Press ESC to close

Crônicas e contos do caminho | A torcida dos povos que aprenderam a resistir

Luiz Antônio Costa

Existe algo diferente acontecendo nesta Copa do Mundo. Não é apenas o futebol que vem chamando a atenção. Nas arquibancadas, nas ruas e nas redes sociais, uma torcida inesperada começou a ganhar força. Brasileiros comemoram a classificação do Paraguai. Argentinos vibram com as campanhas de Cabo Verde e Marrocos. Mexicanos acompanham a trajetória do Equador. Africanos torcem por seleções sul-americanas. Aos poucos, as bandeiras continuam tremulando, mas parecem dividir espaço com um sentimento de pertencimento muito maior.

É claro que a rivalidade continua existindo. Quando a bola rola entre Brasil e Argentina, ou entre Colômbia e Equador, cada um defende as cores do seu país. Mas, terminada a partida, algo diferente acontece. Se entram em campo Marrocos, Costa do Marfim, Senegal ou Cabo Verde contra qualquer adversário que tente se impor pela força econômica, uma parte considerável dos torcedores latino-americanos muda naturalmente de lado. O mesmo ocorre quando Equador, Paraguai ou Bolívia surpreendem em campo.

Essa identificação talvez não tenha nascido agora. Ela apenas encontrou no futebol uma forma de se revelar. Os povos da América Latina, da África e de grande parte da Ásia compartilham histórias diferentes, mas atravessadas por experiências semelhantes. São nações que conheceram a colonização, que tiveram suas riquezas exploradas, que viram povos indígenas perderem terras e culturas e que receberam milhões de africanos escravizados, arrancados de sua terra para construir, à força, outras sociedades. Na Ásia, povos como os da Índia, de Bangladesh e de tantos outros países também viveram longos períodos de dominação estrangeira e precisaram reconstruir seus caminhos.

Também herdaram idiomas que vieram de longe. O português, o espanhol, o francês e o inglês se espalharam por continentes inteiros, muitas vezes ocupando espaço de línguas ancestrais. Ainda assim, esses povos nunca deixaram morrer completamente suas raízes. Elas sobreviveram nas músicas, nas festas populares, na culinária, nas crenças, nos costumes e na maneira de enxergar o mundo. Resistiram porque a cultura, quando pertence ao povo, encontra sempre um jeito de permanecer viva.

Mesmo diante de um cenário complexo, a resistência se mostra nos detalhes. Nas sedes localizadas nos Estados Unidos, por exemplo, a geopolítica se faz notar de forma rígida. Apesar das burocracias pesadas, dos filtros e das históricas imposições de vistos e restrições que tentam ditar as regras para aqueles que vão apenas jogar, assistir ou apitar as partidas, a paixão popular não se deixa frear. Essa barreira invisível desenhada nas fronteiras estadunidenses contrasta abertamente com o ambiente que se vive no México e no Canadá — as outras sedes do torneio —, onde o fluxo de torcedores e trabalhadores do esporte encontra um respiro, uma atmosfera mais fluida, acolhedora e livre de tantas tensões imperiais.

Talvez seja por isso que um brasileiro consiga vibrar por Cabo Verde sem nunca ter pisado naquele arquipélago africano. Ou que um marroquino sorria ao ver o Paraguai avançar no torneio. Ou que tantos latino-americanos acompanhem com simpatia a caminhada da Costa do Marfim, do Senegal e do Equador. O mesmo sentimento aparece quando entram em campo países que também carregam as marcas da colonização, como Índia e Bangladesh. Existe ali um reconhecimento silencioso entre povos que aprenderam, ao longo dos séculos, a reconstruir a própria história.

Nesta Copa, quando o Equador garantiu sua classificação e recebeu aplausos muito além de suas fronteiras, o continente celebrou. O Paraguai fez o mesmo e foi aplaudido por brasileiros como se a vitória também lhes pertencesse. Marrocos voltou a surpreender o mundo ao avançar de fase com garra e talento. Cabo Verde conquistou admiradores em diversos países. Costa do Marfim passou a ser vista com simpatia até por brasileiros, mesmo podendo ser adversária da Seleção. Não são apenas resultados esportivos. São histórias que despertam identificação.

Não significa que esses países sejam iguais. Cada um possui sua cultura, sua religião, seus idiomas e sua própria história. Mas muitos compartilham experiências de colonização, exploração econômica, submissão política e tentativas de apagar costumes e tradições. Povos indígenas nas Américas, populações africanas submetidas à escravidão e sociedades asiáticas dominadas por impérios passados aprenderam, ao longo dos séculos, que resistir também é preservar a memória, a língua, a cultura e a própria dignidade.

Outros mercados podem até ter mais riqueza e infraestrutura financeira. Mas esta Copa mostrou que existe outro campeonato sendo disputado, um campeonato invisível, em que milhões de pessoas passaram a torcer por quem representa histórias de superação, de resistência e de reconstrução. É o reconhecimento de trajetórias que dialogam entre si.

O futebol não muda o passado. Não desfaz injustiças, não elimina desigualdades e nem apaga as marcas deixadas pela colonização. Mas consegue fazer algo raro: aproximar pessoas que talvez jamais se encontrassem. Durante noventa minutos, um brasileiro pode vibrar por Marrocos, um argentino por Cabo Verde, um mexicano pelo Paraguai, um senegalês pelo Equador ou um africano pela Seleção Brasileira, simplesmente porque reconhecem, na caminhada do outro, um pouco da sua própria história.

Talvez essa seja a maior conquista desta Copa do Mundo. Mais importante do que descobrir quem levantará a taça é perceber que o esporte conseguiu revelar algo que sempre esteve presente, mas nem sempre era percebido. Há povos separados por oceanos, por idiomas e por bandeiras, mas unidos por uma memória de resistência. Povos que sobreviveram à colonização, preservaram suas identidades e continuam escrevendo sua história. Nesta Copa, eles descobriram que também podem torcer uns pelos outros. E talvez essa seja a mais bonita de todas as vitórias.

@redehoje
Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed com a ID 1 foi encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.