Press ESC to close

Imprensa | Site de noticias desiste de cobrir eleição devido a ameaças

Carro do proprietário do Tapajós de Fato foi atingido durante a madrugada, após homens rondarem sua casa. Por: Arquivo Pessoal

Veiculo independente suspende cobertura eleitoral de 2026 apos sofrer intimidacoes e violencia

Da Redação da Rede Hoje

Segundo reportagem de Daniel Camargos para a InfoAmazonia, Agência Pública/Repórter Brasil e ICL Noticias, a redacao do Tapajós de Fato passou parte deste ano definindo a pauta e buscando financiamento para cobrir as eleicoes de 2026. Mas ameacas e episodios de violencia levaram o site de Santarem, no oeste do Para, a abandonar o projeto antes da primeira reportagem. Criado em 2020 durante a onda de negacionismo da pandemia, o Tapajós de Fato e um veiculo independente, membro da Rede Cidada InfoAmazonia, que se tornou referencia no jornalismo feito na Amazonia, denunciando violacoes sociais e ambientais. Mas, na campanha deste ano, a redacao nao vai abordar os problemas, propor solucoes para a regiao, nem investigar vinculos de candidatos com o garimpo, o agronegocio e as grandes obras.

Quando e melhor nao falar, por uma questao de sobrevivencia, na verdade, quem perde e a sociedade, afirma o coordenador de projetos João Paulo Serra, de 27 anos. A decisao de nao cobrir as eleicoes deste ano foi tomada apos uma serie de ameacas que mostraram nao haver seguranca para trabalhar. Na eleicao presidencial de 2022, a cabeca decapitada de um gato apareceu no terreno baldio onde a equipe estacionava a caminhonete de reportagem. Ao lado, um bilhete trazia o nome de Marcos Wesley Pedroso, o fundador do Tapajós de Fato, e avisava que ele seria a proxima vitima. Dias antes, os quatro pneus do veiculo haviam sido rasgados.

Em outro episodio, uma comunicadora foi atacada com uma faca e conseguiu se desviar de varios golpes. O agressor nao foi identificado, e o Tapajós de Fato nao conseguiu determinar se o objetivo era mata-la, intimidar a redacao ou se o episodio nao tinha relacao com o trabalho jornalistico. A violencia nao impediu a cobertura daquela eleicao. Em 2022, o Tapajós de Fato entrevistou candidatos progressistas com atuacao no oeste do Para e debateu assuntos da regiao, como garimpo, desmatamento, mudancas climaticas e direitos dos povos tradicionais. Acompanhou tambem um encontro no qual movimentos sociais cobraram compromissos com a agroecologia e a agricultura familiar.

A Rede Cidadã InfoAmazonia, que se tornou referência no jornalismo feito na Amazônia, denunciando violações sociais e ambientais. Divulgação

Depois da votacao, analisou quem o Para havia eleito e a relacao dos novos representantes com as pautas amazonicas. A equipe ainda foi as ruas para cobrir os atos bolsonaristas diante de uma unidade do Exercito. Em 2024, porem, a inseguranca levou o site a suspender a cobertura das eleicoes municipais. A gente decidiu recuar de novo em 2026, lamenta Marcos. Eu tenho medo de pessoas aleatorias na rua, no supermercado, conta. Chegou um tempo que eu dormia e, se escutasse um cachorro latindo de madrugada, acordava com taquicardia, detalha. Marcos deixou Santarem devido as ameacas e apos um diagnostico de depressao.

Violência contra jornalistas

Os casos foram denunciados a Policia Civil e ao Ministerio Publico, mas, ate o momento, nao ha nenhuma informacao conclusiva e, por isso, nao ha autores identificados nem provas de que os atos estejam relacionados entre si. Ainda assim, jornalistas da equipe decidiram deixar suas casas e passaram a morar em hoteis durante os periodos mais tensos. Marcos ja trocou de endereco seis vezes nos ultimos 3 anos. E João Paulo precisou ficar 1 ano sem visitar a mae. A ideia de fundar o Tapajós de Fato surgiu num encontro de comunicadores rurais, em 2019, quando Marcos atuava na comunicacao do sindicato rural de Santarem. Em julho de 2020, em plena pandemia de Covid-19, ele e mais uma jornalista criaram as redes sociais do veiculo.

Depois lancaram o site. Foi em casa que Marcos aprendeu a cobrar direitos e a se organizar para defende-los, experiencia que mais tarde orientaria o jornalismo do Tapajós de Fato. Os avos dirigiram o sindicato dos trabalhadores rurais de Belterra, cidade a 50 quilometros de Santarem. Marcos viveu com os avos em Aramanai, comunidade de Belterra as margens do rio Tapajós. Desde os anos 2000, a pavimentacao da BR-163 e a abertura do terminal da Cargill, em Santarem, transformaram o oeste do Para em corredor de exportacao de graos e fronteira agricola na Amazonia. As lavouras avancaram pelo Planalto Santareno ate as vizinhancas da comunidade. Ali ele ouviu que o mamao deixara de vingar e que a producao de mel e de andiroba diminuiram com os agrotoxicos.

Marcos Wesley Pedroso fundou o site para trazer novos olhares à cobertura jornalística do Oeste do Pará. Por: Arquivo Pessoal

O Planalto Santareno abrange Santarem, Belterra e Mojuí dos Campos e reune agricultores familiares, quilombolas e indigenas. Entre 2014 e 2023, a area de soja e milho nos tres municipios saltou de 66 mil para 217 mil hectares, segundo o IBGE. Comunidades viraram ilhas entre lavouras. Gay e pai de santo do candomble, Marcos ja pensou em seguir o sacerdocio catolico e chegou a ser seminarista. Depois, estudou publicidade e entrou na comunicacao pela porta da midia comercial: trabalhou no setor de marketing da TV Tapajós, afiliada da Globo em Santarem, e escreveu para o G1. Mas seu desejo era fazer um jornalismo voltado as comunidades da regiao, com liberdade para investigar quem concentra dinheiro e poder.

Origem do portal

Ao criar o Tapajós de Fato, escolheu um modelo que nao dependesse do financiamento de empresas que, cedo ou tarde, poderiam aparecer em suas reportagens. Durante a pandemia, o site denunciou o negacionismo e os problemas do Baixo Amazonas, como o desabastecimento de oxigenio. Depois, ampliou a pauta para conflitos fundiarios, mineracao, soja, clima e direitos dos povos tradicionais. Entre as coberturas de destaque esta a que tratou dos impactos no Projetos de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, quando o site produziu reportagens, podcasts e a campanha Nao Abra Mao da Sua Terra. Entre os rios Amazonas e Arapiuns, a area e uma terra publica de uso coletivo.

Seus lotes nao podem ser vendidos individualmente, mas sofrem pressoes fundiarias e da extracao ilegal de madeira e de minerios. As pesquisadoras Maria Cleidejane Esperidiao e Thayane Guimarães, coordenadora de redes da InfoAmazonia, acompanharam a redacao por uma semana, em junho de 2024, para um estudo do Centro Internacional para Jornalistas, que investigou estrategias inovadoras do jornalismo brasileiro para enfrentar a desinformacao. A pesquisa destacou o metodo de escuta profunda, em que reporteres do Tapajós de Fato passaram dias imersos no cotidiano de comunidades tradicionais da regiao. Em rodas de 5 a 15 pessoas, os reporteres ouviram falar de temperaturas mais altas, acai secando mais cedo e arvores produzindo menos oleo.

Os relatos viravam cartilhas. Sem internet, audios em pen drives seguiam de barco para serem tocados em alto-falantes. Outra iniciativa do site e a formacao de jovens comunicadores. O Centro Internacional para Jornalistas destacou que o Tapajós de Fato ajudou o Conselho Indigena Tapajós e Arapiuns a estruturar um departamento de comunicacao e um movimento quilombola a criar seu proprio nucleo. Aos poucos, alem de publicar reportagens, o Tapajós de Fato ajuda organizacoes locais a criar seus proprios departamentos de comunicacao e forma jovens comunicadores na regiao. As ameacas ocorrem na regiao com o menor numero de meios de comunicacao do pais.

Mídia no Norte

Sao 1.264 veiculos jornalisticos no Norte, o que representa 9,2% do pais, segundo dados do Atlas da Noticia de 2025. Dos 450 municipios, 193 nao tinham nenhum meio de comunicacao e 144 possuiam um ou 2. Santarem nao e considerado um deserto de noticias, mas Marcos diz que a imprensa tradicional nao aborda o territorio com pontos de vista diversificados. As intimidacoes ao Tapajós de Fato aumentaram em 2021, durante as reportagens sobre a venda ilegal de terras do projeto de assentamento Lago Grande. Depois, vieram ameacas de morte por telefone e por mensagem. A epoca, o Sindicato dos Jornalistas do Para, a Ordem dos Advogados do Brasil e organizacoes sociais divulgaram uma nota de apoio.

Além de publicar reportagens, o Tapajós de Fato ajuda organizações locais a criar seus próprios departamentos de comunicação e forma jovens comunicadores. Por: Arquivo Pessoal

A antiga redacao ficava em uma casa sem ar-condicionado e, por isso, precisava ficar com a janela aberta para a rua durante o expediente. Certa tarde, um homem parou do lado de fora e simulou uma conversa ao celular. Por 5 minutos, gritou que era preciso matar quem falasse mal dos garimpeiros. João tambem notou carros desconhecidos em frente a sede. Era muito estranho ter sempre um carro parado ali na frente, relata. A tensao atingiu o auge em 2022. Primeiro, um comunicador que chegava do interior teve o celular roubado. Naquela noite, depois de a equipe jogar volei, uma jornalista voltava para casa com a namorada e um amigo quando os tres foram assaltados por homens que estavam em um carro.

A policia localizou os suspeitos e recuperou os pertences dos dois acompanhantes, mas nao os da comunicadora. Na tarde seguinte ocorreu a tentativa de ataque a faca, a 30 metros da sede. Um boletim de ocorrencia por ameaca foi registrado, mas o caso nao teve andamento. Naquela noite, quando a equipe deixou a redacao, por volta das 20h, percebeu que era seguida por um carro. Cerca de 5 integrantes passaram as semanas seguintes em hoteis, por nao se sentirem seguros em casa. Depois das eleicoes, enquanto o Tapajós de Fato cobria os acampamentos bolsonaristas diante dos quarteis, João recebeu uma ligacao que interpretou como intimidacao.

Relatos de perseguição

Naquela manha, o site havia publicado a imagem de um idoso vestido com uniforme do Exercito e o apresentado como um falso militar. Horas depois, uma mulher telefonou e exigiu que a publicacao fosse apagada, sob o argumento de que o pai dela estava passando mal. Antes de explicar o motivo da ligacao, porem, recitou o nome completo do jornalista e avisou que havia pegado o contato com uma pessoa de confianca. João ofereceu o e-mail da redacao para um pedido de correcao ou direito de resposta, mas a mulher ignorou a proposta. Me deu a sensacao de que essas pessoas sabiam muito mais sobre a minha vida do que eu podia imaginar, afirmou o jornalista sobre o caso.

Parceiros ajudaram a instalar cameras e cerca eletrica na redacao e a alugar uma caminhonete, para que os reporteres pudessem se deslocar com mais seguranca e sem depender de transporte de terceiros. Como o automovel nao entrava na vila onde Marcos morava, ficava estacionado num terreno em frente. Foi ali que apareceram os pneus danificados e a cabeca do gato com o bilhete. Marcos mudou-se em 2023 e iniciou o mestrado. Na nova cidade, diz ja ter recebido mensagens sobre sua roupa e sua localizacao no campus. Antes de viajar a COP28, em Dubai, nos Emirados Arabes Unidos, Marcos publicou uma foto vestindo uma camiseta com frases da sindicalista Margarida Maria Alves.

As frases mostradas eram Da luta nao fujo e E melhor morrer na luta do que morrer de fome. Um numero com prefixo do Acre ligou para ele e disse que a publicacao feita no Instagram poderia ser uma profecia para a vida dele. O episodio ocorreu logo apos o site ser homenageado no Premio Chico Mendes de Resistência, no Acre. Criada pelo Comite Chico Mendes, a premiacao reconhece ativistas, organizacoes e movimentos que defendem os povos da floresta, a justica ambiental e os direitos humanos. Seu nome homenageia o seringueiro e sindicalista assassinado em 1988, em Xapuri, no Acre, depois de enfrentar fazendeiros e lutar contra a destruicao da floresta.

Ataques e ameaças

Marcos procurou a Terra de Direitos, uma organizacao de assessoria juridica popular em Santarem. A entidade o apoia judicialmente e oferece suporte psicologico desde as primeiras ameacas. Advogados e assessores viraram amigos, o que ajudou muito a equipe durante todo o processo. Em 2025, patas de cachorro decepadas apareceram em frente a sua casa. Ele nao sabe se havia relacao com os demais episodios. O caso mais recente ocorreu em junho deste ano, quando Marcos encontrou seu carro destruido diante de casa e pensou se tratar de um acidente. Quatro dias depois, recuperou as imagens das cameras e viu que, de madrugada, dois ciclistas davam voltas no quarteirao.

Antes da batida, um deles apontou o celular para filmar a casa e o veiculo. As 4h28, um automovel entrou na contramao, atingiu um carro estacionado e fugiu. Marcos suspeita que a colisao era uma isca para ele sair de casa e cair numa emboscada. A hipotese e que o acidente tenha sido motivado por denuncias do site contra o uso indevido de agrotoxicos. Nos ultimos anos, o Tapajós de Fato publicou diversos episodios de contaminacao envolvendo alunos e professores. As intoxicacoes no oeste do Para aumentaram em 545% em 5 anos. Em maio, o site e outras 19 organizacoes entregaram a deputada Maria do Carmo uma proposta para limitar pulverizacoes.

As pulverizacoes deveriam ser limitadas proximo a comunidades, escolas e rios da regiao. João Paulo entrou no site em 2021, quando estudava Letras na Universidade Federal do Oeste do Para. Ali aprendeu a fazer reportagens sobre clima, agronegocio e, sobretudo, sobre a Ferrograo. A ferrovia de 933 quilometros esta prevista para ligar Sinop, em Mato Grosso, a Miritituba, distrito portuario de Itaituba, no Para. Integrara o Arco Norte, do qual o corredor de soja e milho pela BR-163 e pelo rio Tapajós e uma das principais rotas de escoamento. De Miritituba, os graos seguem em barcacas ate terminais como o da Cargill, em Santarem.

Impactos no jornalismo

As barcacas seguem ate a confluencia com o rio Amazonas para fazer o descarregamento do material. Num video, João perguntou aos moradores o que sabiam sobre a ferrovia. Segundo ele, perfis de direita adulteraram o video por inteligencia artificial e distorceram as entrevistas. Sua conta pessoal tambem foi revelada nas redes sociais. Diziam que aquele era o perfil dele e mandavam a galera ir para cima dele, recorda o comunicador. João fechou o perfil e deixou de visitar a mae, por medo de revelar aos perseguidores onde ela morava. O principal dano e a forma como a gente vive com a nossa familia, lamenta João Paulo.

Materias deixaram de ser publicadas, reporteres reduziram as aparicoes e fecharam seus perfis pessoais. Marcos virou o para-raios dos ataques contra o veiculo. A equipe, com mais de 20 pessoas em 2022, hoje conta com 7 integrantes. A falta de financiamento tambem explica a reducao do grupo de trabalho. Sem o Tapajós de Fato na cobertura eleitoral, João Paulo sabe quem ocupara o espaco vago na regiao. Quando a gente deixa de falar sobre um tema, o outro vai falar, do seu jeito, avalia o coordenador. Para ele, uma redacao nao poder acompanhar as eleicoes por seguranca revela uma falha enorme do Estado em todos os seus niveis.

@redehoje
Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed com a ID 1 foi encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.