
Ao longo de 2025, a queda acumulada no preço do leite ficou entre 22% e 25%; no início de 2026, a recuperação não ocorreu de forma integral. Imagem Wolfgang Ehrecke por Pixabay
Em entrevista à Rede Hoje, o presidente da Coopa, Fausto Amaral da Fonseca, afirma que aumento das importações desestabilizou o mercado, derrubou preços e agravou o endividamento dos produtores da região.
Da Redação da Rede Hoje
A produção de leite no Alto Paranaíba enfrenta, em fevereiro de 2026, um cenário de forte crise econômica. Embora a região permaneça entre os principais polos produtores do país, produtores relatam dificuldades para manter a atividade. O tema foi debatido em audiências públicas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), onde representantes do setor apontaram perda de rentabilidade e pressão financeira nas propriedades.
O preço pago ao produtor em Minas Gerais varia entre R$ 2,02 e R$ 2,33 por litro. Em alguns casos, segundo relatos apresentados nas discussões, o valor recebido fica até R$ 0,50 abaixo do custo de produção. A diferença compromete o equilíbrio das contas, com produtores operando com margens mínimas ou acumulando prejuízos.
Ao longo de 2025, a queda acumulada no preço do leite ficou entre 22% e 25%. No início de 2026, a recuperação não ocorreu de forma integral. O Conseleite-MG projetou valor de referência próximo a R$ 2,32, mas produtores relatam instabilidade nas negociações com laticínios e renda ainda pressionada.
Fausto Amaral da Fonseca: “O mercado foi desestabilizado”

Fausto Amaral da Fonseca, presidente da Cooperativa Agropecuária de Patrocínio (Coopa). Foto: Asscom | Cooopa
Em entrevista concedida à Rede Hoje, o presidente da Cooperativa Agropecuária de Patrocínio, Coopa, Fausto Amaral da Fonseca, afirmou que a atual crise de preços no setor leiteiro foi desencadeada pelo aumento súbito das importações.
Segundo ele, o mercado interno foi desestabilizado pela substituição do produto nacional por volumes vindos da Argentina, Europa e Nova Zelândia. “Antes desse movimento, o produtor brasileiro recebia em média R$ 3,00 por litro. Com a entrada do leite estrangeiro, impulsionada por excesso de oferta global e crises externas, houve uma queda significativa nos valores pagos ao campo”, declarou à reportagem.
Fausto acrescentou que o cenário coincidiu com retração no consumo doméstico, ampliando o desequilíbrio entre oferta e demanda. Para ele, a combinação de produção interna recorde em 2025 com importações elevadas agravou a pressão sobre os preços.
Alto Paranaíba produz 7% do leite nacional
O dirigente destacou que o impacto é ainda mais sensível no Alto Paranaíba, responsável por cerca de 7% da produção nacional de leite. “Qualquer oscilação de mercado aqui assume uma dimensão regional muito forte”, afirmou. Ele ressaltou que a crise atingiu produtores de Patrocínio e municípios vizinhos justamente em um período de investimentos em tecnologia, genética e infraestrutura. Muitos assumiram compromissos financeiros quando o litro do leite estava em patamares mais altos. “Hoje, vários produtores estão descapitalizados, tentando manter as operações com o produto desvalorizado e com dívidas assumidas em outro cenário”, pontuou.
O presidente da Coopa diz também que “a produção de leite na região é muito tecnificada, o que gera custos mais altos, quando ocorre com o mercado o que aconteceu agora, o produtor tem mais dificuldade”, explica
Importações e investigação
Lideranças regionais apontam as importações de leite em pó do Mercosul — especialmente da Argentina e do Uruguai — como fator de impacto direto. Entidades como o Sindicato Rural de Rio Paranaíba e a Cemil levaram o tema às audiências na ALMG. O setor aguarda decisão prevista para maio de 2026 sobre investigação de dumping relacionada às importações, que poderá resultar em medidas comerciais.
A reforma tributária em vigor a partir de 2026 também influencia o segmento. Produtores com faturamento superior a R$ 3,6 milhões tornam-se contribuintes obrigatórios do IBS e da CBS, enquanto aqueles abaixo desse limite podem optar pela adesão. Grandes produtores poderão utilizar créditos tributários; pequenos relatam dificuldades de adaptação.





