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O Som da Memória — A vida nada exclusiva

Luiz Antônio Costa

Houve um tempo no Brasil em que, se alguém gritasse “Ô Luiz!”, três pessoas respondiam, duas olhavam para trás e uma ainda perguntava: “Qual deles?”. Entre as décadas de 1960 e 1980, o nome Luiz reinava absoluto nos cartórios. Segundo o Censo Demográfico de 2010 do IBGE, ele chegou a ocupar o 11º lugar entre os nomes mais comuns do país — e o 9º entre os homens — com mais de 1,1 milhão de brasileiros carregando o mesmo batismo.

Ou seja: exclusividade nunca foi exatamente o forte do nome.

Naquela época, o Brasil parecia dividido em alguns grandes grupos populacionais: José, Antônio, João, Pedro e Luiz de um lado; Maria, Ana, Aparecida, Fátima e Marlene do outro. Era quase um sistema informal de identificação nacional. Bastava chamar um desses nomes em qualquer reunião de família, escola ou festa de bairro para mais de uma pessoa atender.

E foi justamente essa abundância de nomes iguais que já me colocou em algumas situações curiosas.

Algum tempo atrás faleceu na cidade onde moro uma pessoa que tinha exatamente o mesmo nome que o meu. A notícia foi divulgada nas rádios e, como ainda é costume por aqui, também no carro de publicidade que passa pelas ruas anunciando os acontecimentos da cidade.

Não demorou muito para o telefone tocar.

Era um antigo colega de rádio.

— Alô?

Do outro lado, silêncio.

— Alô?

Então ele respondeu, meio assustado:

— Uai… que brincadeira é essa?

Expliquei que não era brincadeira nenhuma. Quem havia falecido era um homônimo. Mesmo nome, outra pessoa. Depois de alguns segundos de alívio, demos até risada da situação. Mas ali ficou claro que, quando o nome é comum demais, até notícia de falecimento pode acabar causando confusão.

Mas a história não parou por aí.

Algum tempo depois viajei para Portugal com a família. No aeroporto, como todo passageiro que sai do país, precisei passar pela Polícia Federal.

Minha família passou normalmente.

Eu não.

Fiquei parado ali.

Minutos passando.

A família já um pouco à frente começou a olhar para trás. Minha filha voltou preocupada:

— O que foi, pai?

Eu também ainda não sabia.

Em certo momento pedi ao agente da Polícia Federal se poderia agilizar um pouco, porque corríamos o risco de perder o voo. Ele respondeu com uma calma que não ajudou em nada:

— Olha… se o problema que apareceu aqui se confirmar, perder o avião vai ser o menor dos seus problemas.

Confesso que aquilo não tranquiliza ninguém.

Depois de algum tempo ele voltou e explicou:

— Desculpe a demora. Existe uma pessoa com o mesmo nome sendo procurada, então precisamos verificar antes de liberar.

Pronto. Lá estava novamente o tal do homônimo aprontando alguma.

Começou então uma pequena investigação: nome da minha mãe, cidade onde nasci, documentos, conferências. No fim das contas ficou comprovado que eu era apenas mais um cidadão comum com um nome bastante comum.

Fui liberado.

Quando contei a história para a família, já na sala de embarque, uma senhora que também aguardava seu voo e acabou ouvindo a conversa comentou, preocupada:

— Eu não sabia que tomar hormônio podia dar problema na viagem!

Tive que explicar, entre risos:

— Não é hormônio, minha senhora… é homônimo. Quer dizer apenas alguém com o mesmo nome.

Ela ficou aliviada.

E eu também.

Afinal, descobri que ter um nome muito popular no Brasil pode trazer uma vantagem curiosa: você nunca está sozinho… sempre existe outro por aí vivendo alguma história que, de vez em quando, quase sobra para você.

Crônica baseada em fatos reais que integra o livro inédito Crônicas e Contos do Caminho.

@redehoje
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