Press ESC to close

Sapiência Indômita

Renato S. Borges

Julho – 2026

Reza a lenda que uma equipe de remo, aquela de 9 membros (oito remadores e um timoneiro) denominada de “Oito Com” após passar por um “choque de gestão”, foi submetida a um “redesenho” organizacional. Os patrocinadores, aqueles que pagam os salários e, portanto, mandam, decidiram que era necessário mais alguém no gerenciamento pois suspeitava-se que havia bastante “corpo mole” na equipe. Como o barco só cabe 9 membros, resolveram substituir dois remadores por supervisores.

Os dois novos membros fizeram relatórios perfeitos, com gráficos, linhas de tendências, picos, vales, remadas por hora, por minuto, por segundo, etc. Um verdadeiro escrutínio do que fora feito nos últimos 30 dias. Além disso, ainda realizaram um perfil psicográfico de cada membro da equipe, já que conviveram em um alojamento por dias: um era ex-usuário de maconha, outro estava recém separado da mulher, outro era gay … essas informações super úteis, típicas da nossa tecnológica Abin…

O resultado da pesquisa foi considerado “ótimo” mas o ranking da equipe despencou – até a última temporada, em circuitos importantes, conseguiam se classificar aos trancos e barrancos mas, depois do downsizing[^1], nem na “lanterninha” ficaram. Um desastre!

Diante dos péssimos resultados nos campeonatos decidiram contratar uma consultoria externa por alguns milhares de dólares. Após análises e mais análises chegaram a uma conclusão genial: o peso médio assumido por cada remador estava de 30 a 40% maior do que de uma equipe padrão. Isso foi feito com alta tecnologia – avaliou-se o esforço físico por meio da ergoespirometria e avaliações dos limiares metabólicos, frequência cardíaca, VO2 máximo … e o “diabo a quatro”, como diz o ditado.

Numa dinâmica reflexiva, com consultores e patrocinadores, dentro de uma sala fechada, sistemática denominada de brainstorming, levantaram as seguintes hipóteses: a equipe poderia estar acima do peso ou o barco estaria “fazendo água”. Um outro levantou a possibilidade de que poderiam ter bebido água ou comido demais … alguma “muamba” pesada a bordo ??? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas! Dizem que estão nesse looping psicodélico até hoje depois, é claro, de contratarem uma auditoria externa, do mesmo grupo da consultoria, obviamente!

Convivi com essa loucura por anos e presenciei “discussões homéricas” de qual métrica usar: NOPAT, ROIC, ROI, EVA, EBIT, EBITDA, ROE, ROA, WACC, VPL, TIR, PAYBACK, CAGR, LL, LAIR, LAJIR, LAJIDA e o escambau!!! Não me esqueço dos famigerados planos de ação: 5W2H – What, Why, Where, When, Who, How, How Much; o 5S – Seiri, Seiton, Seiso, Seiketsu, Shitsuke; PDCA – Plan, Do, Check, Act… ufa!

Quando me foi apresentado o CAGR (de pronúncia “Queiguer”) como uma “solução para os meus pobremas” me aprofundei um pouco e pensei: Mas não é a nossa velha taxa de crescimento do período? Já que $CAGR = \text{Valor Final} / \text{Valor Inicial}$ … quanta criatividade!

Estou longe dessa “vibe” mas de vez em quando vejo debates acalorados sobre essa “sopa de letrinhas” em plataformas profissionais como se essas métricas traduzissem a mais pura realidade de um empreendimento (projeto/empresa) ou se as sistemáticas realmente mudassem uma estrutura organizacional da noite para o dia. Calma! tem coisa pior por aí, Renato! – encontros motivacionais com gritos de guerra … pode crer!

Aprendi lá em Patrocínio MG, com um comerciante de carros libanês, que quase tudo nessa vida é perfeitamente resolvido com bom-senso e regra de três. Eu acrescentaria que os mitigadores de risco dele não foram além da famosa “cautela e caldo de galinha”. Sua empresa passou por diversos choques e planos econômicos, congelamento de preços, confisco de poupança etc …

Sobreviveram …

A empresa foi tão longeva quanto ele, que faleceu com mais de 90 anos, trabalhando.


[1]: Downsizing é uma reestruturação organizacional que busca tornar uma empresa mais enxuta, eficiente e competitiva – redução de custos, eliminação de processos burocráticos … corte do quadro de funcionários etc.


Renato S. Borges é patrocinense, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF

@redehoje
Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed com a ID 1 foi encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.