
Cúpula da Igreja de Nossa Senhora da Abadia de Romaria. Foto: Arquivo Portal Férias
A data marca a Assunção de Nossa Senhora e atrai mais de 100 mil pessoas, com feriado municipal em Patrocínio, Uberlândia, Uberaba e Patos de Minas
Da Redação da Rede Hoje
Nas primeiras horas do dia 15 de agosto, o ar frio da madrugada na BR-365 contrasta com o calor das fogueiras e das luzes que cortam o acostamento. A passos firmes, milhares de devotos avançam pela rodovia rumo ao mesmo destino: a pequena cidade de Romaria, no Alto Paranaíba. A data, que marca a celebração da Assunção de Nossa Senhora e o Dia de Nossa Senhora da Abadia, não é apenas um feriado municipal no calendário de cidades como Patrocínio, Uberlândia, Uberaba e Patos de Minas — é a expressão de um fenômeno sociocultural e religioso que atravessa gerações no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.
A devoção, que atrai mais de 100 mil pessoas a Romaria apenas no dia 15, carrega uma herança centenária que une fé, superação física e a memória de um passado que moldou a segurança das romarias atuais.

Da Europa ao Sertão: A Origem da Devoção
A história de Nossa Senhora da Abadia remonta ao século IX (ano 883), no Mosteiro de Santa Maria de Bouro, ao norte de Portugal. Com as invasões muçulmanas na Península Ibérica, a imagem da Virgem foi escondida por monges em uma gruta nas montanhas para evitar profanações. Somente no século XII a escultura foi reencontrada por eremitas atraídos por luzes misteriosas na mata. Por ter sido levada para o mosteiro/abadia local (da palavra aramaica Abba, “Pai”), a santíssima ficou conhecida como Nossa Senhora da Abadia.
Trazida ao Brasil no século XVIII por colonizadores portugueses, a devoção ganhou força no interior mineiro a partir do século XIX no antigo arraial de Água Suja — atual município de Romaria. Foi lá que a promessa de erigir uma capela deu início a uma das maiores peregrinações do país, impulsionada na década de 1930 pelo trabalho do Beato Padre Eustáquio, então pároco da cidade.
A Cicatriz da História: A Tragédia dos Anos 1970

A caminhada que hoje reúne famílias e grupos organizados em rotas sinalizadas guarda na memória um capítulo doloroso. Na década de 1970, o deslocamento para a festa em Romaria dependia fortemente dos “paus de arara” — caminhões com bancos de madeira improvisados na carroceria que transportavam dezenas de fiéis por estradas de terra poeirentas e sem sinalização.
Em meados daquela década, uma tragédia abalou a região: um caminhão lotado de romeiros perdeu o controle nas estradas que conectavam os municípios vizinhos a Romaria, resultando na morte e no ferimento de dezenas de peregrinos. O acidente gerou comoção nacional e transformou aquele 15 de agosto em um dia de luto coletivo no Alto Paranaíba.
O episódio tornou-se um divisor de águas. O impacto social levou ao banimento progressivo do transporte de passageiros em carrocerias abertas e abriu espaço para o fortalecimento da caminhada a pé como a principal forma de pagar promessas e demonstrar devoção.
A Tradição A pé e a “RomeiroVia”

RomeiroVia — um corredor de proteção e faixa exclusiva para pedestres implementado ao longo dos trechos de maior fluxo de caminhantes. Foto: EPR Triângulo
Decênios após o acidente, a peregrinação se reinventou com foco na segurança. A caminhada de cerca de 55 a 60 quilômetros saindo de Patrocínio, assim como os trajetos vindos de Uberlândia e Monte Carmelo, conta hoje com uma rede de solidariedade ao longo da BR-365 e da MG-190.
Dezenas de barracas de apoio mantidas por voluntários e entidades oferecem aos fiéis água, refeições quentes, curativos para bolhas e atendimento médico. Para proteger os pedestres do tráfego pesado de carretas, a infraestrutura rodoviária passou a contar com a RomeiroVia — um corredor de proteção e faixa exclusiva para pedestres implementado ao longo dos trechos de maior fluxo de caminhantes.
Patrocínio e a Celebração Urbana

A Prefeitura de Patrocínio sempre mantem o apoio a romeiros através de barracas montadas em pontos estratégicos. Foto: Secom/PMP
Em Patrocínio, o 15 de agosto altera a rotina da cidade. Com o comércio, bancos e repartições públicas fechados pelo feriado municipal, a população se divide entre a viagem até a Basílica de Romaria e as celebrações locais.
Para os fiéis que permanecem no município, o ponto focal das homenagens é a Igreja de Nossa Senhora da Abadia, no bairro Serra Negra (Paróquia São João Paulo II). A programação local envolve alvoradas festivas, missas ao longo do dia, procissão pelas ruas do bairro e a tradicional coroação da imagem no início da noite, encerrando mais um ciclo de fé que une tradição, memória e religiosidade no coração do cerrado mineiro.




