
The Brazilian Hippies: Marcone, Zizico, Rizzo, Cabeleira, Edson Bragança e José Eustáquio; ao fundo o imponente painel natalino pincelado pelo saudoso artista local Hélio Santiago. Foto: acervo de Edson Bragança, recuperada por IA pela Rede Hoje.
Luiz Antônio Costa
A memória tem o estranho dom de guardar os sons. Basta uma melodia para que o tempo recue e nos devolva a um instante esquecido. Recentemente, a publicação de uma fotografia da primeira rodoviária da cidade causou um verdadeiro frisson entre meus leitores e me fez refletir sobre esse poder de resgate. Dando continuidade a essa viagem, neste sábado, 11 de julho de 2026, recebi outros dois registros preciosos, enviados por queridos amigos e músicos: os irmãos Luiz Pindoba, baterista, e Edson Bragança, baixista. Com o auxílio da inteligência artificial, restaurei as imagens e, à medida que ganhavam nitidez, despertavam lembranças que o tempo jamais conseguiu apagar. Foi então que decidi narrar a história que elas preservam.
Na manhã do domingo, 12 de julho, Edson forneceu as peças que faltavam para esse quebra-cabeça. Segundo ele, Átila, cantor dos conjuntos musicais da cidade nos anos 1960-70-80 — ícone daquela época, hoje radicado em Pará de Minas — buscava há tempos um registro dos Brazilian Hippies. A imagem permanecera perdida por anos, até que, ao desmontar um armário para uma mudança, Edson reencontrou a preciosidade que hoje ilustra esta crônica.
Os anos 60 nasceram sob um signo diferente. O mundo parecia vibrar em um novo compasso que transcendia as notícias ou a política. No Brasil, embora a ditadura instaurada em 1964 tentasse impor o silêncio, a juventude insistia em cantar. Éramos inquietos e transbordávamos sonhos. Em 1964, eu tinha apenas dez anos; ainda que sem compreender a dimensão dos fatos, eu já sentia que uma nova era começava a escrever sua própria trilha sonora.
Cinco anos mais tarde, em 1969, eu contava quinze verões. Ao cruzar a Rua Presidente Vargas, fui detido por uma cadência que vazava das paredes da Autocar, a antiga concessionária Willys. O som me impôs uma pausa; a curiosidade foi maior que a pressa e desviei o caminho para o interior do prédio. Ali, o que encontrei não era apenas um ensaio, mas a gênese de algo maior. Tratava-se dos The Brazilian Hippies, conjunto nascido das cinzas d’Os Metralhas e que, naqueles acordes, redigia um dos capítulos mais vibrantes da música em Patrocínio. Naquela fotografia de 1967 — capturada em meio aos motores e peças da oficina — estavam eternizados Marcone, Zizico, Rizzo, Cabeleira, Edson e José Eustáquio, tendo ao fundo o imponente painel natalino pincelado pelo saudoso artista local Hélio Santiago..
Edson, que na época trabalhava na Autocar Limitada Comércio e Indústria — empresa da família Queiroz, composta por dona Elza, Luciano e Humberto —, lembra que o apoio de Humberto foi fundamental. Foi ele quem viabilizou a aquisição dos instrumentos e da bateria, emprestando o dinheiro necessário. Em gratidão, o grupo tocou na Churrascaria Alvorada, de Sérgio Aníbal de Carvalho, durante um ano sem receber um centavo, apenas para quitar a dívida. Humberto ainda gentilmente cedeu o fundo do galpão da oficina para que a banda pudesse ensaiar. Ali, conheci o Wanderlei Guardi e iniciei, sem saber, minha própria história com a música.
Ainda hoje consigo ouvir o repertório daquela tarde. Eles ensaiavam para um baile e o ambiente era tomado pelos sucessos de Renato e Seus Blue Caps, Beatles e canções italianas e francesas. A primeira música que escutei foi “Canto pra Fingir,”, versão brasileira de My Whole World is Falling Down. Bastaram os primeiros acordes para despertar uma paixão definitiva. Passei a acompanhá-los — no bom sentido, como gosta de brincar meu amigo Zé Eloi — nos bailes da Churrascaria Alvorada, do Catiguá Tênis Clube, da União Operária e do PTC.
O encantamento foi tão grande que decidi aprender bateria. Anos mais tarde tive o privilégio de ser aluno do baterista argentino Dámaso Cerruti, que passava por Patrocínio. Naquele momento, eu não via o mestre que se tornaria referência nacional na sistematização da escrita rítmica; via apenas alguém que me ajudava a compreender a magia que havia entrado pelos meus ouvidos naquela tarde de 1969.

Super Som 201: Átila, Luiz Pindoba, Cabeleira e Edson Bragança – auxiliado pelos técnicos de som Serginho e Marcelo Mathias; 1974, baile no Catiguá Tenis Clube, Patrocínoo – MG. Foto: acervo de Edson Bragança, recuperada por IA pela Rede Hoje.
Ao chegar 1974, aos 20 anos, eu já trabalhava no rádio e via as bandas se renovarem. O Super Som 201 reunia Átila, Luiz Pindoba, Cabeleira e Edson Bragança – auxiliado pelos técnicos de som Serginho e Marcelo Mathias. Guardo na memória um ensaio em um casarão na Avenida Faria Pereira, próximo ao Posto União e abaixo do restaurante Copão 70 que não existe mais, onde o guitarrista Sonin, de Patos de Minas, reproduziu com fidelidade quase impossível o solo de Break, do grupo grego Aphrodite’s Child. Era uma aula de dedicação. Mais tarde ainda, surgiria o H6, liderado por Hélio Tinoco. A segunda fotografia desta crônica registra o Super Som 201 no Catiguá Tênis Clube, com Edson, Átila, Pindoba, João Flanela e Serginho. Átila, com sua voz marcante, lembrava o timbre de Morris Albert, especialmente em Feelings.
O movimento musical cresceu, unindo músicos de Patrocínio e Patos de Minas, como Sonin, Onofre e Sânzio. As bandas passaram a percorrer o Triângulo Mineiro e Goiás, lotando salões e unindo gerações.
Hoje percebo que essas fotografias preservam muito mais do que conjuntos musicais; preservam uma época em que a música era o ponto de encontro. Talvez seja por isso que os flashbacks nunca tenham saído da minha vida, encontrando espaço no Planeta Sonho, programa que criei na Módulo FM e que continuo a apresentar ao lado da querida Leid Carvalho.
Sou grato aos amigos Edson Bragança e Luiz Pindoba — baterista e professor do Conservatório Municipal de Música Dr. José Figueiredo — por compartilharem essas memórias. Ao restaurá-las, restauraram também um pedaço da minha história. Afinal, a música nunca foi apenas uma sucessão de notas. Ela é a trilha sonora da nossa existência, o lugar onde a memória aprende a cantar e onde uma parte de nós continua jovem para sempre.




