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Um dedo de prosa com Inácio Verdureiro | O Som da Memória

Luiz Antônio Costa

Há pessoas que já passaram para outra dimensão e, mesmo depois de muito tempo, deixam marcas. Esse é o caso de um homem simples, que trabalhou numa loja de materiais de construção e ajudou a reconstruir a Igreja Matriz – passando de das torres para uma torre só -, transportando pedras em sua carroça. Depois, tornou-se dono de uma banca no Mercado Municipal, onde reunia variedades de pimentas, feijão, amendoim, mel e buchas vegetais. Teve muitos filhos e vivia alegre, muito alegre, espalhando leveza por onde passava. Inácio Souza, mas para todos, simplesmente, Inácio Verdureiro.

Dia desses, ao produzir uma reportagem para a Rede Hoje sobre o Mercado Municipal – que vai retornar às origens, que bom -, fui buscar no arquivo uma entrevista que fiz com ele justamente ali. E então percebi que tem gente que vai embora, mas não sai da gente, ficando como um riso que ecoa no silêncio. Assim era Seu Inácio Verdureiro, um homem simples, mas cheio de histórias e sabedoria. Ao ouvir novamente sua voz, tudo voltou como antes, como se ele nunca tivesse partido. Era como vê-lo outra vez, encostado no balcão, pronto para mais um dedo de prosa.

Seu Inácio não era homem de pressa, era feito de tempo vivido, de passos lentos e olhar atento, desses que sabem ouvir antes de falar e que falam com o peso de quem já viu muita coisa. Criou os filhos com a dignidade de quem nunca desistiu, mesmo nas dificuldades, e dizia com orgulho que sua riqueza era a paz dentro de casa, porque via muita gente sofrer por causa de família e agradecia por não ter esse problema. Ele vivia de bem com a vida, e isso não era discurso, era prática diária, visível no jeito leve com que levava tudo.

Antes de ser conhecido pelas pimentas e pelas buchas vegetais na sua banca do mercado, em sua velha Kombi, Seu Inácio teve vida de estrada, de carro de boi, de poeira e de esforço, quando ainda era moço e tinha o corpo disposto para enfrentar o que viesse. Ele contava com brilho nos olhos que ajudou a puxar pedra para a construção da Igreja Matriz, naquela época em que tudo era mais difícil e mais demorado, e que cada pedra levada tinha o peso do braço e da fé. Dizia que foi lá pelos anos trinta, mas logo emendava que não sabia ao certo, porque o que importava não era a data, mas o fato de ter participado daquilo.

O carro de boi rangia pelas ruas, e ele guiava com paciência, porque naquele tempo tudo era feito sem pressa e com mais respeito ao tempo das coisas. Ele dizia que gostava, que tudo que a gente faz com gosto fica bom, e ali estava uma filosofia inteira dita de maneira simples, sem precisar de explicação complicada. Depois vieram as boiadas, grandes, imensas, com seiscentos, setecentos, às vezes oitocentos bois atravessando caminhos, e ele lá no meio, ponteando, conduzindo com experiência e coragem.

Ele lembrava que chovia mais naquele tempo, que os córregos enchiam e muitas vezes era preciso esperar a água baixar, ou então arriscar a travessia, e a vida era feita dessas escolhas. Mesmo assim, dizia que nunca teve problema, que sempre foi um homem tranquilo, e que a vida, com ele, sempre caminhou sem grandes tropeços. Talvez fosse sorte, talvez fosse fé, ou talvez fosse o jeito dele de encarar as coisas, sem peso desnecessário.

Quando o assunto virava futebol, o semblante mudava, o sorriso abria e a conversa ganhava outro ritmo. Seu Inácio era cruzeirense de coração, e dizia com aquela malícia boa que gostava de ver o Cruzeiro ganhar e o Atlético perder, e logo caía na risada, daquelas que fazem a gente rir junto sem nem perceber. Mas não era só o time grande que ocupava seu coração, ele também falava com orgulho do Patrocínio Esporte, lembrando de um tempo em que o futebol era jogado com amor à camisa e a cidade inteira participava.

A história do jogo em Araguari era uma das mais marcantes, e ele contava como quem revive cada momento. Dizia que aqui teve confusão primeiro, com jogador briguento e rádio falando demais, e quando chegou a vez de jogar lá, o clima estava pesado, tudo contra o time de Patrocínio. Mesmo assim eles foram, com a charanga acompanhando, fazendo barulho e mostrando presença, porque futebol também é coragem e resistência.

Lá, segundo ele, aconteceu de tudo, chute para todo lado, briga, pressão, gente jogando tomate, daqueles podres guardados só para isso, e no meio da confusão ele continuava firme, assistindo, com seu chapéu na cabeça, como sempre gostou. Até que, de repente, sentiu o chapéu sair voando, e quando olhou, lá estava ele, no meio do campo, e ele contava isso rindo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Um policial foi lá, pegou o chapéu e devolveu para ele, como quem reconhece que ali estava alguém importante.

Teve até mulher brava que estava na janela de casa quando a charanga saiu do estádio e ela perguntou: – É de Patrocínio? Ele: – Sim! Ela, plá, fechou a janela, e ele contava isso com mais risada ainda, transformando o que poderia ser tensão em motivo de alegria. E assim era com tudo, até as situações mais complicadas viravam boas histórias na boca dele.

Ele também gostava de música, especialmente samba e pagode, e falava com carinho de Jorge Aragão, dizendo que era dos bons, dos que valiam a pena ouvir. Em casa, tinha fitas e mais fitas, e a música era companhia constante, porque ele era homem de sentir as coisas, não apenas de viver.

Gostava de sair, de ir ao forró, de estar com gente, porque para ele a vida era movimento e convivência. E quando perguntei se ele arrumava uma namorada de vez em quando, ele fez aquela pausa, abriu um sorriso cheio de malícia e respondeu: depende… aí varêia, e logo veio a risada solta, livre, sem vergonha, dessas que só quem está de bem com a vida consegue dar.

Seu Inácio também tinha opinião sobre as coisas da cidade, dizia que Patrocínio tinha melhorado, que estava mais bonita, mais arrumada, mas que ainda tinha problemas que precisavam ser enfrentados. Contou uma vez que ouviu uma entrevista com um ladrão, e que o rapaz dizia que não queria trabalhar porque ganhava pouco, e aquilo o indignava, porque para ele o trabalho sempre foi caminho, nunca problema.

E assim ele ia falando, misturando causos, lembranças, opiniões e risadas, construindo uma narrativa que não estava em livro nenhum, mas que carregava a história de uma cidade inteira. Porque gente como Seu Inácio não conta só a própria vida, conta o tempo em que viveu, conta as mudanças, conta o que ficou.

Hoje, quando penso nele, penso com saudade boa, dessas que aquecem em vez de apertar, porque ele deixou marcas que o tempo não apaga. Está na igreja que ajudou a construir, está nas histórias do mercado, está nas lembranças de quem teve a sorte de sentar e ouvir.

E está, sobretudo, nesse som da memória que insiste em tocar de vez em quando, trazendo de volta sua voz, seu riso e seu jeito simples de enxergar o mundo, lembrando a gente de que viver bem talvez seja isso: fazer o que se pode, gostar do que se faz e rir sempre que der, porque, como ele mesmo dizia, aí varêia… e a vida segue, leve, como deve ser.

@redehoje
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