
Luiz Antônio Costa
Aos poucos, os amigos queridos vão embora. Quando nos damos conta, já foram muitos. Ficam as lembranças, as vozes ecoando na memória, os encontros que sabemos ter sido únicos — porque não voltam. Esta crônica nasce assim: de um sábado à tarde que se tornou eterno. Um desses instantes que o tempo não apaga, apenas transforma em saudade.
O encontro aconteceu na casa de Cláudio Risis de Carvalho, o Rizzo, e de sua esposa, Abigail. Wanderlei Guarda e o próprio Rizzo hoje já não estão entre nós. Deixaram um vazio silencioso, desses que só a memória consegue preencher. Este texto integra meu sexto livro, Crônicas e Contos do Caminho
Eu acabara de chegar de um dia normal de trabalho na Rádio Módulo FM. Almocei, liguei a televisão e me preparei para atualizar algumas informações do portal da Rede Hoje. Assistia a um documentário no canal History 2 — Guerra do Vietnã – Arquivos Perdidos — quando o telefone tocou. Do outro lado, uma voz conhecida, sempre entusiasmada:
— Xará, onde cê tá?
Era Luiz Cabeleira. Respondi que estava em casa.
— Então venha pra cá. Estamos te esperando na casa do Rizzo.
Argumentei que não havia nada marcado, que eu não estava sabendo de encontro algum.
— A gente resolveu assar uma carne, tomar uma cervejinha e cantar umas músicas da nossa época, da Churrascaria Alvorada.
Nesse caso, não existe agenda que resista. Só para ouvir aquelas feras — Metralhas, Brazilian Hippies, H6, Super Som 201 — já valia sair de casa. Melhor ainda seria rever velhos amigos e ouvir histórias impagáveis das bandas, das viagens, da vida.
Cheguei à Rua Nhô Nhô Paiva. Na porta, Luiz Cabeleira e Luiz Pindoba me aguardavam. Agora éramos três Luiz. Não sei quem aguentou quem, mas seguimos em frente.
Abigail, como sempre, recebeu-me com aquele sorriso generoso de grande anfitriã e me conduziu até a ampla varanda onde todos estavam reunidos: Rizzo, Wanderlei Guarda, Edson Bragança, Luiz Cabeleira, Luiz Pindoba, Sânzio — que veio dos Asteroides de Patos de Minas para o Banco do Brasil em Patrocínio e nunca mais foi embora — Paulo Figueiredo, o Pauleca, ex-jogador do Patrocínio Esporte, além de outras pessoas. Tânia Bragança, esposa do Edson, registrava tudo com sua câmera.
A recepção foi calorosa. Aproveitei para agradecer ao Wanderlei Guarda pelo presentão: um box com três CDs, Absolutely Rock’N’Roll, reunindo 60 clássicos de Little Richard, Chuck Berry, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Bill Haley e seus Cometas, entre outros.
A conversa correu solta. Edson Bragança e Pindoba puxaram histórias de Zé Piquira e Tião Cabide — músicos que já partiram —, de Jorge Mansur e do ainda vivo Lázaro Ferro Lacerda, o Lazinho. Pauleca também entrou na roda com causos da época, que nada tinham a ver com música, mas eram igualmente saborosos. O melhor deles envolvia a criação de frango de corte: a ração era mais cara que o frango, a empresa quebrou, e os pais dos sócios tiveram que pagar as dívidas. O desfecho é antológico, mas fica para outra crônica.
Entre uma história e outra, muitas risadas. E música, muita música. A Whiter Shade of Pale, All My Loving, And I Love Her, Can’t Buy Me Love, Eight Days a Week, Hello, Goodbye, Here Comes the Sun. Vieram também algumas mais “novas”, como Mesmo Que Seja Eu e Another Brick in the Wall, esta última interpretada pela filha de Luiz Cabeleira, dona de uma voz linda, que encantou a todos.
Nos violões, Wanderlei Guarda, Edson Bragança e Sânzio. Na percussão improvisada, Luiz Pindoba. Nos vocais, ora um, ora outro, às vezes todos juntos. O som mágico do final dos anos 1960 e dos anos 1970 estava de volta, levando-nos diretamente à Churrascaria Alvorada, numa viagem sem passagem de retorno.
Mais tarde, Abigail serviu arroz com bacalhau e sobremesa, fechando a tarde com sabor de casa e afeto.
Chegou a hora de ir embora. Despedi-me da turma, agradeci ao Rizzo e à Abigail pela tarde inesquecível e voltei para casa revigorado — com a certeza de que passei pelo menos três horas caminhando de mãos dadas com o nosso passado.
E isso, definitivamente, não tem preço.
Esta crônica integra o livro inédito Crônicas e Contos do Caminho.





