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Crônica de uma juventude distraída | Crônicas e Contos pelo Caminho

Luiz Antônio Costa

Na idade juvenil, a gente que morava no interior de Minas não tinha noção nenhuma do que acontecia no auge da ditadura militar no Brasil. Vivíamos afastados dos grandes centros, protegidos por uma espécie de redoma invisível feita de rotina simples, rádio ligado, futebol na rua e conversa fiada na calçada. Na santa ignorância e em plena juventude, íamos tomando conhecimento dos problemas aos poucos, vivendo alguns deles sem entender direito o tamanho que tinham. Este registro, no entanto, não fala de medo nem de repressão. É o retrato de uma fase lúdica da nossa vida, quando o mundo parecia caber inteiro no quintal de casa.

O fim dos anos 1960 chegava trazendo notícias que vinham de longe e demoravam a fazer sentido. Em 1971, saía último disco dos Beatles – Let It Be – e John Lennon deixa os Beatles. A fase soou estranha, quase sem importância naquele primeiro momento. Só depois fomos entendendo que algo grande havia acabado ali. Diziam que Lennon afirmara que o sonho tinha acabado. Para nós, adolescentes do interior, o sonho apenas mudava de forma, mas continuava vivo em outras paixões.

Aqui, a tristeza pelo fim dos Beatles foi rapidamente substituída por uma alegria barulhenta e coletiva chamada Copa do Mundo. O futebol ocupava tudo. A Seleção Brasileira de 1970 não jogava, encantava. Gerson, Rivellino, Jairzinho, Tostão e Pelé pareciam personagens de uma história em quadrinhos, desses que não perdem nunca. No dia 21 de junho, o Brasil foi tricampeão no México, e a sensação era de que o país inteiro tinha vencido junto, mesmo sem entender direito o que acontecia fora das quatro linhas.

No quarto, as paredes já não tinham cor, tinham ídolos. Os pôsteres dos jogadores da seleção, desenhados a bico de pena e publicados no jornal O Estado de São Paulo, chegavam pelas mãos de meu pai, Júlio Carteiro e iam sendo colados um a um. Não faltava ninguém: Félix, Carlos Alberto, Brito, Clodoaldo e até os reservas, como Baldocchi. Cada figura era uma história, cada nome uma referência.

O tempo passou, mas algumas coisas ficaram grudadas na memória. Ainda hoje, décadas depois, aquele hino da Copa de 1970 insiste em ecoar. “Noventa milhões em ação” como lembrança viva. Em 1969, ainda meninos, ouvimos pelo rádio o milésimo gol de Pelé, marcado contra o Vasco. O locutor parecia narrar algo maior do que um gol. Depois, no cinema, antes do filme começar, vinha o Canal 100, e o futebol ganhava tela grande, trilha sonora e emoção ampliada.

As novelas tomaram conta da rotina. A Tupi ainda resistia com O Espantalho e Gaviotas. Nos intervalos, os comerciais ficavam na cabeça mais do que muita aula, como o do “Mandiopã” (um petisco de amido de mandioca extremamente popular no Brasil, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980 – vinha em caixas, parecendo pequenos discos rígidos e transparentes, quase como rodelas de plástico ou batatas cruas e secas – tornando-se um símbolo da infância de muita gente). Na Globo, Marcos Paulo virava ídolo, Suzana Vieira brilhava em Uma Rosa com Amor, e a música de abertura parecia (Oh Girl – The Chi Lites) destinada a durar para sempre. Tudo era novidade, tudo era absorvido sem filtro.

A televisão começava a se infiltrar nas casas, mas ainda era raridade. Quem tinha virava ponto de encontro. Toda noite apareciam os televizinhos, puxando cadeira, pedindo licença e ficando até tarde. Assistíamos à Tupi e à jovem Rede Globo. Praça da Alegria, A Grande Família, Chico City. Séries estrangeiras como Bonanza, Hawaii Five-O e Hulk dividiam espaço com desenhos que atravessaram gerações: Pica-Pau, Tom e Jerry, Manda-Chuva, Pernalonga e o Leão da Montanha, sempre escapando pela direita.

Enquanto isso, os jovens mudavam por fora e por dentro. As roupas ficaram coloridas, estampadas, soltas. Era herança da contracultura hippie, mesmo que a gente não soubesse explicar direito o que isso significava. Os cabelos cresceram, os tecidos ficaram leves, as influências vinham de longe. Depois, para as garotas, vieram o brilho, o cetim, a lycra e as lantejoulas. Dancin’ Days, em 1978, levou a disco music para dentro das casas e para fora delas, nas pistas improvisadas.

Do mezanino da Churrascaria Alvorada, onde eu trabalhava como DJ, dava para ver o mundo girar. A música negra dos anos 1960 aos 1970 e ganhava nova roupagem. Donna Summer, Marvin Gaye, Michael Jackson e Sylvester faziam todo mundo dançar. O cinema também mudava o jeito de sonhar. Grease transformou John Travolta em ícone. Guerra nas Estrelas reinventou os heróis e fez Luke Skywalker e Han Solo parecerem tão próximos quanto os jogadores da seleção.

A música brasileira seguia forte, diversa, inquieta. Roberto Carlos em fase rock reinava, a Jovem Guarda deixava marcas, a MPB florescia com nomes que atravessariam o tempo. O rock progressivo, o psicodélico e a disco conviviam no mesmo espaço, na mesma juventude, no mesmo coração.

Quando Elvis Presley morreu, em 1977, pareceu que mais um ciclo se encerrava. A comoção foi grande, mesmo longe dos grandes centros. A década terminava como havia começado: com uma notícia que vinha de longe e mudava tudo, ainda que a gente só fosse entender isso muito tempo depois.

Hoje, olhando para trás, fica claro que vivíamos em um país duro, fechado, vigiado. Mas naquela fase da vida, o mundo era outro. Era feito de música alta, futebol no rádio, televisão compartilhada e sonhos sem nome. A ditadura passava ao fundo, quase invisível, enquanto a juventude seguia brincando de viver.

Crônica é baseada em fatos reais vividos pelo autor nos anos 70.

@redehoje
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