
Alexandre Costa
“E, tendo dito isto, um dos servidores que ali estavam, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: Assim respondes ao sumo sacerdote?” — João 18:22
Existe algo muito forte nessa cena. Jesus está diante do sumo sacerdote Anás, cercado por homens ligados à religião judaica, e um dos servidores, alguém que estava a serviço daquela estrutura religiosa, levanta a mão e dá uma bofetada no rosto de Jesus.
Aquele homem estava servindo à religião, mas estava diante do próprio Senhor. Estava tão preocupado em defender a autoridade do sumo sacerdote que não percebeu quem estava diante dele. Que contradição: o verdadeiro Sumo Sacerdote estava ali, e ele bateu em Jesus para defender o outro.
Essa cena nos traz uma advertência muito séria. É possível estar perto das coisas de Deus e, ainda assim, não reconhecer Deus. É possível frequentar a igreja, conhecer a Bíblia, participar de ministérios, servir, cantar, pregar e até defender a fé, mas não perceber quando o nosso coração está se afastando de Cristo.
Aquele servidor provavelmente acreditava que estava fazendo a coisa certa. Ele estava defendendo uma autoridade religiosa. Mas, ao defender a religião de maneira cega, acabou ferindo o próprio Jesus.
E isso pode acontecer conosco. Podemos ficar tão preocupados em defender nossa posição, nossa tradição, nossa maneira de fazer as coisas, nossa denominação ou aquilo que acreditamos ser correto, que esquecemos aquilo que deveria estar no centro de tudo: Jesus.
A religião pode nos ensinar muitas coisas, mas somente Cristo transforma o coração. Podemos conhecer regras e não conhecer a graça. Podemos conhecer doutrinas e não conhecer o amor. Podemos saber falar sobre Jesus e, ainda assim, não viver como Jesus.
O mais assustador naquela cena não é apenas que alguém bateu em Jesus. É que quem bateu estava dentro do ambiente religioso. Não era alguém que estava distante da fé. Era um servidor. Ele estava trabalhando para aquela estrutura, mas não reconheceu o Messias quando Ele estava diante de seus olhos.
Isso nos faz pensar: será que estamos apenas servindo a Jesus ou realmente conhecendo Jesus? Será que estamos tão ocupados com a obra que deixamos de olhar para o Senhor da obra? Será que nossa preocupação em defender aquilo que consideramos certo tem nos feito tratar pessoas sem amor, sem graça e sem misericórdia?
Jesus recebeu aquela bofetada e não abandonou Seu propósito. Ele sabia que aquela humilhação fazia parte do caminho até a cruz. O mesmo Cristo que poderia ter impedido aquela mão escolheu suportar a dor. Ele não estava perdendo o controle; estava entregando a própria vida.
E talvez essa seja a grande mensagem dessa passagem para nós: não podemos permitir que a religião fique tão grande em nossa vida a ponto de Jesus ficar “pequeno e indefeso”.
Que nunca sejamos conhecidos apenas por aquilo que defendemos, mas por aquilo que vivemos. Que nosso serviço seja acompanhado de intimidade com Deus. Que nossa doutrina seja acompanhada de amor. Que nossa verdade seja acompanhada de graça. E que nossas mãos, chamadas para servir, nunca sejam usadas para ferir.
Aquele homem estava tão perto de Jesus fisicamente, mas tão distante dEle espiritualmente. Que não aconteça o mesmo conosco.




