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Disco de vinil e sombras tenebrosas | O Som da Memória

Avenida Rui Barbosa, vista da parte de cima do corte da ferrovia, ainda sem o viaduto. Foto: Patrocínio que eu ví, segunda edição

Luiz Antônio Costa

Patrocínio, naquela época, ainda era uma cidade de cheiro de terra molhada e de vozes conhecidas ecoando pelas ruas sem pressa. Eu morava na última casa da Rua Presidente Vargas, número 2806, onde a rua se estendia como a mais comprida da cidade, mas terminava ali, no limite do mundo que eu conhecia. Era uma Patrocínio bucólica, de janelas abertas para o vizinho, de crianças correndo descalças e de um tempo em que o progresso ainda não tinha chegado com asfalto e viadutos para apressar tudo.

Na infância, pré-adolescência, com uns 14 anos por aí, o dia começava cedo. Saía do bairro São Judas — que chamavam de Alto da Estação — recolhendo marmitas nas casas. Eram embrulhadas em pano, almoço para os magarefes do Frigorífico Dourados. A gente recebia das famílias e levava a pé, pela estrada que hoje é do aeroporto, mas que na época só tinha cascalho, só poeira no seco e lama na chuva. Uns 6 km, calculo eu agora, mas naqueles pés de menino pareciam aventura. Chegávamos antes das 11h, entregávamos e voltávamos, felizes com o pagamento mensal que ajudava nas necessidades de pré-adolescente. Não havia carro na turma; bicicleta era luxo para poucos. A gente ia e voltava conversando, perseguindo passarinhos, rindo das histórias que inventávamos pelo caminho.

Depois veio a juventude, aos 17 anos, quando entrei no rádio — na Difusora, que me abriu as portas da imprensa e da palavra falada. Comecei a colaborar com os jornais da cidade, escrevendo crônicas e colunas que, na simplicidade daquelas linhas, faziam a gente se sentir importante, como se a voz da rua ganhasse eco no papel. Anos mais tarde, em 1983, fundamos a revista Presença — José Carlos Dias e eu —, uma publicação mensal que resistiu por 13 anos, registrando a vida, a política, a polícia, as festas, os esportes e as pequenas grandes histórias de Patrocínio.

Trabalhava de dia, estudava à noite no Colégio Comercial Alto Paranaíba, que já desapareceu do mapa da cidade. O prédio ficava onde hoje funciona o Colégio Bias de Priene, na Rua Quintiliano Alves, quase na esquina com Faria Pereira. Depois da aula, o caminho de volta era um ritual sagrado: subir pela Avenida Barbosa — antes do viaduto engolir o céu — e parar no Café Mirim. Ali, um chocolate quente fumegante e um pão de queijo quentinho, daqueles que derretiam na boca, eram o conforto simples que aquecia o peito depois da aula. Era o intervalo entre o dever e o sonho, entre a juventude que corria e o tempo que, sem a gente perceber, já começava a passar devagarinho.

Em casa, junto com minha irmã, Darc, ligava a televisão para ver na extinta TV Itacolomi, Sombras Tenebrosas, aquele terror light que dava um frio gostoso na espinha. Mas o melhor mesmo eram as noites de sábado. A cidade se enfeitava para o vaivém na Praça Santa Luzia — ainda sem a fonte luminosa, com árvores podadas redondinhas, como se fossem soldadinhos de chumbo em formação. Dali, descíamos pela Presidente Vargas, entre Marechal Floriano e Cel. João Cândido, onde ficava o salão de baile da moda: a Churrascaria Alvorada.

Ah, a Alvorada! Era democrática, cabia todo mundo. Rapazes e moças caprichavam na roupa. As meninas chegavam com minissaia recém-chegada das capitais, saias curtíssimas que enlouqueciam a gente, ou calças slacks justas, prensadas no tornozelo, tecido elástico que grudava no corpo. Nós, os rapazes, usávamos calças e camisas feitas por costureiras da cidade — bem-feitas, hein? Eu gostava de calça e jaqueta pretas; quando um conjunto ficava surrado, mandava fazer outro igualzinho (risos). Ou jeans com camisa ban-lon, aquela malha texturizada dos anos 60 e 70, cara e rara. No inverno, blusa caxarrel da Casa Moderna, do Facury ou do Jamal. Os mais abonados iam buscar em BH ou São Paulo, mas a gente se virava bem.

Lá dentro, os conjuntos tocavam: Metralhas, Brasilian Hippies, H6, Super Som 201… Os músicos eram quase família: Cabide, Marconi Mathias, Wanderley Guarda, Zé Eustáquio, Edson Bragança, Luiz Cabeleira, Rizzo, Zé Piquira, Anísio, Átila; depois Lazinho Lacerda, Zé Onofre, Sonin, Pindoba, Hélio Tinoco… Os nomes mudavam, mas o som era o mesmo, admirados por todos.

E as serenatas! Saíamos com a turma, colhendo flores — “roubando” — nos jardins alheios. Levávamos vitrola de mão, discos de vinil com os sucessos da Jovem Guarda, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa e cantores internacionais: Beatles, Bee Gees, Joan Baez, Johnny Rivers… Às vezes alguém da turma dava uma palinha, cantava com voz desafinada mas cheia de emoção. Terminávamos na Praça Santa Luzia, de bicicleta ou a pé, porque carro ninguém tinha. Era felicidade pura, sem pressa, sem violência. Os pais eram rígidos, mas a cidade era pacata: uma briga de jovens virava notícia, assassinato era assunto para o ano inteiro.

Tudo era festa para aquela geração. A gente não sabia dos problemas políticos graves do país — ditadura, AI-5, repressão. Só fomos tomar conhecimento depois, no Tiro de Guerra, em 73. Naquela altura, a vida era o rádio, as colunas, as namoradas descendo a Barbosa, o chocolate quente, as serenatas e a Alvorada pulsando aos sábados.

Num desses sábados, porém, a cidade parou de repente. Não por um crime violento daqueles que viravam manchete o ano inteiro, mas por um acidente que gelou o sangue de todos. Glorinha — aquela moça alegre, que dançava, ria — chegou à Churrascaria Alvorada para o show do Márcio Greick, o cantor de “Impossível acreditar que perdi você”. Estava animada, o movimento na porta era daqueles que enchiam o peito de expectativa. Mas, bem em frente ao templo da alegria, um Fusca a atropelou. De repente, ela não estava mais ali. Pela primeira vez, sentimos na pele que o tempo, mesmo na nossa Patrocínio bucólica e sem pressa, não perdoava ninguém — nem os jovens, nem os sonhos, nem as noites de sábado.

Ficou um gosto agridoce na boca: a juventude era eterna enquanto durava (já dizia o poeta Vinicius de Moraes), mas acabava como tudo acaba, às vezes de forma abrupta e injusta. A cidade chorou Glorinha por muito tempo; o acidente virou assunto sussurrado nas esquinas, nas missas, nas rodas de amigos. Depois veio a vida adulta, com suas realidades mais duras, seus desafios, suas responsabilidades. Boa também, claro — um pouco mais difícil, mas boa! —, com o rádio ainda ecoando, a revista Presença nas bancas, as crônicas no jornal, e a memória daquela Patrocínio guardada no peito como um disco de vinil riscado, mas tocando bonito até hoje.

Hoje, a Presidente Vargas está bem localizada, o número 2806 parece pequeno perto dos prédios novos. Mas dentro de mim, a rua ainda é comprida, a praça ainda tem árvores redondas, e a Alvorada ainda toca baixinho. Era um tempo feliz. Não sabíamos de nada. E talvez por isso tenha sido tão bom.

@redehoje
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