
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay
Luiz Antônio Costa
O relógio da Igreja Santa Luzia parecia caminhar mais devagar nas tardes de domingo do início dos anos 1970 em Patrocínio. Para nós, o tempo não era medido em horas, mas na expectativa do que aconteceria quando as luzes finalmente se apagassem. O cinema era um evento social que exigia o nosso melhor. Vestir a “roupa de domingo” era o primeiro passo do ritual. O cheiro de sabonete, perfume Lancaster e de roupa passada anunciava que a jornada estava prestes a começar.
Naquela época, o coração da cidade batia entre duas salas distintas: o Cine Rosário e o Cine Patrocínio. Cada um com sua alma, cada um com sua história, dividindo a preferência de uma juventude ávida por sonhos e por vida.
O Cine Rosário era o reduto da nostalgia pura e da energia indomada. Com seu piso de taco que rangia sob nossos passos e cadeiras de madeira que guardavam o cansaço de gerações, ele exalava um charme rústico e acolhedor. Lá, o público era formado por garotos mais rebeldes que faziam do Rosário o seu quartel-general. Era o lugar de quem buscava na tela o reflexo de uma coragem bruta e sem artifícios, em sintonia com a poeira das ruas.
O surrealismo ganhava vida nas tardes dedicadas a El Santo, o Mascarado de Prata. O herói mexicano enfrentava múmias e monstros em uma tela que parecia maior que o próprio mundo, enquanto a plateia vibrava como se estivesse no ringue. As lutas livres eram o ápice daquela rebeldia. Cada golpe do Mascarado era acompanhado por gritos e pelo bater rítmico dos pés no chão de madeira, um trovão que ecoava por toda a rua e anunciava que o bem estava vencendo.
Mas se o Rosário era a aventura, o Cine Patrocínio era o templo do luxo e o ponto de encontro definitivo. Era, sem dúvida, o “point” preferido da juventude patrocinense, o lugar onde todos queriam ser vistos. Havia uma hierarquia natural no tempo. As tardes pertenciam aos mais jovens, às crianças que ainda descobriam o mundo. Já as noites eram território sagrado dos adolescentes e dos jovens, o palco dos primeiros encontros e flertes.
O corredor acarpetado sob nossos pés abafava o som do mundo exterior. Aquele silêncio aveludado ia preparando nossos sentidos para a imersão total, longe da poeira da rua e do calor do cerrado mineiro. E havia a música de espera. Antes mesmo da primeira imagem surgir, o ambiente era inundado pelas orquestras de Billy Vaughn e Ray Conniff. Aquelas melodias suaves eram o prelúdio da sofisticação que o cinema representava. O desfile humano era uma atração à parte. As garotas, impecáveis em seus vestidos engomados, caminhavam com uma elegância estudada. Elas dominavam a arte de serem vistas sem parecer que estavam olhando para ninguém. Eram elas, as meninas, que ostentavam a audácia daquela tarde. Com uma maestria singular, estouravam bolas enormes de chiclete Ping-Pong, preferencialmente no sabor Tutti-Frutti, o favorito absoluto de todas as turmas. O estalo seco do chiclete rompendo no rosto das garotas era a trilha sonora daquela juventude feminina atrevida. Era um som que cortava a formalidade do ambiente e servia como um código de independência e charme.
Beber uma garrafinha de Banho de Lua era o ápice daquela experiência. O guaraná patrocinense, produção da nossa terra que humilhava qualquer marca nacional, era saboreado como se fosse um elixir raro e precioso. Tínhamos que fazer aquela garrafinha durar a tarde inteira. A grana era curta e beber uma só já era um privilégio imenso. Cada gole era calculado para acompanhar a transição do mundo real para o mundo da fantasia.
Dentro da sala, o ar condicionado nos envolvia em um frescor que parecia vir de outro planeta. A tela se a abria e começava a trilha – A lenda da Montanha de Cristal, com a Orquestra Mantovani. Antes da fita principal, havia um compromisso inadiável com a realidade brasileira: o jornal cinematográfico. Esperávamos o jornal com mais ansiedade que o próprio filme. Quando os acordes de “Na Cadência do Samba”, executados pela Orquestra Tabajara, começavam a tocar, o cinema inteiro entrava em um transe coletivo. Eram as cenas majestosas do Canal 100. O Maracanã, o Mineirão, o Pacaembu ou qualquer outro estádio surgiam banhados por um sol dourado que parecia brilhar apenas para o futebol nacional. Em Slow Motion (câmera lenta) capturava o movimento perfeito do craque, o suor voando, a rede balançando como um véu de noiva. O futebol ali não era apenas um jogo; era poesia pura projetada em 70mm.
Quando a fita partia frequentemente, e o cinema vinha abaixo em vaias. As luzes de emergência se acendiam e os namorados eram pegos de surpresa nos beijos proibidos, sempre sob o olhar vigilante da lanterna do Benízio. Passado o susto, a projeção voltava e recomeçava a jornada por mundos distantes e histórias que moldariam nossos corações para sempre.
Os românticos imbatíveis desfilavam pela tela. Os jovens suspiravam com Blue Balloon, nos perdíamos na rebeldia de A Primeira Noite de Um Homem e chorávamos com a tragédia de Romeu e Julieta e o luto de Love Story. As meninas tinham olhos apenas para os italianos. O carisma de Gianni Morandi e a presença magnética de Giuliano Gemma faziam as jovens de Patrocínio sonharem com as praças e os amores da Itália.
Para os que buscavam a liberdade, havia o grito de Sem Destino (Easy Rider). As motocicletas cruzando a tela traziam um desejo de estrada que fervilhava na juventude que se sentia presa ao interior. O perigo e a elegância chegavam com James Bond em 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade. O espião britânico era o ícone de um mundo cosmopolita que espiava pela fresta da nossa sala escura. Vibrávamos com a amizade e a audácia de Butch Cassidy and the Sundance Kid e mergulhávamos na melancolia urbana e crua de Perdidos na Noite (Midnight Cowboy), que nos mostrava o outro lado do sonho americano.
O cinema era o nosso espelho e nossa janela. Nas telas víamos quem queríamos ser; nas poltronas, sob o olhar atento de Benízio, éramos quem realmente fomos: jovens protegidos pelo aroma de pipoca e sonhos de domingo. Quando as luzes se acendiam definitivamente, o retorno ao vai-e-vem da Praça da Santa Luzia era um despertar suave. Saíamos flutuando pela noite mineira, ainda impregnados pela trilha sonora e pelo brilho eterno dos astros.
Hoje, os prédios podem ter mudado, mas o som daquela Montanha de Cristal e o gosto do guaraná patrocinense Banho de Lua permanecem intactos. O cinema passou, mas o som da memória é eterno.





