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Dente-de-Leão | O mundo ainda tem jeito

Luiz Antônio Costa

Há alguns anos escolhi o nome Dente-de-Leão para esta coluna. Não foi por acaso.

A flor do dente-de-leão transforma um simples sopro em dezenas de sementes que o vento leva para longe. Nunca se sabe onde elas vão cair, nem quais encontrarão terra fértil para nascer. A intenção desta coluna sempre foi essa: lançar ideias ao vento. Algumas desaparecem. Outras encontram abrigo na consciência de alguém.

Nesta semana aconteceu uma dessas raras ocasiões em que percebemos exatamente onde algumas sementes caíram.

Escrevi uma crônica sobre Joel de Souza, o Joelão, último representante dos antigos chapas que durante décadas fizeram do cruzamento das avenidas Rui Barbosa e Faria Pereira o seu ponto de trabalho e convivência. Não era apenas um texto sobre um homem que morreu. Era um texto sobre o esquecimento. Sobre aqueles que continuam existindo mesmo quando deixamos de enxergá-los.

Depois da publicação, começaram a chegar mensagens.

Vieram de Patrocínio, de Uberaba, Brasília, São Paulo. Vieram de engenheiros aposentados, bancários, professores, antigos companheiros da União Operária, comerciantes, jornalistas e pessoas que sequer conheceram Joel pessoalmente. Muitos diziam a mesma coisa: “Eu também passei por ele centenas de vezes.” Outros confessavam um sentimento ainda mais difícil de admitir: “Eu poderia ter parado para conversar mais.”

Não eram mensagens de elogio ao texto. Eram confissões.

Alguém lembrou que Joel permaneceu no mesmo lugar quando todos os outros chapas desapareceram. Outro recordou os bancos que foram retirados da avenida, mas Joel permaneceu. Houve quem lembrasse de um cumprimento rápido, de uma conversa de poucos minutos ou de um sorriso que agora faz falta.

Uma leitora escreveu que, dias antes de sua morte, viu Joel deitado sobre papelões, numa noite fria. Pensou em parar. Não conseguiu estacionar. Voltou para casa acreditando que alguém o levaria para um abrigo. Dias depois soube da morte dele. Sua mensagem terminava com um pedido simples: “Desculpe, Joel.”

Talvez essa tenha sido a frase mais forte de todas.

Em outro momento da conversa, alguém observou que, quando uma personalidade importante morre, decretam-se lutos oficiais, suspendem-se atividades, multiplicam-se homenagens. Joel partiu quase sem anúncio. Houve quem nem encontrasse uma nota de falecimento. E foi justamente essa comparação que fez muitos compreenderem que a crônica nunca tratou apenas de um homem. Tratava da diferença de valor que a sociedade costuma atribuir às vidas.

Não se discutia quem era mais importante.

Discutia-se por que algumas pessoas parecem importar tão pouco.

Durante horas, grupos de WhatsApp continuaram debatendo o assunto. Nem todos concordavam. Alguns defendiam outras interpretações. E isso também foi importante. Porque reflexão não nasce da unanimidade. Nasce do incômodo.

Foi então que percebi que o texto já não era meu.

Ele passou a pertencer às lembranças de cada leitor. À culpa de alguns. À saudade de outros. À indignação de muitos. Cada mensagem acrescentava um capítulo que eu não havia escrito.

Como jornalista, passei a vida acreditando que a missão de um texto é informar. Como cronista, aprendi que ele também pode emocionar. Nesta semana descobri outra possibilidade: um texto pode reunir pessoas para conversar sobre aquilo que normalmente evitamos enxergar.

Vivemos repetindo que o mundo está perdido.

Talvez esteja.

Mas basta uma história verdadeira, um homem invisível e algumas centenas de pessoas dispostas a refletir para que essa certeza comece a balançar.

Enquanto ainda houver leitores capazes de interromper a própria rotina para pensar na vida de alguém que jamais ocuparia uma manchete nacional, ainda existe alguma esperança.

Talvez seja exatamente isso que o dente-de-leão faz.

Ele não muda o mundo com um único sopro.

Mas espalha sementes suficientes para que alguma delas floresça em outro lugar.

E, depois desta semana, continuo acreditando que o mundo ainda tem jeito.

@redehoje
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