
Foto original restaurada por IA/Rede Hoje
Luiz Antônio Costa
Muito do que acontece na infância a gente pensa que passou, que são apenas fragmentos perdidos, uma lembrança distante encoberta pela poeira dos dias. Porém, quando paramos naquele hiato de tempo e rebuscamos com calma o fundo do baú da mente, o instante volta como mágica. É uma luz que se acende baixinho e vai, aos poucos, iluminando cada detalhe esquecido até que o passado se reconstitui inteiro diante de nós. A mente humana é uma máquina fantástica.
Ao me deter nos distantes anos 1960, a rua da minha infância ressurgiu cristalina: o cheiro da terra molhada após a chuva, o estalo dos chinelos no cascalho, as vacas e os cavalos pastando pela região de minha casa — que parecia mais um sítio do que uma área urbana — e o rosto de cada vizinho, apanhados exatamente no que faziam naqueles lances de vida que o tempo teimou em guardar.
No centro dessa tapeçaria afetiva sobressaía dona Quitéria. Para os olhos atentos da criança que eu era, ela não era só uma vizinha; era o próprio alicerce de afeto do bairro. Uma mulher negra, forte, vestida de um sorriso largo que parecia carregar a sabedoria e a ancestralidade de séculos. Para nós, ela já era velhinha — uma eternidade que só a infância inventa. Foi só décadas mais tarde, ao cruzar memórias com sua neta, Élida Amparo, que compreendi a brevidade daquela vida: Quitéria Joana de Jesus, a carinhosa “Indinha”, partiu precocemente aos 57 anos. No entanto, o tempo curto não a impediu de cravar sua marca para sempre na geografia sentimental daquela comunidade.
Mulher de mãos abençoadas e coragem incansável, dona Quitéria dividia-se entre o sustento e o dom. Com o mesmo apuro com que pilotava o fogão a lenha nas cozinhas das famílias abastadas — como a dos pais do senhor Pedro Alves do Nascimento —, ela exercia a arte sagrada de parteira. Suas mãos partejaram os dois lados de um Brasil desigual: trouxeram ao mundo tanto os herdeiros dos coronéis quanto os meninos descalços do Alto da Estação. Numa época em que o cotidiano das mulheres negras era moldado pela rigidez do trabalho e por partidas prematuras — como a de sua única irmã, Maria José, falecida antes dos 40 —, dona Quitéria teceu uma teia invisível de cuidado que manteve a vizinhança de pé.

Ao seu redor gravitávamos todos nós. Lembro-me da pequena Élida, do Pelé — um pouco mais velho e já trabalhando na ferrovia — e do bando de crianças que transformava a rua em território livre. A casa de vó Quitéria era o nosso refúgio moral. O destino, caprichoso em suas ironias poéticas, cuidaria para que a rua onde a família fincou raízes por mais de meio século levasse o nome de Demócrito França — exatamente o escrivão que lavrou a certidão de óbito daquela matriarca. Ali, sob o teto da casa de dona Expedita e Sebastião, o mistério da vida se renovou nove vezes: dos dez filhos do casal, nove vieram ao mundo aparados pelo calor das mãos de dona Quitéria.
Ao fechar os olhos hoje, sinto que o tempo deixa de ser uma linha reta e vira um ciclo perfeito. Quando os nove irmãos voltam a se reunir na rua Demócrito França, o eco das nossas correrias dos anos 60 ainda ressoa no ar. A luz que se acendeu lá atrás continua acesa, provando que ninguém morre de todo enquanto sua história for capaz de iluminar a memória dos que ficaram.




