
Renato S. Borges
Agosto-2026
Há aproximadamente 30 anos teve início o que eu denomino de “teorização do bom senso”. Uma espécie de registro e documentação do que deveria estar implícito nas nossas atitudes razoáveis do dia a dia.
De lá pra cá, tudo que era atitude decente virou sigla, relatório, meta e consultoria de 6 dígito$. Não jogar lixo no chão virou ODS 12. Tratar funcionário com respeito virou RSA. Não corromper virou compliance. Não destruir o planeta virou ESG. E não falar inglês virou ASG, que é o ESG traduzido, pra pagar menos no tradutor.
A galera de finanças e administração fez um concurso para, entre vários termos, eleger um que retratasse esse fenômeno. A palavra greenwashing venceu. Hipocrisia ficou em segundo lugar.
O problema não são as siglas. O problema é que elas viraram biombo, álibi para a sonsice. Na semana passada, na espera de um semáforo aqui da cidade, eu vi a seguinte cena: do meu lado um caminhão de entregas com três pessoas na boleia – percebi logo que se tratava de uma empresa familiar conhecida na região. Na minha frente um busdoor imenso, de uma grande corporação, com os seguintes dizeres: “SOMOS ESG”.
A primeira é uma pequena fábrica da Ceilândia. Doze funcionários. Dono acorda 5h da manhã. Paga vale-transporte com sacrifício. Separa o lixo porque o caminhão só passa 3x na semana. Faz cestas de natal porque conhece a família de todo mundo. A segunda, do busdoor, é um conglomerado. Escritório de vidro espelhado no centro da cidade. Relatório ESG com “trocentas” páginas. Capa bonita. Foto de criança plantando muda de árvore. E, como costuma acontecer nos “melhores relatórios”, lá no rodapé, em Times New Roman quase zero: “processo trabalhista em andamento”. Em algum anexo: “autuação ambiental de alguns $ milhões”.
Pensei: quem deve ganhar as licitações “poupudas”? A do relatório de “trocentas” páginas, imagino. Sabe por quê? Porque hoje “fazer o certo” não é fazer. É documentar que faz. É ter comitê. É ter indicador. É ter KPI de empatia, certificado de “bonzinho”. Trata-se de mais um paradoxo, pois o legítimo esforço do pequeno — que separa o lixo, que dá folga pra mãe levar o filho no médico, que não demite no Natal — acaba virando desculpa pra grande aprovar a pauta.
Sob a bandeira simpática da “sustentabilidade e governança”, os grandes contratam 3 consultorias, fazem 2 mutirões de voluntariado e 1 post com #ODS. Ganham selo. Ganham isenções. Ganham contrato. Ganham tapete vermelho do gerente do banco.
Enquanto isso, a fábrica lá da Ceilândia recebe a fiscalização do trabalho, do meio ambiente, da vigilância sanitária e mais 4 siglas que odono nem sabe pra que servem. É que ele não tem departamento jurídico. Tem o Seu Miro, o faz tudo, e a Maria que anota no caderno.
Ironicamente, o pequeno — que de fato faz ESG sem saber o que é — é induzido a pagar curso de 40h pra aprender a sigla. Pra preencher planilha. Pra provar que é decente, limpinho.
O bom senso, teorizado, foi terceirizado. E caro! – departamentos, cargos, viagens, hotéis e seminários luxuosos. Se existisse realmente um equilíbrio nos esforços, as empresas poderiam trocar os slogans. Em vez de “Somos ESG” a película do busdoor poderia trazer, com um pouco de ironia, algo como: “Fazemos o mínimo e postamos o máximo”.
E a fábrica da Ceilândia? Ah sim: essa poderia ter algo como:
“Não temos siglas. Temos gente.”

Renato S. Borges é patrocinense, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF




