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O Som da Memória | O mistério d’Os Meninos de Deus e o sucesso “Eu Vou Seguir”

Por Luiz Antônio Costa

Entrei para o rádio em 1971. Em 1975, já experimentava grande audiência, primeiro com o programa “Peça o que Quiser”, das 17h às 18h, de segunda a sexta, que depois virou “Impacto Jovem”, das 14h às 16h, e se consolidou como “Roda Viva”, no mesmo horário, ficando no ar por 30 anos na Difusora. Além de ser pioneiro em muito jornalismo, esportes e humor, o programa era o que de mais moderno existia e fez a cabeça e a cultura de gerações que curtiram de Beatles e Raul Seixas a Roberto Carlos.

Em 1975, surgiu na discoteca da rádio um álbum de nome “Amor Nunca Falha”, com uma proposta hippie, com temas ligados à esperança, fé e um número de integrantes que impressionava na foto da capa. Eram os Meninos de Deus. Ouvi o vinil na discoteca — como fazia sempre antes de colocar no programa — e gostei de várias faixas, mas me chamou a atenção a faixa “Eu Vou Seguir”. Como de resto o disco inteiro, era muito bem produzido. Era diferente. A música folk/pop de alta qualidade, os vocais em coro e os arranjos bonitos. A voz de um homem jovem e o coral me chamaram a atenção. Eu disse para o programador da época:

— É esta. Programe no Impacto Jovem de hoje.

A música colou como chiclete e, dali para a frente, foi um grande sucesso, dividindo espaço com musicas de 1975 ou dos anos anteriores como “Ouro de Tolo”, do Raul Seixas; “Oh! Darling”, dos Beatles; “Feelings”, de Morris Albert; “Flor d’Água”, da Banda de Pau e Corda; e “Nossa Canção”, de Roberto Carlos (que já tinha seis anos de lançamento), entre outras. Era o meu ramo, eu entendia do assunto. Neste domingo, conversando com meu filho Luiz Costa Júnior lembrei-me da música “Eu vou seguir” e vou contar a história dessa banda — que era de música gospel, mas música de qualidade é música de qualidade e, na minha opinião, não devemos rotular esse ou aquele estilo.

O que poucos sabiam na época — e nem nós da rádio fazíamos ideia —, enquanto os ouvintes curtiam aquela melodia flutuando nas ondas do dial, era que o grupo não se tratava de uma banda de estúdio convencional; os rapazes eram a face visível e encantadora de um movimento internacional que vinha de longe.

Para entender de onde brotou aquela sonoridade tão perfeita — que chegou a receber arranjos da Orquestra Municipal do Rio de Janeiro —, precisamos viajar até a Califórnia do final dos anos 1960. O grupo nasceu sob o eco da contracultura hippie. Jovem, de cabelos longos, violão em punho e vestes coloridas, aquela comunidade cruzou oceanos pregando o amor universal e uma vida comunitária desapegada.

Quando desembarcaram no Brasil, no início da década de 1970, estabelecendo-se em colônias no Rio e em São Paulo, o choque cultural virou fascínio. Os Meninos de Deus — formados por jovens de várias nacionalidades que se revezavam nos vocais e nos instrumentos — traziam uma pureza estética que desarmava qualquer resistência, sustentada por uma base marcante de baixo, guitarra, bateria e arranjos de orquestra. O disco Amor Nunca Falha foi um fenômeno de vendas e execuções. Eles usavam a arte nas praças e avenidas para arrecadar fundos e manter seus lares comunitários — uma engrenagem na qual a música financiava a vida deles e a convivência produzia canções inesquecíveis.

Mas a mesma engrenagem que os elevou ao topo das paradas do meu programa e de tantas outras rádios pelo país decretou o seu sumiço. No início de 1978, as cortinas se fecharam abruptamente. Por ordens vindas de sua liderança internacional na esteira de reestruturações e pesadas polêmicas que começavam a cercar o movimento no exterior, a marca “Os Meninos de Deus” foi extinta.

O grupo mudou de nome, recolheu-se para dentro de suas comunidades fechadas e abandonou definitivamente as aparições públicas na televisão e no rádio. Eles escolheram o isolamento. O pop-folk de mensagens universais deu lugar a produções estritamente internas, longe dos holofotes do mercado fonográfico brasileiro. Para o ouvinte comum, parecia que os rapazes e moças da Califórnia haviam simplesmente evaporado no ar.

Histórias institucionais e caminhos controversos à parte, a música tem a bonita mania de filtrar o que há de melhor no ser humano. Quando limpamos a poeira do tempo e colocamos o vinil de 1975 para rodar na agulha da nossa memória, o que ecoa nos alto-falantes não são os bastidores complexos daquela comunidade, mas a genialidade de arranjos vocais marcantes.

“Parece o sonho que veio a mim / Viver a vida assim como ela é”.

Os Meninos de Deus desapareceram com a mesma velocidade com que surgiram, mas aquela canção que programamos lá atrás cumpriu sua profecia. Cinquenta anos depois, a voz daquele jovem rapaz sustentada pelo grande coro continua seguindo, viva e intacta, guardada com carinho na fita magnética da nossa nostalgia.

Até a próxima semana, no nosso ponto de encontro com as trilhas da vida.

Faixas do álbum citado na crônica:

Ano: 1975
Gravadora/Fabricante/Selo: CBD Phonogram

Amor Nunca Falha

Lado A
01 – É Só Acreditar – Fernando
02 – Vamos Nos Levantar – Amminadab
03 – Eu Vou Seguir – Fernando e Isaías
04 – Só Queremos Dizer Que Te Amamos – Amminadab
05 – O Seu Dia Vai Mudar (Confio No Senhor) – Fernando
06 – Que Es Lo Que Vês – Gideon

Lado B
01 – Uma Canção de Amor – Amminadab
02 – Tome Conta de Você – Jereboam
03 – Amor Nunca Falha – Ruth
04 – Sonhos do Meu Coração – Amminadab e Fernando
05 – De Manhã – Isaías e Isaac
06 – Um Mundo Melhor Juntos – Amminadab

@redehoje
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