
Luiz Antônio Costa
O tempo passa e a tendência das pessoas é perder as referências com o seu passado. Mas elas sempre voltam quando temos algo a fazer que nos remete aos tempos passados. É o meu caso. Neste sábado, vou ser submetido a uma cirurgia de catarata. O que hoje é tão comum e faz parte de nossas vidas não era bem assim nos anos 1960. Vou contar uma história que me veio à memória exatamente por este fato.
Nos anos 1960, a catarata era uma doença muito mais difícil de tratar, especialmente no interior. O acesso a especialistas era limitado e a cirurgia, bastante complexa para os padrões da época. O procedimento exigia cortes grandes, um pós-operatório rigoroso e dias de imobilização. Depois, ainda havia os pesados óculos de lentes muito grossas, os chamados “fundo de garrafa”, já que as lentes intraoculares ainda não faziam parte da realidade. Tudo isso, somado aos custos e ao receio da cirurgia, fazia com que muitos moradores do interior e das zonas rurais adiassem o tratamento até que a perda da visão se tornasse definitiva.
Foi usando esse gancho que me lembrei de Seu João, um homem simples, calmo, de conversa mansa e de uma bondade profunda no tratamento com todos. Fui testemunha dessas qualidades na minha infância e pré-adolescência, época em que o considerava um grande amigo. Entre seus filhos estavam o Simão, da nossa turma, e a Lourdes, que também era da turma e, mais tarde, veio a se casar com Fernando, meu melhor amigo daquela época.
Seu João fazia colchões de capim e, por isso mesmo, era conhecido por todos como “colchoeiro”. Buscava a matéria-prima no brejo da região do Esmeril, perto da cidade. Era o capim-mombaça, que o pessoal da roça chamava de capim-membeca ou mambeca; em outras partes do interior, principalmente em Minas e no Centro-Oeste, também era conhecido como capim-mumbeca.
Naquela época, a gente não sabia — e nem o próprio Seu João — que ele já sofria de uma catarata avançada, que comprometia bastante sua visão. Já não conseguia andar sozinho de bicicleta pelas estradas e reclamava de estar perdendo a vista tão depressa. “Logo eu, que tinha uma vista tão boa”, dizia, com uma certa tristeza.
Eu o acompanhava, às vezes, nessas idas à zona rural e servia como uma espécie de guia, na garupa ou ao lado da bicicleta. Quem ia com Seu João indicava os buracos e as curvas do caminho, ajudando na orientação até a região do Esmeril, mesmo sem ele pedir. Era uma tarefa que, para mim, parecia natural. Hoje, olhando para trás, percebo que havia ali uma confiança silenciosa.
Chegando à baixada do Esmeril, numa área de brejo — hoje, do lado direito da rodovia Patrocínio-Ibiá, a área ainda existe, embora eu não saiba se o capim daquela espécie continua por lá —, ele entrava no meio da vegetação e cortava os feixes do capim nativo. Mesmo enxergando apenas sombras por causa da catarata, manejava uma espécie de foice e fazia o corte com uma precisão e uma paciência impressionantes.
De vez em quando, parava para descansar e tomava o café frio que levava numa garrafa de vidro, guardada na capanga, junto com alguns pedaços de queijo e pão. Sempre me oferecia, e eu adorava aquele café. Era muito doce, como se fazia naquela época. Hoje, muita gente já nem adoça mais o café. Talvez por isso aquele gosto também tenha ficado guardado na memória.
Depois de reunida a quantidade necessária, amarrava o capim na garupa da bicicleta e fazíamos o trajeto de volta para o Alto da Estação, hoje bairro São Judas. Eu mantinha a atenção no caminho para garantir que chegássemos em segurança. Mas nem precisava tanto. Seu João tinha uma atenção e uma intuição fantásticas. Mesmo com a visão comprometida, parecia conhecer cada curva, cada trecho da estrada, cada irregularidade do caminho.
Aquele capim cortado no brejo passava por um rigoroso processo artesanal antes de virar recheio. Ele cortava a planta ainda verde e a deixava secar completamente ao sol por dias, para evitar mofo ou insetos, limpando tudo manualmente para retirar terra e espinhos. Depois, preparava a capa de tecido grosso de algodão, no formato de um grande saco retangular, com uma abertura lateral.
O capim seco era introduzido pela fenda e socado com mãos e braços, com paciência, até preencher todos os cantos com densidade uniforme. Não havia máquinas sofisticadas, nem atalhos. Havia o conhecimento adquirido com o tempo e a força das mãos de quem aprendera o ofício fazendo.
Para evitar que o recheio se deslocasse e formasse montes nas pontas, Seu João fazia a costura em capitonê. Com uma agulha grande de sapateiro e barbante forte, atravessava o colchão de um lado para o outro, dando amarrações e criando aquele quadriculado tradicional, parecido com um tabuleiro de damas.
Era um trabalho simples, honesto, mas extremamente braçal e desgastante. Não sei se ele comercializava os colchões na vizinhança ou com algum pequeno empresário da cidade. Sei, porém, que aqueles colchões duravam muito. A cada seis meses ou um ano, as famílias abriam a fenda, retiravam o capim velho, já amassado pelo uso, e o substituíam por uma porção nova, seca e cheirosa.
Fazer companhia ao Seu João naquelas viagens ao Esmeril foi uma experiência marcante de convivência e aprendizado que guardo com absoluta clareza na memória. Talvez porque, sem que eu soubesse naquele tempo, aquelas idas ao brejo também fossem uma forma de enxergar o mundo pelos olhos de alguém que já começava a perdê-la.
Eu era apenas um menino, preocupado em mostrar os buracos da estrada e ajudar no caminho de volta. Ele, mesmo vendo cada vez menos, seguia trabalhando, conversando, tomando seu café doce e cumprindo sua rotina com uma serenidade que hoje me impressiona.
Neste sábado, quando eu entrar para fazer uma cirurgia que atualmente é tão comum, provavelmente vou me lembrar de Seu João. A catarata que para ele significava enxergar sombras, depender de alguém para guiá-lo pelas estradas e conviver com o medo de perder a visão, hoje pode ser corrigida com um procedimento relativamente simples.
É uma dessas mudanças silenciosas da vida: a medicina avança, os costumes mudam, as cidades crescem, as pessoas desaparecem e, de repente, uma situação do presente abre uma porta para um passado que parecia adormecido.
Foi assim que Seu João voltou à minha memória. Não apenas como o “colchoeiro” que fazia colchões de capim, nem somente como o homem que eu acompanhava de bicicleta até o Esmeril, mas como alguém que fez parte da minha infância e deixou uma lembrança que resistiu ao tempo.
Talvez seja essa a maior força da memória: ela não nos devolve exatamente o passado, mas traz de volta as pessoas, os lugares, os cheiros, os sabores e pequenos momentos que julgávamos esquecidos.
E, pensando bem, talvez seja isso que vou levar comigo para a cirurgia: a esperança de continuar enxergando bem os caminhos que ainda tenho pela frente, mas também a gratidão por tudo aquilo que meus olhos já tiveram a oportunidade de ver.
Entre essas imagens, certamente estará Seu João, sua bicicleta carregada de capim, a estrada do Esmeril e aquela garrafa de vidro com café muito doce.
Algumas lembranças, como certas imagens antigas, não precisam de boa visão para permanecerem nítidas.




