
Luiz Antônio Costa
Eu cheguei no dia 7 de abril de 1842.
O sol ainda estava baixo quando a pequena comitiva se reuniu em frente à capela de pau a pique. Antônio de Queiroz Teles, fazendeiro, acabava de doar as terras para o nascimento oficial do município. O Capitão Francisco Martins Mundim, primeiro presidente da Câmara Municipal, ergueu a voz rouca e declarou Patrocínio elevado à categoria de vila. O Padre José Ferreira Estrela, vigário recém-chegado, rezou a missa inaugural. O ar cheirava a terra úmida, café novo e esperança mineira. A região ainda pertencia a Goiás, mas já tinha alma de Minas.
Eu, o jornalista que não pertence a nenhuma época, me misturei à multidão de tropeiros, lavradores e algumas senhoras de vestido longo. Anotei mentalmente: “Aqui começa, oficialmente, a história que merece ser contada.”
Poucos anos depois, em 1852, o Distrito Diamantino de Bagagem ganhou fama. O diamante “Estrela do Sul” foi encontrado e o nome de Patrocínio correu pelo Império. Mas com a riqueza veio o perigo: bandos de malfeitores assaltavam os viajantes nas estradas ruins. Vi os pedestres voluntários da cidade saírem armados para limpar os caminhos. Vi o Juiz Eloi Ottoni chegar para fazer justiça e foi assassinado. Vi também o Coronel Rabelo, figura controversa, envolvido em boatos que terminariam nessa tragédia.
Saltei para 1868. A Guerra do Paraguai já havia levado muitos rapazes da região. Patrocínio enviava mantimentos e homens. A cidade crescia devagar, mas firme. O café era produzido apenas para uso doméstico, local, sem nenhuma técnica. O nome “Nossa Senhora do Patrocínio” já era pronunciado com orgulho.
Em 1874, a cidade foi elevada a categoria de cidade. O primeiro Juiz de Direito, Dr. Francisco de Oliveira Pinto Dias, tomou posse. O Poder Judiciário se instalava de vez. A Lei Estadual de 1891 criou a Comarca de Patrocínio. Dois delegados de polícia cuidavam da ordem. A bandeira do município foi oficializada: fundo branco, com a Serra do Cruzeiro ao centro, representando as atividades agrícolas, pecuárias e as águas minerais que sempre alimentaram o lugar.
Pulei para o início do século XX.
1910, 1920… o trem chegou perto, trazendo mais gente, mais comércio. Vi o Centro Administrativo Abdias Nunes ser construído com linhas modernas e janelas amplas. A Praça Santa Luzia, em 1940, já tinha bancos de concreto, árvores maiores e casarões brancos ao redor. Um fotógrafo registrou o momento: crianças brincando, senhoras de sombrinha, homens de chapéu. Patrocínio já não era mais apenas um ponto de descanso para quem ia para Goiás. Era uma cidade que respirava progresso.
Saltei para os anos 1970.
Em 02 de agosto de 1976, a 87ª Companhia de Polícia Militar foi instalada, com jurisdição sobre 14 municípios. A cidade ganhava estrutura de segurança. O comércio se fortalecia, a agricultura (especialmente o café) continuava sendo o principal motor econômico. Vi famílias inteiras trabalhando nas lavouras, vi jovens estudando na biblioteca pública, vi o Atlético Patrocinense enchendo o estádio nos domingos de glória.
E então, em abril de 1992, eu me acomodei novamente na Biblioteca Pública de Patrocínio, como se nunca tivesse saído dali.
A revista Presença estava aberta sobre a mesa. Na capa, a manchete: PATROCÍNIO: 150 ANOS. Dentro, fotos antigas e novas se alternavam. A Praça Santa Luzia de 1940 ao lado do Centro Administrativo. O time de futebol do CAP dos anos 80 ao lado de crianças lendo na biblioteca. O texto celebrava: “progresso sem perder qualidade de vida”. Falava de três poderes funcionando bem, escolas de bom nível, comércio forte, indústria nascente, agricultura e pecuária sólidas, e um povo que ainda sabia viver com dignidade e tranquilidade. “Mora numa cidade assim, às portas do século XXI, não é só um privilégio. É uma dádiva”, dizia o artigo.
Eu fechei a revista devagar.
Tinha visto tudo: do simples arraial Salitre, fundado por Inácio de Oliveira Campos em 1772, passando pela doação de terras em 1842, pela elevação a cidade em 1874, pelos diamantes, pelos tropeiros, pelos juízes, pelos coronéis, pelo café, pelo trem, pela polícia militar, até chegar à Patrocínio de 1992 — uma cidade que cresceu com ordem, memória e respeito.
Levantei-me, caminhei até a praça e olhei para o céu claro de abril. O mesmo céu que vira o Capitão Inácio, o Padre Estrela, o Juiz Ottoni, muitos trabalhadores humildes e tantas outras almas que construíram este lugar.
Então sussurrei, como quem encerra uma longa reportagem:
“De 1842 a 1992…
Cento e cinquenta anos não são apenas datas num calendário. São tropeiros que viraram fazendeiros, diamantes que viraram lendas, café que virou riqueza, e um povo que soube transformar um ponto de descanso numa cidade que merece ser lembrada.”
Guardei o caderno imaginário no bolso do casaco e preparei-me para saltar novamente.
Mas antes, sorri para a cidade que continuava viva à minha frente.
“Feliz aniversário, Patrocínio.
Que os próximos cento e cinquenta sejam tão dignos quanto os primeiros.”
E, com o cheiro de café e papel antigo ainda no ar, virei a página do tempo em 1992.
Nota do autor: Este conto é uma obra de ficção baseada em fatos reais, na história real de Patrocínio, Minas Gerais, com licença poética e livre criação. Este conto integra o livro inédito Crônicas e Contos do Caminho.





