
Luiz Antônio Costa
Cumprida uma semana de repouso por conta de uma cirurgia simples, porém enjoadinha — a remoção de uma catarata —, sentei-me na sacada do prédio na hora do almoço para olhar a avenida. Com os olhos recém-despertos para a nitidez do mundo, passei a reparar no gesto miúdo de quem cruzava a rua, por mera curiosidade. Foi quando me veio o estalo: escreveria sobre tudo aquilo, sobre um dia comum qualquer deste mês de setembro.
A sexta-feira deságua sobre o asfalto com a pressa miúda dos dias que querem terminar, empurrada por um sol escaldante que transforma a cidade numa caldeira aberta. Perto das 11h40 da manhã, o calor mormaço finca suas garras sobre as ruas, fazendo o ar vibrar em ondas transparentes sobre o chão quente. A vida cotidiana se espalha sob o mormaço em sementes ao vento, como um dente-de-leão soprado pela rotina.
Na calçada, a cena ganha corpo em gestos repetidos e suados: o caminhão de refrigerante descarrega mais um fardo na porta da padaria, enquanto do outro lado da rua uma caminhonete de entregas estaciona carregada de encomendas. Algumas pessoas se aproximam sorridentes para receber seus pacotes, enquanto outras observam de mãos vazias, transparecendo a leve frustração de quem esperava algo que ainda não chegou. Perto de um edifício residencial, logo após a farmácia, funcionários da prefeitura cortam a grama alta do calçamento, limpando o suor da testa, enquanto outra equipe trabalha duro logo adiante, assentando cerca de 50 metros de calçada e meio-fio sob o sol a pino. Mais adiante, numa loja de utilidades domésticas, o entra e sai de clientes desenha o movimento contínuo de quem busca o trivial sob a luz cega do meio-dia.
O trânsito segue em sua cadência própria, frenético e ruidoso, sob o mormaço que pesa sobre a lataria dos veículos. No sinal do semáforo, a vida expõe suas arestas mais cruas e humanas. Um homem de uma perna só, equilibrando-se com maestria sobre uma única muleta no asfalto quente, estende a mão e pede ajuda aos motoristas retidos no sinal vermelho. Carteiras se abrem, moedas trocam de dono no intervalo curto de um farol fechado, e a corrente do dia não para. Logo ao lado, o vai e vem de estudantes marca a transição das horas: alguns alunos caminham apressados procurando a sombra de uma árvore rumo à escola próxima, enquanto outros já deixam os portões com mochilas nas costas, misturando risos ao rumor do tráfego.
Em meio à pressa geral e ao mormaço do asfalto, uma cena quase para o tempo em um susto manso. Uma senhora idosa, segurando com firmeza uma sacola branca, inicia a travessia da rua sem notar que o sinal para os pedestres ainda é vermelho. A buzina de um carro soa alta e intensa no ar escaldante, o freado das rodas ecoa no chão quente, mas o trânsito cede. Os carros param, respeitam a caminhada desacelerada da mulher sob a luz forte do meio-dia, e ela segue o seu caminho, alheia ao susto que deixou para trás. E assim, entre a audácia involuntária e a paciência do asfalto, a cidade retoma seu fluxo.
Enquanto a correria do centro consome a tarde abafada, dou uma pausa no olhar sobre a avenida e leio no portal da Rede Hoje que, em outro ponto da cidade, no cemitério parque, o silêncio reina sob a grama. Ali, onde não há túmulos suntuosos, mas apenas lápides marcando a memória na terra, o lugar tem ar de jardim bem cuidado e de descanso eterno. Sob o abrigo fresco das plantas, poucas pessoas se despedem de uma senhora que cumpriu sua etapa na jornada. Ali perto, na BR-365, o ronco dos motores e a velocidade dos carros passam alheios à dor serena da despedida, enquanto os homens trocam brincadeiras simples no trabalho e a vida continua seu curso exato.
Pois a sexta-feira é esse limiar curioso entre o dever cumprido e a promessa do descanso. Enquanto o fim de semana desponta no horizonte pedindo uma pausa na correria, a rua nos lembra de sua lição mais bonita e severa: a vida é este emaranhado de encontros, despedidas, pequenas alegrias e esperanças adiadas. Cada ciclo que se fecha no calendário do corpo ou na folha da semana nos convida a desacelerar o passo, recolher o suor do dia e agradecer pelo privilégio simples de continuar caminhando.




