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O Tager da Tragédia

Renato S. Borges

Agosto – 2026

Eu não sabia o quão perigoso era aquele móvel que, geralmente, reinava nas salas de estar para acomodar as mais variadas relíquias — desde bibelôs e livros até aparelhos de jantar de uso exclusivo das visitas. Trata-se da étagère, estante francesa do século XVIII que se popularizou na era vitoriana. Nas periferias do Brasil, contudo, já nos anos 1970 e 1980, nós a batizávamos intimamente de etager ou, simplesmente, tager (com o perdão dos franceses).

Lá nos interiores de Minas Gerais, nesse mesmo período, as crianças ainda brincavam com o mundo real. Nada de Minecraft ou Roblox: nosso cenário era a rua, e nossos avatares eram de carne, osso e poeira. Brincávamos com bola de couro, pique-pega, jogo de bete e queimada. Embora os videogames domésticos de cartucho já existissem, eles eram uma raridade mítica. O famoso Atari, que demorou a aportar oficialmente no Brasil, era um luxo caro e inacessível para a grande maioria.

Sem telas para nos prender, nós — as “criOnças” — corríamos de quintal em quintal, frequentando as casas da vizinhança sem qualquer burocracia. Bastava que houvesse outra criança do lado de dentro do portão para que a visita estivesse decretada. Não existiam agendamentos formais, mensagens prévias ou protocolos. O mundo, sob a nossa ótica infantil, era infinitamente mais simples.

Sabíamos de cor o mapa de tesouros do bairro: o menino da casa azul era o dono da cobiçada “bola de capotão”; a irmã dele guardava um carrinho de boneca; o garoto da esquina exibia uma bicicleta Monareta; a vizinha ostentava um patinete e um brinquedo “vai e vem”; e o filho do mecânico era o rei dos carrinhos de rolimã. Apesar das ocasionais rusgas — perfeitamente normais entre aquelas criaturinhas —, o compartilhamento desses nobres equipamentos era a regra, uma espécie de comunismo lúdico que só cessava quando a voz de um pai ou de uma mãe ecoava pela rua exigindo o nosso retorno imediato.

Era justamente na casa de um desses parceiros de aventura que residia a tal étagère. O móvel guardava, a sete chaves, um jogo raríssimo que o meu colega havia ganhado no Natal. Toda vez que eu o acompanhava para resgatar o brinquedo, a travessia era de alto risco. Bastava nos aproximarmos do móvel para que ele nos atacasse: ora despencava uma porta, ora emperrava uma gaveta, ora uma prateleira cedia sem aviso. Não foram poucas as vezes em que saímos dali com um galo na cabeça ou o dedão do pé achatado pela ilustre peça de marcenaria francesa.

Numa tarde dessas, porém, a étagère parecia especialmente hostil. Em um estalo seco, o móvel simplesmente se desintegrou diante de nós, despejando em cascata tudo o que sustentava com tanto zelo ornamental. Foi uma avalanche doméstica: jarras voando para um lado, enciclopédias pesadas despencando para o outro, e potinhos de louça se estilhaçando no chão. Um verdadeiro sufoco; uma surra física e moral aplicada por uma cômoda.

Ao voltar para casa, já antecipando a bronca, relatei o desastre ao meu pai. Ele, que tinha o generoso hábito de consertar os utensílios domésticos dos vizinhos (e que também já havia travado seus duelos contra o móvel alheio), ouviu o relato e, na hora, rebatizou a peça: passou a ser o Tager da Tragédia.

Meu pai tinha a péssima mania de apelidar as coisas que consertava: a bacia de metal furada, cujo remendo nunca durava e esvaziava a água num piscar de olhos, era a “bacia da saudade”; a cama de armar que se dobrava ao meio espontaneamente nas madrugadas frias era a “cama suicida”; e assim por diante. Alguns vizinhos se divertiam com a ironia; outros, um tanto mais apegados à dignidade de seus pertences, nem tanto.

No entanto, como ele jamais cobrava um centavo por esses pequenos milagres cotidianos, ninguém falava nada. A piada, que atravessou as décadas e nos faz rir até hoje em volta da mesa, acabou sendo o melhor pagamento que poderíamos ter recebido.


Renato S. Borges é patrocinense, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF

@redehoje
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