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O Som da Memória | A Cidade dos três dígitos e das serenatas sem wi-fi

Luiz Antônio Costa

Sair pelas ruas da cidade nas noites e madrugadas daquele início da década de 1970, mesmo para quem tinha apenas 16 ou 17 anos, era algo tão natural quanto tomar banho. A cidade pertencia aos jovens, que viam na calçada o palco principal de suas vidas.

A estratégia diária era simples e direta: de segunda a sexta-feira, o objetivo do pessoal era descobrir onde aconteceriam as “brincadeiras dançantes”, nome bastante comum dado aos bailinhos realizados nas próprias residências de famílias.

Grupos e mais grupos de jovens perambulavam pela cidade em busca das casas movimentadas. A comunicação acontecia no mais puro boca a boca, sem nenhuma das facilidades da internet ou dos celulares que viriam a abundar no século XXI. Naquela época, até os telefones fixos eram uma raridade.

Para se ter uma ideia, os números telefônicos da cidade tinham apenas três dígitos — o da Rádio Difusora, única emissora local e onde eu trabalhava, era simplesmente 286. Para fazer uma ligação interurbana, dependia-se exclusivamente do auxílio da telefonista, que conhecia todo mundo; as mais famosas eram a Luzia e a Odete. A companhia, dirigida pelo senhor Frederico Lopes, oferecia um atendimento totalmente personalizado.

Mas, voltando aos jovens e suas andanças, a informação sobre as festas corria rápido. E o mais curioso é que as brincadeiras e que nas casas de família onde as “brincadeiras” aconteciam, mesmo sem conhecer ninguém ali, qualquer um podia entrar com a certeza de que seria muito bem recebido.

O que atraía tanto essa garotada para os bailes? Bebidas? Não. Drogas? Muito menos. Sexo? De maneira alguma. O que eles buscavam era a versão setentista do que mais tarde se chamaria de “redes sociais”: o contato humano, a conversa olho no olho e a chance de arrumar um namoro.

Essa ingenuidade da época ficava clara nas músicas da Jovem Guarda que embalavam os encontros. Eram letras românticas e sem malícia na voz de Roberto Carlos, Wanderléia, Erasmo Carlos, Jerry Adriany, Wanderlei Cardoso, Ronnie Von, Os Incríveis…

Nos bailes, além dos ídolos nacionais, bandas como The Fevers, Renato e Seus Blue Caps, Johnny Rivers, Beatles, Bee Gees, Bread, Elvis Presley, Lobo e Creedence marcavam presença constante nas pick-ups. E quando chegava a hora de dançar “coladinho”, o máximo permitido, a trilha sonora contava com sucessos inesquecíveis como “A Whiter Shade of Pale”, “Yesterday”, “The Guitar Man”, “I’d Love You to Want Me”, “Sapore di Sale”, “Il Mondo”, “In Ginocchio da Te” e “No no Leta”.

À medida que os anos 70 avançavam, as canções em língua inglesa ganharam força. Os compactos simples mais vendidos na Joalheria França, na Praça Honorato Borges, eram “Alone Again” de Gilbert O’Sullivan, “Day After Day” do Badfinger e “Give Me Love” do ex-Beatle George Harrison, sem esquecer dos franceses como Pierre Groscolas e suas “Fille du vent” e “Un chant d’amour, un chant d’été”.

Ainda assim, a preferência majoritária era pelos ídolos italianos: Gigliola Cinquetti, Luigi Tenco, Peppino di Capri, Jimmy Fontana, Sergio Endrigo e Rita Pavone. Mas o verdadeiro “pão” — como as meninas chamavam os rapazes bonitos na época — era o cantor e ator Gianni Morandi; nos dias em que seus filmes passavam no Cine Patrocínio, a fila de fãs dava voltas na Praça Santa Luzia.

Depois que as brincadeiras dançantes encerravam, a madrugada continuava acesa. Os jovens pegavam uma radiola portátil Sonata de debaixo do braço e saíam pelas calçadas para fazer serenata. Ia-se pacientemente até a casa da namorada ou pretendida, colocava-se o aparelho no chão ou no murinho do alpendre e soltava-se uma seleção musical feita sob medida para agradar às moças — embora nem sempre agradasse aos pais.

Quando a segunda-feira chegava, o assunto nos corredores dos colégios Dom Lustosa, Normal, Alto Paranaíba e Olímpio — ou ao redor do famoso chocolate quente do Adélio Silva no Café Mirim da Avenida Rui Barbosa — era um só: o sucesso da serenata, o “amasso” conquistado no sábado e as peripécias para despistar os pais bravos, os cães bravios e o Jipão do Geso, a única viatura policial da cidade.

Eram tempos em que ninguém esquentava a cabeça com decibelímetro — até porque a potência daquelas radiolas nem dava para tanto — e muito menos com denúncias de perturbação do sossego. O som na rua era recebido com a maior naturalidade do mundo: uma etapa inevitável e bonita da vida, pela qual todo mundo passava antes de virar um adulto ranzinza.

Embora houvesse espaço para a música de protesto de Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Tom Zé — acompanhada pela leitura escondida do jornal O Pasquim que o Zé Astrogildo mostrava na Praça da Matriz —, a prioridade da moçada era mesmo viver a rotina bucólica e simples do interior.

No fundo, o que a gente mais gastava mesmo era sola de sapato. Dinheiro era coisa rara, e os trocados só saíam do bolso no fim de semana para as coisas essenciais: garantir o cinema, estocar chiclete Ping Pong, pagar um sorvete ou um guaraná Banho de Lua pra paquera da vez, ou arriscar uma ida à Churrascaria Alvorada. Na churrascaria, o porteiro Nassin era coração mole e liberava a entrada dos duros; no Cine Patrocínio, porém, o “seo” Virgílio e o simpático Benízio não davam moleza. Mas quer saber? Qualquer patrocinense que viveu aquilo assina embaixo: foi uma época boa demais da conta!

@redehoje
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