
Eustáquio Amaral, há 48 anos não falha nas suas notas, análises e comentários, feitos de Belo Horizonte, mas como se estivesse em Patrocínio.
Na “Primeira Coluna’ há quase meio século, Eustáquio Amaral faz defesa da história de Patrocínio, de vários setores – especialmente Saúde – e da liberdade de comunicar
Da Redação da Rede Hoje
No próximo dia 25 de fevereiro de 2026, uma das mais tradicionais vozes da imprensa patrocinense alcançará um marco raro: 48 anos de publicação ininterrupta. A Coluna de Eustáquio Amaral, nascida em 1978 nas páginas do então jovem Jornal de Patrocínio (JP), atravessou gerações, governos, transformações econômicas e revoluções tecnológicas sem perder seu propósito original: colocar Patrocínio acima de todos.
Criada em um sábado, 25 de fevereiro de 1978, quando o JP tinha pouco mais de quatro anos de existência, a coluna surgiu de uma inquietação cívica. À época, Eustáquio Amaral atuava como um dos coordenadores técnicos da Secretaria Estadual de Planejamento, órgão estratégico do governo mineiro. Por ali passavam programas estruturantes que impactavam diretamente a região de Patrocínio, como o Polocentro, voltado ao desenvolvimento agrícola do Cerrado.
O que chamou a atenção do então jovem técnico foi a ausência de mobilização das lideranças locais. Deputados majoritários, muitos oriundos de outras cidades, pouco reivindicavam ou sequer demonstravam conhecimento pleno dos projetos que poderiam beneficiar o município. Havia um vazio político e institucional. Eustáquio percebeu que poderia ocupar, ao menos em parte, esse espaço por meio da informação qualificada.
Assim nasceu a “Primeira Coluna”, fruto de uma negociação simples e amadora entre o diretor do JP, Joaquim Correa, e o pai do autor, assinante do jornal. O objetivo inicial era informar, reivindicar e antever caminhos para o futuro da região. Quase meio século depois, a proposta permanece intacta.
Ao longo de 48 anos, a coluna ultrapassou o formato tradicional de crônica opinativa. Transformou-se em verdadeiro repositório histórico de Patrocínio e do Triângulo Mineiro. Eustáquio mergulhou em arquivos, documentos, censos e relatos orais para reconstruir narrativas muitas vezes esquecidas.
Temas históricos
Entre os temas marcantes resgatados nos arquivos digitais da Rede Hoje — onde a coluna também é publicada aos domingos — estão personagens emblemáticos como o fenômeno Índio Afonso e o lendário Rei Negro Ambrósio. Figuras que transitam entre a tradição oral e os registros documentais ganharam novas luzes a partir das pesquisas do colunista.
Outro destaque foi a série sobre todos os censos de Patrocínio desde 1832, um trabalho minucioso que ajudou a compreender a formação demográfica, econômica e social do município. A análise dos dados históricos permitiu comparações com os indicadores atuais, revelando ciclos de crescimento e estagnação.
A coluna também revisitou o início do Clube Atlético Patrocinense (CAP) em seu período amador, registrando os primórdios do futebol local. Ao mesmo tempo, traçou perfis de prefeitos, discutiu decisões administrativas e analisou momentos políticos decisivos da cidade.
No campo religioso e cultural, Eustáquio destacou a presença dos padres holandeses em Patrocínio, com ênfase especial no Padre Eustáquio, além de abordar histórias curiosas como a do bispo neto de padre — narrativa que despertou grande repercussão entre leitores.
A polêmica sobre Cel. Rabelo
A política local e regional sempre esteve presente nas análises. O polêmico Coronel Rabelo foi tema de revisões históricas que confrontaram versões consolidadas. A presença de Juscelino Kubitschek na cidade também foi registrada, reforçando o vínculo de Patrocínio com momentos importantes da história nacional.
Na economia, a coluna abriu debates pioneiros, como a discussão do Valor Adicionado Fiscal (VAF) na imprensa mineira. Eustáquio analisou indicadores de PIB, tributos e estatísticas públicas muito antes de tais temas se tornarem recorrentes nos meios municipais.
Outro ponto recorrente foi a exploração de minerais no solo patrocinense desde a década de 1980, assunto tratado com base técnica e visão prospectiva. A combinação entre memória histórica e análise econômica tornou-se marca registrada do autor.
Em crônica recente comemorativa aos 48 anos, um elemento inusitado surgiu: a “manifestação” de um ser extraterrestre — a Inteligência Artificial. Em tom bem-humorado, a IA descreveu a trajetória da coluna como experiência rara na imprensa municipal brasileira, ressaltando seu caráter amador, independente e persistente.
A autodefinição da coluna como “simples na forma e firme no propósito” sintetiza sua essência. O que começou como gesto de cidadania transformou-se em instrumento de preservação histórica e acompanhamento crítico do desenvolvimento local.
Eustáquio Amaral nunca reivindicou títulos grandiosos. Alguns admiradores chegam a classificá-la como a coluna amadora mais persistente do Brasil — exagero que o próprio autor refuta com modéstia. Mas é inegável que se trata da mais longeva coluna contínua de Patrocínio e do Triângulo Mineiro.
A publicação dominical na Rede Hoje ampliou o alcance dos textos, digitalizando décadas de memória e permitindo que novas gerações tenham acesso ao acervo acumulado desde 1978. O que antes estava restrito ao papel hoje circula em plataformas digitais, preservando a história local.
Às vésperas do meio século — marca que será alcançada em 2028 — a coluna segue ativa. “Quiçá até o apito final do Senhor”, escreve o autor com a serenidade de quem compreende o tempo como aliado e testemunha.
No epílogo de sua crônica comemorativa, Eustáquio reafirma que o tempo voa, mas não para. E enquanto houver fatos a resgatar, números a analisar e memórias a registrar, a Primeira Coluna continuará cumprindo sua missão.
Sem Inteligência Artificial, como ele faz questão de frisar. Naturalmente.





