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História e Memória | A independência incomum da Bahia

Em 2 de julho, baianos comemoram a expulsão das tropas portuguesas e a independência do Estado. Foto: Camila Souza/BBC Brasi

No dia 2 de julho, o estado da Bahia celebra emancipação onde o povo foi protagonista – não figurante de uma transição negociada. O Recôncavo Baiano conta outra história. Lutaram vaqueiros, lavradores, negros, indígenas e mulheres. Entre elas, Maria Felipa, Maria Quitéria e Joana Angélica

Por Ghabriel Anton Gomes de Sá*

Em 2 de julho, baianos comemoram a expulsão das tropas portuguesas e a independência do Estado. Há uma pergunta incômoda que o calendário cívico brasileiro se recusa a responder: como pode um país ter se tornado independente em 7 de setembro de 1822 se, dez meses depois, tropas portuguesas ainda ocupavam Salvador, a cidade que fora por mais de dois séculos a capital da América portuguesa? A resposta exige admitir aquilo que a historiografia oficial, forjada no Sudeste imperial e republicano, sempre tratou como nota de rodapé: a independência do Brasil não foi um ato, foi uma guerra. E essa guerra foi decidida na Bahia.

O 2 de Julho de 1823 — dia em que o Exército Pacificador entrou em Salvador após a fuga das tropas do general Inácio Luís Madeira de Melo — não é um episódio regional pitoresco. É o momento em que a independência deixou de ser uma proclamação e passou a ser um fato. Mais do que isso: é o único capítulo do processo de emancipação em que o povo — no sentido mais concreto e menos retórico da palavra — aparece como protagonista, e não como figurante de uma transição negociada entre elites.

Uma guerra, não um grito

A narrativa do Ipiranga tem a conveniência de todas as fábulas fundacionais: um príncipe, um cavalo, uma espada erguida, nenhum sangue. Ela consagra a leitura de que o Brasil nasceu de um arranjo — a continuidade da casa de Bragança nos trópicos, a preservação da escravidão, a unidade territorial garantida de cima para baixo.

A Bahia conta outra história. Entre fevereiro de 1822 e julho de 1823, o Recôncavo baiano se transformou em teatro de uma guerra de verdade. Cachoeira, São Félix, Santo Amaro e Maragogipe organizaram juntas de governo, arregimentaram tropas, financiaram a resistência. A Batalha de Pirajá e o combate de Itaparica foram enfrentamentos travados majoritariamente por gente que a ordem escravocrata sequer reconhecia como cidadã.

Maria Felipa, Maria Quitéria, Joana Angélica

A memória do 2 de Julho guarda um panteão que desafia o padrão dos heróis nacionais. Joana Angélica foi talvez a primeira mártir da independência. Maria Quitéria de Jesus tornou-se a primeira mulher a assentar praça numa unidade militar brasileira. E Maria Felipa de Oliveira, mulher negra e marisqueira, liderou mulheres na vigilância das praias e no combate aos soldados portugueses.

O que a Bahia fundou

Reduzir a importância da Bahia ao episódio de 1823 seria subestimá-la. Salvador foi a primeira capital e o centro de gravidade do projeto colonial por 214 anos. A Bahia é o laboratório original do Brasil. É também o território onde a resistência se fez mais densa. Da Revolta dos Búzios à dos Malês, a Bahia acumulou a experiência de um povo que lutou pelo país que lhe era negado.

A festa como disputa de memória

O 7 de Setembro celebra o Estado; o 2 de Julho celebra uma luta. Não se trata de trocar uma data por outra, mas de reconhecer que existem duas memórias possíveis da fundação do Brasil: uma que o pensa como obra de elites conciliadoras, outra que o pensa como conquista inacabada de seu povo. Enquanto o 2 de Julho for festa de rua e não relíquia de museu, a versão popular da independência seguirá viva.


*Colunista do site Outras Palavras.

@redehoje
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