
Renato S. Borges
Agosto – 2026
Quando os portugueses chegaram aqui, trouxeram espelho. A gente tinha floresta inteira. Começou o escambo. Madeira de um lado. Espelhinho do outro. Não era uma negociação exatamente aprovada pelo PROCON, mas, pra quem nunca tinha visto a própria cara, o espelhinho era tecnologia de ponta. Era o iPhone 1.0. Quinhentos anos depois, a gente evoluiu muito. A caravela virou navio cargueiro de 300 metros. O espelho virou smartphone com reconhecimento facial.
E a lógica comercial continuou idêntica. Antes levavam pau-brasil. Depois levaram ouro. Depois prata. Depois tudo que brilhava e tinha nome bonito na tabela periódica. O Brasil, aliás, sempre foi um grande supermercado a céu aberto. O estrangeiro entra, escolhe e leva. A gente fica com o buraco e com a placa de “obrigado pela preferência”.
Hoje estamos moderníssimos. Exportamos em toneladas. Importamos em gramas. A gente vende um navio cheio de soja, que precisou de 10 mil hectares, 50 tratores com GPS, chuva, sol, defensivo, caminhão, ferrovia que não funciona, porto que para na greve e três meses de viagem.
Em troca, compramos uma caixa de chips que pesa 2 quilos e vale mais que o navio inteiro — feitos, aliás, com matérias-primas e tecnologias que a gente não domina. É o índio trocando floresta por espelho, só que agora de terno e com PowerPoint em inglês — Yes, we have bananas!
A gente vende o café em saca e compra de volta o expresso em cápsula por vinte reais. E ainda posta foto no Instagram achando chique — “o café que tem aí dentro é nosso!”
Dizem que o agro é tech. E é mesmo. É pop. É tudo. Tem drone, satélite, sensor, inteligência artificial. O boi já tem CPF e a soja tem LinkedIn. Só tem um detalhe: a inteligência artificial que monitora o boi é gringa. O GPS do trator é gringo. O chip do drone é gringo.
Ou seja, a gente tem a Ferrari mais tecnológica do mundo, mas a chave, o motor e o manual estão com o vizinho. A gente só tem a garagem. Ah, o pasto também.
Algo parecido acontece na mineração. Temos recursos que o mundo quer para fazer bateria, celular, carro elétrico, foguete. Temos nióbio, lítio, cobre, ferro, ouro. Somos nobres na tabela periódica. Só que, na hora de transformar o nobre da tabela em nobre de verdade, a gente ainda terceiriza boa parte do trabalho. Vende matéria-prima e compra chip.
De novo. Riqueza é ter o que vender. Qualquer colônia tem. Desenvolvimento é vender o que os outros não sabem fazer. Nós aprendemos a encher navio. Somos craques nisso, mas ainda não aprendemos a encher laboratório. Escolas? Talvez. Laboratórios? Ainda precisamos de muitos. Enquanto isso, um show de R$ 500 mil continua sendo uma opção tentadora — pão e circo, afinal, não são invenções tão fáceis de aposentar.
Vender commodity não é vergonha, é orgulho! Vergonha é achar que dá pra ser país rico vendendo commodity pra sempre e esperar que a tecnologia brote na próxima safra, como se fosse milagre de São Isidoro. Uma hora a conta não fecha. Acho que nunca fechou!
O espelho de antigamente refletia a nossa cara. O de hoje, de cristal líquido, reconhece o rosto, grava, vende seus dados e te oferece um creme pra ruga… ele mesmo detectou: “cê tá precisando!” E a gente continua ali, na frente dele, fascinado.
O ouro continua sendo ouro.
A soja continua sendo soja.
O navio? … 80 mil toneladas.
O chip? … Cabe na ponta do dedo.
E a pergunta é:
Até quando a gente vai vender toneladas e comprar gramas, achando que está fazendo um bom negócio?
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Renato S. Borges é patrocinense, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF




