
Imagem: Jarmoluk! por Pixabay
Luiz Antônio Costa
Ela não era minha mãe de sangue, mas as fronteiras da afetividade não se curvavam a essas formalidades. Na minha pré-adolescência, a casa que eu mais habitava — com a naturalidade de quem habita o próprio teto — era a de Dona Aurora.
Ficava ali perto da nossa, separada por um lote vago onde a infância se derramava em brincadeiras de pique-esconde e salva-linha. Como quase todas as residências daquele bairro, o movimento era constante e vibrante. Havia uma efervescência de jovens: o Fernando, meu companheiro inseparável da juventude; a Lenir, filha mais nova da casa e, por extensão, quase uma irmã para mim; além da irmãs já adultas, Maria e Odete, que também moravam ali. Dona Aurora tinha ainda outros filhos que viviam fora e que eu quase não tive contatos, portando peço desclpas se não estiver correto, creio acho que eram: José, estabelecido em Ibiá; o Saul, se não me falha a lembrança, em Caldas Novas; o Osmar em Salitre, o Euclides; e o Eustáquio, que atuava na Cemig e partiu tragicamente eletrocutado — um baque profundo e doloroso que aquela mãe viúva jamais conseguiu assimilar.
Chegar por lá significava quase sempre atravessar a porta da cozinha. A cena era um quadro vivo de acolhimento: uma mesa generosa ocupando o centro do cômodo e Dona Aurora entregue aos afazeres no fogão de lenha de cauda comprida, com seu tom vermelho sempre impecável e brilhante. O chão, em cimento queimado num vermelho-sangue bem cuidado, parecia guardar o frescor e a memória de cada passo dado ali.
Dona Aurora fumava. E eu, alimentado pelo charme daquela moda de época aos meus 14 ou 15 anos, costumava “filar” sem cerimônia um Continental sem filtro de suas mãos adoráveis. Nas datas do meu aniversário, invariavelmente os gestos dela se destacavam. Em julho de 1970, em plena efervescência da Copa do Mundo, presenteou-me com um perfume guardado no frasco em formato de chuteira de louça — um detalhe inesquecível daquele ano de glórias.
A casa tinha o encanto arquitetônico dos chalés. Ao entrar, o corredor distribuía os quartos: à esquerda, o das meninas; à direita, o dos rapazes. Fernando dividia o aposento com um irmão que morava fora. Eram duas camas de solteiro dispostas uma de cada lado. Entre elas, repousava o verdadeiro tesouro da nossa juventude: um criado servindo de suporte para uma radiola Sonata.
No vão abaixo da gaveta, organizavam-se as nossas preciosidades em vinil. LPs com suas seis faixas de cada lado e compactos que rodavam sem qualquer preconceito musical. Ali ecoavam a Jovem Guarda, o rock e a música brega. Ouvíamos Jerry Adriani, Agnaldo Timóteo, Zé Roberto, Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Erasmo, Wanderléa, Lafayette e Roberto Carlos. Mas a minha preferência absoluta atendia por um nome: The Fevers.
A sonoridade daquela banda carioca, nascida nos anos 1960 em Piedade e consagrada no início dos anos 1970 com A explosão musical dos Fevers e a inesquecível “Vem Me Ajudar”, era o fundo musical definitivo das nossas tardes.
Confesso que a minha acomodação era proporcional à paciência santa de Dona Aurora. Como minha própria mãe costumava dizer, eu parecia “leitão de quintal: se coçar, deita”. Chegava, ocupava o quarto como se meu fosse e colocava os discos no volume máximo. Pense na cena: um pré-adolescente, filho do vizinho, entrando todos os dias na sua casa e tomando conta do som. E ela jamais reclamou.
Quando não estávamos aprontando por lá, o nosso refúgio era o Poção, ao pé da Serra do Cruzeiro. Passávamos as horas nadando, colhendo gabirobas e nos arriscando como Tarzan nos cipós de uma frondosa árvore de mama-de-porca.
O tempo, contudo, seguiu seu curso inexorável. Eu e Fernando começamos a trabalhar. O ponto de encontro migrou para o vaivém das garotas na Praça Santa Luzia e para os arredores da Praça Honorato Borges, ponto de reunião por conta dos dois cinemas da cidade. Mais tarde, a vida tratou de traçar os rumos individuais de cada um.
Guardei de Dona Aurora a imagem mais terna de uma mulher doce, paciente e acolhedora, que vestia seus dias com tecidos de flores miudinhas ou tons sóbrios e que, com o cigarro entre os dedos, soube fazer da própria casa o cenário mais generoso da nossa juventude.




