
Renato S. Borges
Setembro – 2026
Eu achava que “pão e circo” tinha ficado lá na Roma Antiga. Ingenuidade. Os romanos davam pão e espetáculo para o povo não fazer pergunta. A gente modernizou. Agora é pix, algoritmo e show de $500 mil.
O circo ficou digital.
O pão continua público.
Pega uma cidade de 30 mil habitantes, Sucupira1. O prefeito, Odorico Paraguaçu, contrata um show de $500 mil para “abrilhantar” suas festas. Justificativa oficial: “aquece o comércio, movimenta a economia e traz felicidade ao povo”.
Pode ser.
Mas quem paga a felicidade? O cidadão sucupirense. Se 10 mil pessoas vão ao show, cada uma pagou $50 de ingresso. Só que o ingresso é “grátis”. Esqueceram de avisar quem pagou.
Enquanto o palco leva meio milhão, a biblioteca de Sucupira espera o livro que nunca chega.
Teatro? … Perigoso!
Cinema? … Dá ideia!
Livro? … Melhor não!
Agora o repertório é bebedeira, traição e dor de cotovelo? Isso sim é “cultura de interesse público”. Odorico, esperto, sabe o que faz:
Bêbado canta.
Feliz dança.
Entretido não pergunta. E quem não pergunta dá menos trabalho.
A “solucionática” é simples:
Problema na saúde? Show.
Na educação? Show.
Nas contas? Outro show.
Imprensa “marronzista e badernenta” denuncia. Odorico desqualifica, persegue, silencia!
Faltou dinheiro? Arranja uma “emenda sucupira”.
É o keynesianismo sucupirense às avessas: o governo injeta dinheiro e o eleitor injeta aplauso.
Todo mundo ganha (?) … Quase!
Porque dinheiro não nasce no gabinete. Nasce no seu bolso. E volta pra você em forma de ingresso grátis, que você já pagou.
Nada contra o circo. O povo merece festa. Merece também livro, teatro e biblioteca. O problema não é ter circo. O problema é quando o circo vira a única política cultural.
E o pão?
Ah sim!
Esse vem cobrado na conta.
1 Sucupira é uma cidade fictícia que consta da obra do dramaturgo Dias Gomes, “O Bem Amado”.

Renato S. Borges é patrocinense, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF




