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Esporte Hoje | Copa e comunidade: a tradição que faz moradores transformarem suas ruas

Luiz Antônio Costa | Rede Hoje

O povo brasileiro tem um bom motivo para vestir a camisa amarela e torcer de fato pelo Brasil.

Não se trata apenas de futebol. Nem de troféus. Nem dos R$ 1.000 reservados para a rua vencedora do concurso “Minha Rua na Copa 2026”. O que está em jogo é algo que anda cada vez mais raro nos tempos atuais: a convivência entre vizinhos.

Em Patrocínio, os moradores que se inscreveram no concurso têm até o dia 12 de junho para concluir a ornamentação das ruas. A iniciativa da Prefeitura pretende premiar as melhores decorações, mas talvez o maior prêmio não esteja previsto no regulamento. Talvez ele aconteça quando alguém bate à porta do vizinho para pedir ajuda, emprestar uma escada ou pendurar uma fileira de bandeirinhas.

As Copas do Mundo já empolgaram mais. Houve um tempo em que o país inteiro parecia parar. As ruas se transformavam em corredores coloridos de verde e amarelo. As crianças contavam os dias para os jogos. Os adultos organizavam bolões, churrascos e reuniões improvisadas nas calçadas. O futebol era importante, mas não era tudo. A festa estava também do lado de fora dos estádios e das televisões.

Talvez parte dessa magia tenha se perdido quando a Seleção Brasileira se afastou do seu próprio povo. Durante muitos anos, o torcedor passou a conhecer os jogadores apenas pela televisão. Quase todos atuavam no exterior. Os nomes eram famosos, mas pareciam distantes. A Seleção continuava vestindo amarelo, mas já não despertava a mesma identificação de antigamente. O menino da rua já não se imaginava tão facilmente vestindo aquela camisa.

Mas desta vez parece diferente. Há novamente uma expectativa no ar. Não apenas pelo futebol, mas pelo que ele pode provocar. Talvez voltemos a ver crianças correndo atrás de papel verde e amarelo. Talvez jovens e adultos se reencontrem para cortar bandeirinhas, amarrar barbantes e cobrir as ruas por cima e por baixo, como acontecia em tantas Copas passadas.

A tradição das ruas decoradas começou a ganhar força nos anos 1950, especialmente depois das primeiras conquistas mundiais da Seleção Brasileira. Nos anos 1970, o Brasil viveu um dos períodos mais marcantes dessa manifestação popular. A festa continuou nos anos 1990 e ainda resistiu nos anos 2000. Cada bairro tinha sua rua famosa. Cada cidade tinha seus pontos de encontro.

Em Patrocínio, quem não se lembra da Ruinha Amélia Angélica? Pequena, com pouco mais de dois quarteirões, mas gigante quando chegava a Copa do Mundo. Quem passou por lá sabe do que estamos falando. Havia também a Rua Rio Branco, a Casimiro Santos e tantos outros lugares onde moradores se uniam para transformar o cotidiano em celebração. Em alguns anos, bairros inteiros pareciam vestidos com as cores da bandeira nacional.

Durante semanas, moradores arrecadavam dinheiro, pintavam o asfalto, confeccionavam enfeites e transformavam postes em suportes para bandeiras e faixas. Cada rua queria ser mais bonita que a outra. Mas ninguém saía derrotado. O verdadeiro resultado aparecia no fortalecimento dos laços entre as pessoas.

Os anos passaram. As telas ocuparam o espaço das calçadas. As conversas migraram para os celulares. Muitas ruas deixaram de ser lugares de encontro e passaram a ser apenas caminhos de passagem. Talvez por isso iniciativas como esta despertem tanta simpatia. Elas recuperam algo que parecia adormecido na memória dos brasileiros.

Quando uma rua se enfeita para a Copa, ela faz mais do que homenagear a Seleção Brasileira. Ela recupera lembranças. Aproxima vizinhos. Faz as crianças participarem de algo coletivo. Cria histórias que serão contadas durante muitos anos.

O Brasil precisa voltar a sorrir um pouco mais nas suas ruas. Precisa reencontrar aquela alegria simples que fazia vizinhos trabalharem juntos por uma bandeira, uma pintura ou uma corrente de papel colorido. Precisa lembrar que a Copa do Mundo nunca foi apenas futebol. Sempre foi também um encontro de pessoas.

Quem decidir ajudar na decoração da sua rua estará concorrendo a um prêmio em dinheiro. Mas estará concorrendo também a algo muito mais valioso: a oportunidade de reconstruir um pouco daquele Brasil que se reunia nas calçadas, compartilhava sonhos e acreditava que uma simples bandeirinha tremulando ao vento podia unir uma comunidade inteira.

Taí um bom motivo para vestir a camisa amarela e torcer de fato pelo Brasil.

@redehoje
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