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Crônica | Verdade que Liberta versus Verdade que Aprisiona

Renato S. Borges

Setembro 2026

Aprendemos desde cedo que a verdade liberta. E, no cotidiano, faz todo sentido. Mentir dá trabalho. É preciso lembrar o que foi dito, para quem, quando e por quê. A mentira exige memória, criatividade e, às vezes, uma boa planilha eletrônica para fazer o controle. Daí, talvez, tenha surgido aquela máxima: “A mentira tem perna curta”, no sentido de que ninguém consegue mantê-la por muito tempo.

Dessa forma, a verdade dá menos trabalho e ainda é mais econômica. Mas existe uma pequena complicação: nem toda verdade liberta. No mundo das ideias, uma verdade pode virar dogma. E o dogma tem uma curiosa vocação para transformar uma porta em parede.

Quando acreditamos em alguma coisa, ainda podemos perguntar: “E se eu estiver errado?”. Quando temos certeza absoluta, a pergunta desaparece. E, junto com ela, muitas vezes desaparece também a vontade de pensar.

Aí está o paradoxo. A verdade pode abrir a cabeça. A certeza pode fechá-la. Não é difícil encontrar exemplos: “Sempre foi assim.” “Todo mundo sabe.” “Não há o que discutir.” São pequenas frases que funcionam como cadeados intelectuais.

Basta observar uma mesa de domingo:

— Tio, e se mudássemos a forma de organizar os turnos na oficina? Talvez o pessoal não ficasse tão cansado — sugere o sobrinho, cheio de curiosidade.

— Meu caro — responde o tio, pousando a xícara de café com autoridade —, a oficina funciona há trinta anos. Sempre foi assim e sempre deu certo. Para que testar? Todo mundo sabe qual é o jeito certo de trabalhar. Não há o que discutir.

— Mas… e se estivermos enganados?

— Não estamos. Ponto final.

O mais curioso é que ninguém se sente preso nessa conversa. Ao contrário: o sujeito está convicto de que finalmente encontrou a liberdade justamente porque encontrou uma resposta que dispensa perguntas. É um ambiente aconchegante, confortável e, convenhamos, muito mais “razoável” do ponto de vista prático.

Talvez o problema não esteja na verdade em si, mas na nossa relação com ela. Se ela pode ser examinada, é conhecimento, mas, se não pode ser questionada, vira dogma.

E o dogma é democrático: está na esquerda, na direita, em cima, embaixo, nos templos, nas universidades, nos bares, nas redes sociais e, sobretudo, dentro da nossa própria cabeça. Ele não dá chance nenhuma, é implacável!

Mas isso não significa que precisamos duvidar de tudo. Por enquanto $2+2$ ainda resulta em 4, e assim por diante. Duvidar de tudo já seria outra forma de fanatismo. Mas talvez seja saudável desconfiar um pouco das próprias certezas.

Pensando de uma outra forma, a mentira pode nos aprisionar porque precisamos escondê-la – é um eterno desconforto. A verdade pode nos libertar porque podemos examiná-la e exibi-la – é um alívio.

Mas a certeza absoluta, dogmática, tem uma vantagem sobre ambas: ela dispensa o trabalho de pensar. E talvez seja justamente aí que more a sua perigosa sedução.


Renato S. Borges é patrocinense, escritor, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF

@redehoje
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