Press ESC to close

O Som da Memória | O toque de alma que uniu um casal

Por Luiz Antônio Costa

É curioso como a juventude patrocinense das décadas de 1960 e 1970 encontrou nas churrascarias o cenário perfeito para guardar suas lembranças. Também pudera: as opções de entretenimento eram poucas — dois cinemas, a praça e as poucas mesas ao redor. Depois do tempo dourado da Churrascaria Alvorada, o ponto de encontro migrou para a Labareda, ali onde hoje se ergue o Edifício Palmeiras, na Praça Santa Luzia. Depois do vaivém despretensioso no coração da cidade, era para lá que a moçada ia, quase sempre com os bolsos vazios, mas com o suficiente para a cerveja e o tira-gosto num espaço acolhedor.
O lugar lembrava um chalé de madeira rústica envernizada em amarelo, decorado com samambaias e fotos de carros antigos — uma atmosfera simples que viu nascer conversas longas e os melhores momentos de namoro nas mesas de canto. Naquele ambiente, a música tinha lugar certo. O dono da casa, apaixonado pela Jovem Guarda e por Roberto Carlos, fazia tocar todas as noites, pelo menos três vezes, relíquias românticas do Rei, como E Não Mais Vou Deixar Você Tão Só. Aquela trilha embalava os encontros e preparava o terreno para memórias ainda mais profundas, tecidas entre olhares e conversas sem pressa.
Mas a vida, com sua acústica própria, costuma ensaiar os encontros em um palco para depois dar a eles o tom definitivo em outro. Antes que a Labareda se tornasse o nosso refúgio de todas as noites, o destino tratou de afinar a primeira nota a poucas quadras dali.
O momento divisor de águas chegou numa tarde qualquer, enquanto eu descia a Avenida Rui Barbosa a caminho do trabalho na rádio. Carregava debaixo do braço dois compactos simples de vinil quando cruzei o caminho de uma amiga. O convite para ouvir as novidades surgiu sem rodeios, e foi assim que entrei naquela casa onde fui apresentado a uma garota até então desconhecida: a Márcia.
Na bagagem, eu levava duas preciosidades: Day After Day do Badfinger — a famosa banda afilhada de Paul McCartney e contratada da gravadora Apple —, e Give Me Love (Give Me Peace on Earth), do ex-Beatle George Harrison. A agulha logo deslizou suave sobre o vinil, e as notas preencheram a sala através da radiola guardada num imponente móvel de som cor cerejeira. Entre o tom marcante do Badfinger e a prece delicada de Harrison, a música teceu uma ponte invisível entre dois olhares que recém haviam se encontrado.
Terminada a sessão musical, chegou a hora de seguir viagem em direção ao centro. Márcia e eu, acabados de nos conhecer, descemos a rua lado a lado. O trajeto se fez curto diante da conversa fluida, leve, que parecia já buscar um ritmo próprio. Dali mesmo, o reencontro ficou combinado.
Foi assim que a melodia iniciada na sala da Rui Barbosa encontrou seu eco perfeito nas luzes suaves da Labareda. O que começou ao som de Harrison e Badfinger ganhou o calor daquela mesa de canto na praça, onde o repertório do dia a dia nos aproximou de vez. Veio o fim de semana, as conversas de calçada viraram namoro firme entre as samambaias da churrascaria, e a partir daquele dia a gente nunca mais se separou — unidos por uma trilha sonora que o tempo jamais conseguiu apagar.

@redehoje
Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed com a ID 1 foi encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.