos, mais tarde, seriam lembrados como livramentos.
A tragédia ocorreu na localidade de Macaúbas, a cerca de 24 quilômetros de Patrocínio. A rodovia BR-365 encontrava-se em obras de construção, sem a devida sinalização. O veículo vinha pela antiga estrada de terra, por volta de 5 horas da manhã. Em determinado trecho, havia um corte profundo no barranco para a nova pista, praticamente invisível na escuridão da madrugada. O caminhão voou pelo vão livre e chocou-se violentamente contra o corte no paredão de terra à frente.
O impacto foi devastador. Muitos passageiros que estavam na carroceria morreram instantaneamente, inclusive o motorista e dono do veículo. Outros ainda agonizavam entre os destroços, em um cenário de dor e desespero. O acidente vitimou cerca de dezessete pessoas, dizimando famílias inteiras, inclusive a do próprio proprietário do caminhão. Foi, sem dúvida, um dos episódios mais tristes já registrados na história do município.
A Santa Casa de Patrocínio transformou-se, naquele dia, em um verdadeiro hospital de campanha. Médicos, enfermeiros e voluntários trabalharam incansavelmente para atender os feridos. Do lado de fora, a população se concentrava em busca de notícias, enquanto a cidade mergulhava em luto.
O velório coletivo, realizado na Igreja Santa Luzia, marcou profundamente todos que o presenciaram. Caixões alinhados no interior do templo, familiares inconsoláveis, rezas interrompidas por soluços e um silêncio pesado que parecia ocupar cada espaço da igreja. A imagem tornou-se símbolo daquele dia que ficaria conhecido como “O dia em que Patrocínio chorou”.
A tragédia teve repercussão nacional, sendo noticiada por jornais e emissoras de rádio em todo o país. No entanto, nenhuma cobertura foi capaz de traduzir plenamente o impacto emocional vivido pela cidade.
Quando ainda não havia tempo para cicatrizar as feridas, Patrocínio foi novamente abalada. Na noite de 19 de agosto de 1973, apenas quatro dias após o acidente, um incêndio de grandes proporções atingiu a tradicional Casa Moderna, localizada na Avenida Rui Barbosa. O fogo destruiu todo o estoque da loja de tecidos pertencente a Mohsen e Karim Chokr.
A população mobilizou-se rapidamente. Baldes eram passados de mão em mão, caminhões-pipa da empresa COWAN — que construía a BR 365 e estava instalada em Guimarânia — tentavam conter as chamas, enquanto comerciantes vizinhos buscavam salvar suas mercadorias. Apesar do esforço coletivo, o prejuízo foi total. A Casa Moderna não possuía seguro, e as perdas somaram vários milhares de cruzeiros.
O incêndio evidenciou uma fragilidade estrutural da cidade: a ausência de um Corpo de Bombeiros. À época, o combate ao fogo dependia da boa vontade, da improvisação e da solidariedade da população. Embora o alerta tenha sido claro naquele agosto trágico, o Corpo de Bombeiros só seria instalado em Patrocínio mais de uma década depois, quando outras histórias já haviam sido escritas.
Agosto de 1973 encerrou-se deixando marcas profundas. Entre cruzes, cinzas e lágrimas, a cidade aprendeu, de maneira dolorosa, sobre perdas, união e resistência. Esses acontecimentos não são apenas registros do passado, mas parte da identidade de Patrocínio.
Há memórias que o tempo não apaga. Elas permanecem como cicatrizes silenciosas, lembrando às novas gerações que a história de uma cidade também se constrói a partir de seus momentos mais difíceis.
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Esta uma história de fatos reais. Esta crônica faz parte do livro inédito “Crônicas e Contos do Caminho“.





