
Se o Brasil parasse de produzir ou vender nióbio, geraria certamente um caos| Crédito: Opera Mundi
Interesse norte-americano por minerais estratégicos amplia debate geopolítico e envolve reservas brasileiras — incluindo Patrocínio — de terras raras, nióbio e lítio
Da Redação da Rede Hoje
O recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e as investidas de Donald Trump pela anexação da Groenlândia ampliaram o debate internacional sobre a disputa por minerais estratégicos. Os episódios são associados ao interesse norte-americano em recursos naturais considerados essenciais para a segurança econômica e militar. O cenário indica intensificação da competição global por insumos minerais. A movimentação envolve territórios fora do eixo tradicional de produção. O tema passou a ocupar posição central no debate geopolítico
Durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, Donald Trump voltou a mencionar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca. O presidente dos Estados Unidos classificou a área como um pedaço de gelo e afirmou que o interesse estaria ligado à proteção estratégica. Segundo ele, o objetivo seria impedir a influência da Rússia e da China no Ártico. A região é considerada estratégica para rotas marítimas e sistemas de defesa. Especialistas apontam outros fatores associados ao interesse.
Patrocínio interessa
Nesse contexto de disputa internacional por minerais estratégicos, Patrocínio, MG, passa a integrar o mapa de interesse sobre o nióbio em Minas Gerais. O município esteve ligado à atividade minerária por meio da Mosaic Company, que operava minas de fosfato na região. Em 2025, a empresa anunciou a avaliação da venda dessas operações. A sinalização incluiu a busca por parcerias voltadas à extração de nióbio. A área permanece relevante pela presença de minérios associados ao elemento.
Analistas destacam que a principal motivação das investidas internacionais está relacionada à riqueza mineral dos territórios. A Groenlândia concentra minerais considerados estratégicos para a indústria e para a defesa. Esses recursos são fundamentais para cadeias produtivas de alta tecnologia. A avaliação é de que discursos de proteção territorial encobrem interesses econômicos. O controle dessas áreas impacta o equilíbrio geopolítico global.
Minerais estratégicos
Em entrevista à BBC News Brasil, o geólogo Adam Simon, professor da Universidade de Michigan, afirmou que dados indicam que a Groenlândia poderia conter até 25% dos recursos mundiais de terras raras. A estimativa aponta para ao menos 1,5 milhão de toneladas desses minerais. Além das terras raras, a região teria lítio, grafite e urânio. Também são citados cobre, níquel e ferro. A diversidade mineral reforça o interesse internacional.
As terras raras são compostas por 17 elementos químicos utilizados em diversos setores industriais. Esses minerais são considerados essenciais para a transição energética. Eles são empregados na fabricação de superímãs de alto desempenho. Esses componentes estão presentes em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas. Também são usados em painéis solares e baterias.
Além do uso energético, as terras raras são aplicadas em equipamentos eletrônicos e sistemas de comunicação. Smartphones, fibras ópticas e dispositivos digitais dependem desses elementos. O potencial militar também é apontado como fator relevante. Aviões de caça, drones e submarinos utilizam componentes derivados desses minerais. Sistemas de radar dependem desse fornecimento.
Outro fator citado é a disputa entre Estados Unidos e China pelo controle da cadeia produtiva desses minerais. A China responde por cerca de 70% da produção mundial de terras raras. O país controla a maior parte do refino e da produção de ímãs. Esse domínio influencia cadeias industriais globais. O enfrentamento entre as potências envolve acesso e controle desses recursos.
Interesse no Brasil
Nesse cenário internacional, o Brasil e Minas Gerais assumem papel relevante na disputa por minerais estratégicos. O estado mineiro possui jazidas de terras raras em diferentes regiões. Poços de Caldas, Caldas e Araxá são citadas como áreas estratégicas. O potencial mineral é considerado significativo em escala global. Esse cenário atrai a atenção de governos e empresas estrangeiras.
O interesse dos Estados Unidos pelas reservas brasileiras já se manifestou por meio de contatos institucionais. O governo norte-americano procurou a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais para discutir cooperação na extração de terras raras. A iniciativa foi interpretada como sinal de atenção estratégica ao país. As conversas envolveriam possibilidades de atuação conjunta. O episódio reforçou o interesse externo nos recursos brasileiros.
A pesquisadora Ana Paula Lemes, da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, avalia que o movimento precisa ser observado com atenção. Segundo ela, o Brasil possui a segunda maior reserva de elementos de terras raras do mundo. A pesquisadora associa o cenário a pressões geopolíticas sobre países detentores desses recursos. Minerais críticos passaram a ser tratados como questão de segurança nacional. O tema envolve interesses econômicos e militares.
Além das terras raras, outros minerais brasileiros despertam interesse internacional. Nióbio, lítio, níquel, grafite, cobre, cobalto, manganês e vanádio são citados. Minas Gerais abriga a maior jazida de nióbio do mundo, localizada em Araxá. O estado também está no centro das disputas pelo lítio. A região do Vale do Jequitinhonha concentra parte dessas reservas.
O que o Nióbio?

O nióbio é um metal branco, brilhante e de baixa dureza, extraído principalmente do mineral columbita, sendo conhecido nos Estados Unidos pelo nome de colúmbio. O elemento apresenta alta resistência à corrosão e a temperaturas elevadas, e pequenas quantidades adicionadas ao aço aumentam significativamente a resistência a fraturas e torções, além de reduzir o peso do material. Suas aplicações incluem a fabricação de automóveis, turbinas de avião, gasodutos, tomógrafos de ressonância magnética e equipamentos utilizados nas indústrias aeroespacial, bélica e nuclear, além de produtos como lentes ópticas, lâmpadas de alta intensidade, componentes eletrônicos e outros usos industriais.
Embora o nióbio exista em diversos países, cerca de 98% das reservas conhecidas estão localizadas no Brasil, que responde por mais de 90% do volume comercializado no mundo, seguido por Canadá e Austrália. Documentos divulgados pelo Wikileaks indicaram que minas brasileiras de nióbio constam entre os recursos considerados estratégicos pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, o que coincidiu com a entrada de grupos asiáticos no capital da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, sediada em Araxá, incluindo a aquisição de 30% da empresa em 2011 por US$ 4 bilhões. Apesar do amplo uso industrial e do domínio brasileiro sobre as reservas, não há uma política nacional específica voltada ao desenvolvimento de uma cadeia produtiva que amplie o consumo interno e agregue valor ao mineral.
Disputa política
O biólogo Luiz Paulo Siqueira, dirigente nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, afirma que o interesse dos Estados Unidos nas riquezas brasileiras é antigo. Ele relembra relatórios divulgados pelo Wikileaks. Segundo os documentos, o controle das jazidas de nióbio do Brasil já era considerado estratégico. O país detém quase o monopólio desse mineral. Atualmente, o Brasil controla mais de 98% das reservas conhecidas.
Siqueira associa a corrida por minerais à estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos. Ele cita a retomada de princípios da Doutrina Monroe. O objetivo seria restaurar a preeminência norte-americana no Hemisfério Ocidental. Analistas interpretam essa diretriz como tentativa de ampliar a influência sobre a América Latina. O controle de recursos naturais estaria inserido nesse contexto.
Por fim, o debate inclui a necessidade de um projeto nacional para os recursos minerais. Especialistas apontam desafios históricos relacionados ao modelo extrativista e exportador. A proposta envolve verticalização da produção e maior valor agregado. Também são citadas questões institucionais e ambientais. O governo de Minas foi procurado pelo portal Brasil de Fato para comentar, mas não respondeu até a publicação.
Com o Brasil de Fato





