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O Som da Memória | O sangue do nosso sangue

Luiz Antônio Costa

Há momentos em que o tempo parece diminuir o passo. A espera pelo nascimento de uma criança é um deles. Amanhã nascerá Liz, minha primeira bisneta, filha da minha neta Camila e de seu marido, Edu Melo. O nome dela significa lírio, flor que simboliza pureza, esperança e recomeços. Desde que recebi a notícia, tenho a impressão de que a vida abriu, mais uma vez, o velho álbum das minhas lembranças.

É impossível viver um momento assim sem voltar quase trinta anos no tempo. Lembro-me da ansiedade quando minha filha Patrícia esperava o nascimento de Vinícius. Enquanto não ouvi o primeiro choro dele ecoar pelos corredores do Hospital Evangélico de Patrocínio, meu coração não sossegou. Naquele instante descobri que ser avô é uma forma bonita de ser pai outra vez. O amor muda de lugar, mas não muda de intensidade.

As grandes lembranças, porém, nem sempre nascem dos grandes acontecimentos. Quase sempre são feitas de cenas tão simples que, naquele momento, ninguém imagina que um dia se tornarão inesquecíveis.

Guardo com carinho uma viagem em família para a Praia da Boraceia, no litoral paulista. Íamos Márcia, André, Patrícia, Alexandre, Juninho e eu. O carro seguia cheio de risadas, perguntas e descobertas. Para divertir as crianças, eu piscava os faróis para os caminhoneiros que vinham no sentido contrário. Quando eles respondiam com outro lampejo de luz, parecia que havíamos feito um novo amigo na estrada. Era uma brincadeira sem importância para quem via de fora, mas que enchia de alegria o nosso carro.

Naquele mesmo percurso, a rodovia parecia um campo de batalha. Buraco daqui, buraco dali, e eu desviando de todos, numa dança improvisada ao volante. Patrícia, ainda menina, observava tudo em silêncio até que não resistiu: “Pai, de novo? Você não acerta nenhum buraco!” Foi o bastante para provocar uma explosão de risos. Márcia ria, os meninos riam, eu ria. A estrada ficou para trás, mas aquela frase nunca me abandonou.

Pouco depois, foi a vez de Patrícia enjoar. Enquanto lutava para conter o mal-estar, André, alguns anos mais velho e sempre pronto para provocar a irmã, enxergou ali mais uma oportunidade de brincar. Com a maior naturalidade, virou-se para Márcia e disparou: “Mãe, pega uma fronha para ela vomitar”, como se ela passasse a viagem inteira enjoando. Patrícia protestou, André caiu na risada e, em poucos segundos, todos nós estávamos rindo também. Até hoje, quando essa história reaparece nas conversas de família, é como se voltássemos a ocupar os mesmos lugares dentro daquele carro, percorrendo outra vez a estrada para Boraceia.

Talvez seja exatamente isso que chamamos de família. Um lugar onde os grandes acontecimentos caminham lado a lado com histórias miúdas, dessas que parecem insignificantes quando acontecem, mas que acabam vencendo o tempo. As fotografias envelhecem, os aniversários se acumulam, os cabelos embranquecem. Mas uma frase de criança, uma brincadeira entre irmãos ou uma gargalhada compartilhada permanecem surpreendentemente jovens.

Naquele tempo, meus filhos eram crianças. Depois vieram os netos. Agora chega Lis, trazendo mais um broto para essa árvore que nunca para de crescer. E a vida já anuncia outra bênção: em janeiro nascerá Catarina, filha do meu neto Vinícius e de sua esposa, Dhy, no Mato Grosso. Seu nome significa “pura”, como se a própria vida insistisse em lembrar que cada criança chega ao mundo trazendo consigo a possibilidade de um novo começo.

Em poucos meses, nossa família ganhará mais dois sorrisos, mais dois olhares curiosos e um sem-número de histórias que ainda nem imaginamos contar.

A vida é assim. As gerações passam umas às outras muito mais do que um sobrenome ou um retrato guardado na gaveta. Herdamos afetos, exemplos, lembranças, manias e histórias que continuam sendo escritas por quem chega depois de nós.

É por isso que espero Liz com a emoção de quem sabe o valor de um primeiro choro. E é por isso que já faço um lugar no coração para Catarina. Elas são a prova de que o tempo segue adiante, mas o amor encontra sempre um jeito de permanecer. O sangue do nosso sangue continua escrevendo a mesma história. E, enquanto uma criança nascer para renovar a esperança, a memória jamais deixará de cantar.

@redehoje
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