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O Som da Memória | O retrato que tirou uma geração da letargia

A primeira rodoviária de Patrocínio, inaugurada na década de 1930. Foto: Acervo público / publicada no grupo da Facebook “Patrocínio que eu vi, 2ª edição”

Por Luiz Antônio Costa

Uma simples foto tem o poder de mexer com os sentimentos mais profundos e trazer lembranças do fundo da alma. Recentemente, visitando o grupo criado por Mônica Nunes, “Patrocínio que eu vi, 2ª edição” — uma belíssima iniciativa inspirada no grupo original criado pelo saudoso jornalista Marcelino Marques de Araújo —, me deparei com uma imagem que parou a cidade no tempo. Mesmo após a precoce e dolorosa partida de Marcelino, em abril de 2017, o seu legado de pioneirismo no webjornalismo e o amor pela história local continuam vivos através desse espaço de memória.

A foto em questão retrata a primeira rodoviária de Patrocínio, a antiga Rodoviária Alberto Brugher, construída no final dos anos 1930, que funcionava onde hoje está a Policlínica, bem em frente ao Colégio Professor Olímpio dos Santos. Bastou esse único registro ser publicado para que uma geração inteira saísse da letargia, inundando a rede com diálogos e recordações preciosas.

As memórias ganharam vida em cada comentário. Joana Amaral logo se lembrou do Jeep parado na imagem, a rádio patrulha da época, carinhosamente chamado de “jipão”. O estalo foi imediato para Macirlon Silva, que confessou o medo de criança que sentia do Soldado Jésus. Cecílio de Souza resgatou uma Patrocínio de solidariedade: lembrou que nas duas portas à direita funcionava a agência dos Correios e, ao lado, uma cadeira de dentista onde o Dr. Jair Figueiredo, entre as 5 e 6 horas da manhã, fazia extrações gratuitas para os necessitados — o cenário de sua primeira extração aos 10 anos. Para mim, o detalhe tocou ainda mais fundo: meu pai, Júlio Costa (o eterno Júlio Carteiro), trabalhou exatamente ali, naquela agência dos Correios.

O movimento da antiga estação parecia ecoar nas palavras dos leitores. Mário Expedito relembrou as despedidas calorosas e as chegadas de caixeiros-viajantes ansiosos pelas novidades da cidade grande. José Cunha recordou os tempos de estudante nos anos 60, quando observava os ônibus apelidados de “expresso beiçudo” e as travessuras de colégio perto do carro da Dona Alexandrina. Ariovaldo Ribeiro trouxe cor à imagem ao descrever a figura folclórica do Seu Pierry: um homem alto, de sobrancelhas grossas, voz rouca e pouca paciência, que parecia um inglês de filme antigo e vendia brinquedos como biloquês e inhonhôs nas dependências do prédio.

Houve quem lembrasse das estradas de poeira e barro de 1950, como Sérgio Aníbal de Carvalho, e das viagens desafiadoras. Angelina Ribeiro recordou sua ida para Brasília em 1960 em uma das velhas jardineiras, com as malas cobertas por lona no teto para protegê-las do tempo. Maria Pires reviveu o frio na barriga da primeira viagem para Belo Horizonte pela terrível Serra da Saudade, enquanto Maria Clarice de Souza se lembrou das festas que eram o trajeto vindo de Araguari. O motorista daquela relíquia ficou sem nome, mas o veículo ganhou donos e rotas no coração do povo: Rosângela Ferreira lembrou-se da jardineira do saudoso Nazir rumo à Serra do Salitre, e Eli Melo relembrou a de seu tio, Donatil Romão, que cortava caminho até Carmo do Paranaíba.

Nem só de poesia vive o passado, e as críticas também ganharam espaço. É o caso de Amir Ribeiro, que lamentou a decisão política posterior de transferir a rodoviária para a Avenida Faria Pereira — uma escolha de “arquitetura de extremo mau gosto” e que ocorreu em uma “localização equivocada que anos mais tarde foi corrigida”, explicou. Mas a força do afeto foi maior: Antonio Lisboa de Souza, ao ver a foto, viajou de volta aos seus 12 anos, em Silvano, lembrando com saudade que, daquela época, quase só sobrou a velha paineira.

“Bons tempos!”, resumiu Angelina Ribeiro. E ela tem razão. Finalizou com nostalgia — essa melancolia temperada com carinho, aquela saudade de um tempo bom que ficou no passado, provocada pelo gatilho de uma foto antiga. É a sensação de quase conseguir reviver o momento, de olhar para trás esperando reencontrá-lo.

@redehoje
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