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Cerrado: nosso parque de diversões nos anos 60/70 | O Som da Memória

Gabirobas e Araçás no Cerrado patrocinense nos anos 60/70; imagem similar ao original produzida por IA/Rede Hoje

Luiz Antônio Costa

Nossa algazarra começa em torno de uma ou duas horas, depois que termina o dia de aula no Grupo Escolar João Beraldo, próximo à igreja de São Francisco. Nós ali, na na faixa dos dez anos de idade, deixamos para trás os cadernos para aventurarmos nos cerrados densos que circundam toda a pequena cidade mineira de Patrocínio. O destino preferido desse grupo animado são as terras onde, no futuro, surgirão o bairro Serra Negra e as pistas do aeroporto local. Naqueles tempos, porém, a paisagem era marcada apenas pela vegetação nativa e pela liberdade de um horizonte que parecia não ter fim nem dono.

O que desperta tanto interesse nesses jovens aventureiros é a farta despensa que a natureza oferece sem pedir nada em troca durante as estações de frutificação. Eles caminham em busca de gabirobas doces, araçás azedos, caju do campo, mamacadelas grudentas, jatobás de cheiro forte e o amarelo vibrante dos cachos de murici silvestre. Carregando latas vazias de óleo e bornais improvisados, os meninos fazem a festa enquanto colhem as delícias orgânicas espalhadas pelo chão ou nos galhos baixos. Aqueles seis ou sete amigos podem se fartar à vontade, sem qualquer preocupação com agrotóxicos ou com o custo financeiro de cada fruto colhido. É tudo de graça, nativo do campo, ninguém se preocupa.

Para aquela geração, o dinheiro é quase uma peça de ficção ou um conceito distante que não faz falta diante da abundância gratuita das matas. As plantas não possuem cercas ou proprietários, transformando todo o ecossistema em um vasto playground natural onde a única regra é a exploração constante. As árvores retorcidas do cerrado, com seus caules marcados pelo carvão de queimadas antigas, servem como obstáculos e esconderijos perfeitos para as brincadeiras de esconde-esconde. As folhas largas e ásperas protegem o solo do calor excessivo, criando nichos onde a vida pulsa em cada detalhe das raízes e dos troncos.

O som da memória é composto pela sinfonia dos pássaros que habitam as copas, cada qual com seu canto característico ecoando no ar quente da tarde. O tiziu faz seu salto acrobático, o João-de-barro trabalha na sua morada de terra, enquanto o pica-pau e a rolinha observam a movimentação dos humanos. Como nunca ouviram falar de conceitos modernos como preservação do meio ambiente, os meninos carregam orgulhosamente o estilingue pendurado no pescoço como ferramenta. Correr atrás das aves com as atiradeiras de borracha traz uma dose de adrenalina que define a infância rústica e corajosa daquele final de década de sessenta.

A única preocupação real que atravessa o peito desses pequenos exploradores é o medo instintivo das cobras que podem estar camufladas entre as folhagens secas. Esse é o único animal capaz de interromper a correria ou silenciar as risadas, exigindo um respeito silencioso que apenas o perigo real consegue impor. Com os pés descalços sentindo a textura da terra e dos gravetos, lá vão eles em fila indiana desbravando trilhas que só eles conhecem bem. Conversam em tom alto, contam vantagens sobre suas pontarias e curtem cada minuto sem ter a mínima noção da efemeridade de todo aquele cenário.

Eles não suspeitam que aquela imensidão verde e marrom deixaria de existir de forma tão radical logo no início do século XXI. A variedade de tons de verde é incrível aos olhos de quem observa com calma, mas para os meninos é apenas o pano de fundo cotidiano. As cores das flores do cerrado formam matizes únicos que brotam do solo árido, criando um cenário exuberante que, por ser comum, passava despercebido. Quem haveria de ligar para a beleza estética se a prioridade era o sabor das frutas e a disputa para ver quem chegava primeiro?

A rotina de exploração era um ritual sagrado que moldava o caráter e a resistência física daqueles jovens que desconheciam o cansaço sob o sol forte. Cada árvore de jatobá encontrada era celebrada como um tesouro descoberto em um mapa de piratas, exigindo esforço para quebrar a casca dura do fruto. O cheiro da terra molhada após as rápidas chuvas de verão misturava-se ao aroma das frutas pisoteadas, criando uma fragrância que ficaria gravada para sempre. Naquela época, o tempo parecia passar mais devagar, esticando as tardes de folga até que o pôr do sol avermelhado anunciasse a hora do retorno.

Um dia, quando esses mesmos moleques estiverem na casa dos 50, 60 ou 70 anos, a saudade de ver aquele mundo original baterá forte em seus corações. Eles olharão para o horizonte e não encontrarão a vegetação retorcida, mas sim as extensas e mecanizadas lavouras de café que agora dominam a paisagem da região. Onde antes havia trilhas de terra batida e ninhos de pássaros, hoje existem bairros residenciais planejados com muros altos que escondem a vista do céu. Até o barulho dos motores dos aviões no novo aeroporto substitui o silêncio que antes era quebrado apenas pelo canto do pica-pau.

O pior de tudo é perceber que não sobraram registros visuais daquelas tardes de liberdade, pois a tecnologia fotográfica da época era extremamente limitada e inacessível. As câmeras eram artigos de luxo e os rolos de filme permitiam apenas 6 ou 12 fotos em preto e branco que custavam caro para serem reveladas. Ninguém pensava em gastar um clique precioso com garotos sujos de barro comendo gabiroba no meio do mato, deixando a cena apenas na mente. A memória visual daquela infância é uma coleção de sombras e luzes que residem exclusivamente nas lembranças afetivas de quem realmente viveu aquela experiência única.

Para tentar resgatar o sabor daquela liberdade perdida, o ex-garoto agora precisa recorrer aos artifícios modernos oferecidos pelo comércio da cidade em crescimento constante. Ele caminha até uma praça central ou até uma das avenidas principais, onde lojas de sorvete vendem picolés industrializados com os nomes das frutas que ele colhia do pé. Felizmente, os sabores de gabiroba e araçá ainda podem ser encontrados nesses palitos gelados, servindo como uma ponte gustativa para um passado que não volta. É o último elo que resta entre o homem maduro e o menino descalço que corria livre pelos cerrados antes do progresso chegar.


A cronica original, sob o título “Gabiroba e Araçá”, está publicada no primeiro livro do autor “O Som da Memória” publicado em 2012.

@redehoje
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