
Foto: arquivo Rede Hoje
Por Luiz Antônio Costa / Rede Hoje
Edição histórica: Revista Presença – Fevereiro de 1985
Nos anos 1960, a Estância Hidromineral de Serra Negra vivia seus anos dourados. Com suas águas medicinais de propriedades raras, vegetação exuberante e a famosa lagoa encravada na cratera de um vulcão extinto, o local rivalizava em prestígio com grandes complexos termais do país, como o Barreiro, em Araxá. Contudo, nas décadas seguintes, o complexo desacelerou, deixando em quem conheceu o auge o desejo impaciente de ver a estância brilhar novamente.
Na edição de fevereiro de 1985 da Revista Presença — publicação pioneira que foi o embrião do que hoje é a Rede Hoje —, trouxemos uma reportagem que agitou os bastidores políticos e econômicos de Patrocínio e fez a população sonhar alto.
Sob o título original “Empresário Italiano quer comprar Serra Negra”, a matéria revelava uma negociação milionária que poderia ter mudado para sempre o destino turístico de toda a região.

A proposta milionária vinda da Itália
Naquele início de 1985, desembarcaram em Patrocínio dois emissários enviados da Europa: o engenheiro Arnaldo Bazolin e o economista Franck Máximo. Eles representavam o empresário italiano Giovani Gerini, proprietário de um renomado balneário termal em Salsomaggiore Terme, na Itália.
Gerini buscava expandir seus negócios para o Brasil e viu em Serra Negra um potencial único no mundo, graças à riqueza de suas águas e ao cenário natural incomparável do Chapadão de Ferro.
Os emissários reuniram-se com o então proprietário do Hotel Serra Negra, Gentil Nascimento, propondo a compra do imóvel e de toda a estrutura. A pedida inicial de Gentil foi alta, mas, segundo os avaliadores italianos, as riquezas da estância justificavam o investimento.
O projeto: Um “Triângulo Turístico” internacional
A ideia de Giovani Gerini não era apenas reabrir o hotel, mas criar uma rota internacional de turismo integrado. O plano previa um triângulo conectando Itália – Rio de Janeiro – Patrocínio:
- Rio de Janeiro: Seria a porta de entrada dos turistas europeus no Brasil.
- Patrocínio (Serra Negra): Seria o destino final de descanso, lazer e tratamento termal, aproveitando o clima e a água mineral.
O engenheiro Arnaldo Bazolin declarou à equipe de reportagem da Presença que a intenção era preparar Serra Negra para a recepção de estrangeiros, criar áreas de camping e passeios pela lagoa do vulcão, além de fomentar o comércio local.
O apoio do município e o novo aeroporto
A notícia foi recebida com entusiasmo pelas autoridades locais. Em entrevista concedida à Presença, o então prefeito de Patrocínio, Amâncio Silva, destacou a importância de atrair investimentos privados para a estância:
“Acho que há possibilidade de bom negócio, porque nossa estância pode oferecer o que o turista deseja, falta alguém para implantar aquilo que é necessário. Como é uma pessoa interessada e com condições de executar o projeto, acho que há grandes possibilidades.” — Amâncio Silva (fevereiro de 1985)
Na ocasião, o prefeito também revelou que o município negociava a devolução de terrenos com o Ministério da Aeronáutica e contava com o apoio do DER para construir um novo aeroporto na cidade, capaz de suportar o fluxo turístico que o projeto atrairia.
Um sonho que ficou no papel
Infelizmente, o ousado plano do “Triângulo Turístico” e a venda para o grupo italiano nunca se concretizaram. Detalhes burocráticos, flutuações econômicas da época e a falta de garantias operacionais acabaram fazendo com que os investidores recuassem.
O sonho de ver o Hotel Serra Negra retornar aos seus dias de glória dos anos 60 — rivalizando de igual para igual com o Barreiro de Araxá — acabou adormecido nas páginas da história.
Hoje, ao folhear o acervo da Revista Presença, relembramos esse capítulo marcante da imprensa patrocinense: um vislumbre do futuro que nos mostra o valor inestimável do patrimônio natural que Patrocínio carrega em seu território.




