
Luiz Antônio Costa
O crepúsculo de inverno chega manso, por volta das cinco e meia da tarde. Junho caminha devagar em algum ponto do início dos anos 1970. O ar é seco, o céu limpo — não exatamente azul, mas aberto, mesmo sem nuvens. É inverno, embora o frio ainda não tenha decidido se impor.
A cidade se deixa cortar pela ferrovia, que serpenteia uma área quase vazia, conhecida pelos moradores como Patrimônio. Ali, onde hoje o silêncio ainda mora, o futuro já ensaia seus passos. No século seguinte, surgirão construções, o Terminal Rodoviário, o sistema de abastecimento de água, uma estação, a Secretaria de Obras, o aeroporto e até uma rodovia, a BR-365. Mas isso ainda é promessa distante.
Por enquanto, o que existe é o Cerrado em sua forma mais simples: buracos abertos na terra para a retirada de areia ao pé da serra, poças grandes onde as crianças improvisam piscinas, choças ocupadas por leprosos, casas modestas de gente simples e o estande de tiro do Tiro de Guerra. Tudo parece provisório, como se o lugar estivesse apenas esperando o tempo passar.
Dali, do alto, a vista se abre para uma planície extensa. O olhar alcança cores diversas, cortadas por um fundo enfumaçado de queimada próxima à Lagoa Seca. A terra ainda é quase virgem. Cerrado puro. Não há grandes lavouras — ninguém se anima. O que se vê são pastagens, algum plantio de cana para o gado, pequenas roças de subsistência, pomares tímidos em fazendas e sítios. Gado há bastante, sobretudo o leiteiro, pontuando a paisagem como quem pertence a ela.
O vento não aparece. Apenas uma brisa fria passa de leve, quase respeitosa. E isso ajuda a ouvir.
Do alto da Serra do Cruzeiro, na região da pedreira, chega o som de duas vozes. São dois irmãos que caminham pela linha férrea da RFFSA, cantando enquanto seguem adiante.
Cantam uma moda caipira: Dona Jandira. O refrão sobe, bate na serra e volta em eco. A cidade quase imóvel, a paisagem bucólica e o silêncio do entorno formam um cenário de aparência rural, perfeito para que a canção seja solta a plenos pulmões, sem pressa nem vergonha.
Talvez o dueto não seja tão afinado quanto o dos verdadeiros donos da música, Zico e Zeca. Mas isso pouco importa. A melodia se grava em algum canto do grande computador que é o cérebro humano. E, sempre que volta a tocar no rádio ou é assobiada por um caipira saudosista, aquela mesma cena retorna, inteira, pintada no subconsciente.
É como abrir uma janela da alma. Revela-se um tempo em que o dinheiro é curto, as facilidades do mundo moderno ainda são ficção — talvez nem isso —, mas as pessoas parecem menos sós, mais solidárias e, sobretudo, menos preocupadas.
Crônica integrante do primeiro livro do autor O Som da Memória publicado em 2012.





