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Nossa linda juventude | Com a Palavra | Elza Lima

Nossa linda juventude é um tempo que pulsa esperança, descoberta e coragem. É quando o mundo parece grande demais para caber no coração, e ainda assim acreditamos que podemos alcançá-lo. Carregamos sonhos nas mochilas, perguntas na mente e uma vontade imensa de deixar nossa marca, mesmo sem saber exatamente por onde começar.

É na juventude que aprendemos com intensidade: erramos, tentamos de novo, rimos alto e choramos sem medo. Cada amizade se torna um abrigo, cada desafio uma lição, e cada pequeno passo uma conquista. O futuro ainda é um esboço, mas as cores já estão nas nossas mãos.

Nossa linda juventude também é força. É a capacidade de imaginar um amanhã melhor e lutar por ele, de transformar inquietações em mudanças e ideias em ação. Mesmo quando o caminho parece confuso, seguimos em frente, porque acreditamos.

Que saibamos valorizar esse tempo único — não pela pressa de crescer, mas pela beleza de viver o agora. Pois a juventude não é apenas uma fase da vida; é um jeito de sentir, sonhar e acreditar que tudo pode florescer.

Havia um tempo em que a nossa ansiedade tinha endereço certo: a porta da loja de discos. Íamos para lá quase em romaria, só para ouvir o novo disco do Pink Floyd que acabara de chegar. A vitrine virava ponto de encontro, e a calçada, nosso refúgio. Não importava o calor, o frio ou o barulho da rua — quando a agulha tocava o vinil, o mundo diminuía de tamanho.

Ficávamos ali, em silêncio respeitoso, tentando captar cada detalhe que escapava pelas caixas de som: os efeitos estranhos, as letras profundas, os longos minutos de música que pareciam não ter pressa de acabar. Era mais do que ouvir um disco; era compartilhar um momento. Trocar olhares, comentários sussurrados, teorias sobre o que a banda queria dizer.

Nem todos podiam comprar o álbum, mas isso pouco importava. A experiência era coletiva, quase mágica. A música nos unia, nos fazia sonhar mais alto e sentir mais fundo. Naquele tempo, esperar fazia parte da alegria, e ouvir juntos tornava tudo maior.

Hoje, quando lembramos desses dias, fica a saudade de um ritmo mais lento e de uma juventude que se contentava em estar ali, na porta da loja, vivendo intensamente cada acorde do novo Pink Floyd.

Aos domingos, o passeio tinha destino certo: o lugar onde hoje está a caixa d’água da cidade. Naquela época, era apenas um espaço aberto, quase um convite à liberdade. Íamos de bicicleta, em grupo, pedalando sem pressa, sentindo o vento no rosto e a sensação boa de que o dia era todo nosso.

As bicicletas eram extensões do corpo e da alegria. Ríamos, conversávamos alto, inventávamos corridas e paradas sem motivo algum. O caminho importava tanto quanto a chegada. Cada curva guardava histórias, cada descanso virava pretexto para mais conversa e planos que pareciam enormes.

Ali, naquele espaço simples, a juventude se mostrava inteira: leve, barulhenta, cheia de vida. Não precisávamos de muito para sermos felizes — bastava a companhia, o sol de domingo e a certeza de que aqueles momentos ficariam guardados para sempre. Hoje, ao ver a caixa d’água no lugar, ainda é possível enxergar, por trás do concreto, as bicicletas passando e a nossa juventude seguindo livre pela estrada.

Lembramos também das brincadeiras na casa de algum amigo, aquele que sempre virava ponto de encontro. A sala se enchia de gente, risadas e música. Bastava alguém colocar o disco para tocar e pronto: o chão virava pista de dança, os móveis eram empurrados, e o tempo parecia esquecer de passar.

Ouvíamos músicas sem pressa, repetíamos as favoritas, dançávamos sem coreografia, apenas sentindo o ritmo. Havia brincadeiras, provocações, olhares tímidos e gargalhadas sinceras. Tudo era simples, mas intenso. Estar junto já era motivo suficiente para alegria.

Esses encontros eram mais do que diversão — eram laços sendo criados, memórias ganhando forma. Hoje, quando pensamos nesses dias, sentimos um calor no peito. Porque ali, entre músicas tocando alto e amigos reunidos, vivíamos uma juventude cheia de vida, liberdade e afeto.

Jamais haverá uma época mágica como aquela dos anos 70 e 80. Era um tempo em que tudo parecia mais vivido, mais esperado, mais sentido. As amizades aconteciam no olho no olho, a música era descoberta aos poucos, e cada encontro carregava a sensação de algo especial. Não havia pressa, nem excesso — havia presença.

Foi uma época marcada pela liberdade simples: pedalar sem destino, ouvir discos juntos, dançar na sala apertada da casa de um amigo, sonhar sem saber exatamente com o quê. Talvez a magia estivesse justamente nisso — na falta de garantias e no excesso de vontade de viver.

Tudo era mágico: a velha e desbotada calça jeans, o tênis já desgastado pelo tempo, ouvir Elis Regina na radiola, a alegria de estar juntos com os amigos, de celebrar cada momento e viver intensamente.

O mundo mudou, a tecnologia avançou, mas aquela intensidade ficou gravada na memória. Os anos 70 e 80 não foram apenas décadas; foram um jeito único de existir. E quem viveu sabe: aquela magia não se repete, apenas se guarda com carinho, como um tesouro que o tempo não consegue apagar.

*Elza Lima é empresária e escritora; mora em São Matheus, Espírito Santo e escreve regularmente para a Rede Hoje

@redehoje
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