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O Som da Memória | A eternidade do impressor da história: morre Joaquim Correia Machado Filho, decano do jornalismo local

Luiz Antônio Costa

Patrocínio despertou neste sábado, 30 de maio de 2026, com um vazio profundo, daqueles que pesam no peito de quem vive e respira a nossa terra. Uma ausência difícil de ignorar na paisagem urbana e afetiva da cidade. Aos 90 anos, calou-se a voz e descansou a alma de Joaquim Correia Machado Filho, conhecido por gerações de leitores simplesmente como o Joaquim do Jornal JP.

Para mim, como jornalista, escritor e companheiro de tantas jornadas na palavra, escrever estas linhas não é apenas um dever de ofício; é uma homenagem comovida em meu próprio nome a um homem que dedicou mais de meio século à imprensa escrita e à preservação da nossa identidade.

Durante mais de cinquenta anos, o nome de Joaquim esteve indissociavelmente ligado à produção jornalística local. Sua história pessoal correu paralela à de Patrocínio e acabou incorporada, página por página, à própria história do município. Seu falecimento encerra uma trajetória monumental, iniciada muito antes das plataformas digitais, dos algoritmos e da velocidade efêmera das informações atuais.

Embora fosse bancário do antigo Bemge por origem profissional, Joaquim pertenceu a uma linhagem rara de pioneiros. Uma geração que construiu jornais com a persistência diária do suor, com o contato direto e olho no olho com as fontes, e com um compromisso permanente e inegociável com os fatos. Sua presença tornou-se uma referência constante para leitores de diferentes épocas. Poucos homens acompanharam e compreenderam tanto as transformações desta cidade.

Um Homem de Fé, Cultura e Comunidade

No Lar da Criança: sempre preocupado com causas sociais

A atuação de Joaquim, contudo, transbordava as paredes da redação. Ele compreendia que o jornalismo era apenas uma das formas de servir ao próximo. Sua vida foi um mosaico de dedicação comunitária:

  • No Altar da Palavra: Confrade Vicentino ativo na Sociedade São Vicente de Paulo, cursilhista, palestrante de profunda sabedoria e Ministro da Palavra. Sua fé era prática: idealizou a construção da Igreja do Rosário na Matinha e presidiu o Lar da Criança.
  • Na Defesa da Terceira Idade: Ao lado de sua companheira de vida, a estimada professora Darci Guimarães Machado, dirigiu a Associação de Pioneiros e Jovens (APJ) da terceira idade e contribuiu ativamente com sugestões fundamentais para o Estatuto do Idoso.
  • Na Música e na Arte: Fundou, presidiu e construiu a sede da associação dos artistas sertanejos, valorizando a cultura de raiz.
  • Nas Letras e na Pátria: Historiador documentarista rigoroso, era meu confrade na Academia Patrocinense de Letras e orgulhava-se do título de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro.

Na Biblioteca Municipal: membro da APL, também participava de movimentos literários

A Epopeia do Jornal de Patrocínio

Recuo no tempo para lembrar o ano de 1973. Ao lado de Paulo Silva, vindo de Uberaba, Joaquim criou o semanário Jornal de Patrocínio. O projeto nasceu sob o signo do desafio estrutural que marcava a imprensa do interior naquela época. Durante muito tempo, a tipografia e a impressão precisavam ser feitas fora de Patrocínio, exigindo viagens e uma logística hercúlea para que o jornal estivesse nas bancas.

Mesmo diante das maiores dificuldades econômicas e políticas, a publicação conquistou seu espaço sagrado e permaneceu ativa ao longo das décadas. Cruzou governos, planos econômicos, transformações urbanas e alterações profundas na forma como a sociedade consome notícias. Enquanto tantas outras folhas surgiram e desapareceram com o vento, o JP manteve sua circulação contínua, mantendo-se fiel aos sábados — inclusive neste, em que seu criador se despede. Essa longevidade incomum tornou-se a marca registrada do veículo e o testemunho vivo da resiliência de seu fundador.

O Testemunho do Tempo

Ao revisitar as páginas antigas do JP, observa-se como a cidade mudou. Mudaram os cenários urbanos, as lideranças políticas, as prioridades econômicas. Permaneceram, porém, os registros produzidos pelo jornal. Permaneceram as marcas indeléveis deixadas por Joaquim.

Páginas de História, Paixão e Imagens

Curtindo o livro que conta a trajetória do JP, escrito por Milton Magalhães

Em junho de 2025, tive a honra de receber o amigo Joaquim em uma visita rápida em minha casa. Ele trazia nos braços o livro “O Grande Tesouro de Joaquim Correia”, escrito pelo pesquisador Milton Magalhães, que organizou de forma brilhante as edições encadernadas do JP desde a sua fundação. Naquela oportunidade, movido pelo respeito à sua obra, escrevi na minha crônica: “A vida de Joaquim Correia em páginas de história e paixão pela imprensa”. Naquele mesmo período, nosso colega Eustáquio Amaral dedicou sua semanal “Primeira Coluna” na Rede Hoje para saudar o lançamento, destacando que, mesmo aos 89 anos, Joaquim continuava ativo, pesquisando e vivendo a rotina do jornal.

A celebração oficial dos 52 anos do JP e o lançamento desse livro ocorreram em julho de 2025, sob a coordenação orgulhosa de seu filho, Alex Guimarães Machado, reunindo a comunidade em um justo reconhecimento público.

Mais do que no papel, Joaquim eternizou nossa gente também nas telas. Em 2024, lançou no YouTube o documentário “Patrocínio na Memória de Joaquim Correa”, projeto viabilizado pela Lei Paulo Gustavo através da Secretaria Municipal de Cultura. Classificado na categoria de “Contador de História”, o média-metragem de 50 minutos sintetiza perfeitamente o que ele era.

O lançamento do documentário

Como bem definiu a professora e especialista Rita de Cássia Alves Lopes dos Santos em artigo sobre a arte de narrar:

“Por meio das narrativas, o homem preserva a memória; divulga o conhecimento; compartilha a cultura; exerce religiosidade e prestígio… Contar uma história consiste em apresentar para um público uma narrativa que parte de certa leitura de mundo.”

Joaquim leu o mundo com os olhos do bem e o narrou com as tintas da verdade.

Minha ligação com a história de Joaquim e de seu semanário — do qual tive a honra de ser colaborador com a coluna semanal “O Repórter” — também ficou registrada nas lentes da televisão. Gravada originalmente em 2003 para o programa “TV Presença”, exibido na época pela NTV/Cultura, e mais tarde compartilhada na Rede Hoje TV no YouTube, fiz questão de reprisar essa reportagem histórica no ano passado, dentro do programa “TV Hoje Memória”.

Ali, naquele registro audiovisual, resgatamos em detalhes a trajetória impressionante do ex-bancário que, desafiando o tempo e as distâncias em 1973, fundou um jornal e transformou-se em uma das vozes mais respeitadas e admiradas de toda a nossa região. Ver Joaquim na tela, com o mesmo brilho nos olhos falando do Jornal de Patrocínio, nos faz compreender que sua missão sempre foi maior que o papel: era registrar a nossa própria alma.

Em 2003, numa das várias vezes que o entrevistei, contando sua história e do JP para o TV Presença

O documentário completo e essa justa homenagem em vídeo podem ser revistos através do link:

📺 Assista ao especial:Joaquim Correia Machado Filho e o Jornal de Patrocínio — TV Hoje Memória

O Último Adeus

Na redação e gráfica do Jornal de Patrocínio, onde passava grande parte de seu tempo

Joaquim parte deixando uma lacuna imensa no seio de sua família, que não apenas testemunhou, mas participou ativamente de sua saga na comunicação. Deixa a viúva, Dona Darci Guimarães Machado; os filhos Alex, Alan e Analu; além de noras, genro, irmão, netos, sobrinhos e uma legião de amigos e admiradores.

O velório teve início às 11h deste sábado na Sala 04 da Funerária Frederico Ozanam (Rua Coronel João Cândido, 606, Centro). O sepultamento está programado para as 17h no Cemitério Municipal de Patrocínio. Como justa homenagem póstuma ao ilustre torcedor, espera-se que na tarde de hoje, no gramado do Estádio Pedro Alves onde o Clube Atlético Patrocinense faz sua estreia contra o Mamoré, no Campeonato Mineiro do Módulo II, seja respeitado o minuto de silêncio oficial.

Quando uma cidade perde um de seus cronistas do cotidiano, perde também a testemunha ocular de seu próprio tempo. Mas os tipos de chumbo, as páginas impressas e as imagens digitalizadas não morrem.

Ao final, após o fechar das cortinas, cessa o barulho das rotativas e fica o silêncio da ausência. Mas em cada canto desta Patrocínio que ele tanto amou, permanece, ecoando forte, o som da memória. Joaquim Correia Machado Filho passa agora a integrar definitivamente a história que ele próprio ajudou a contar. E essa história, graças a ele, continua viva.

Descanse em paz, meu confrade.

@redehoje
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