
Crédito: foto/acervo da família
A história do pracinha libanês Barrijo Antônio Sahium, que defendeu a costa brasileira na Segunda Guerra, fincou raízes em Patrocínio e construiu uma vida de trabalho e família.
Luiz Antônio Costa
Nós, jornalistas, somos em certa medida artesãos do tempo e historiadores do cotidiano. É que muito do que a gente rascunha na urgência do dia a dia, amanhece amanhã servindo de farol para quem quiser entender quem fomos. Temos, por dever de ofício, essa obrigação quase sagrada que vai muito além de narrar o fato frio — essa poeira que o vento sopra para longe. A nossa missão mais bonita, aquela que guardamos lá no fundo do peito, é resgatar, afagar e preservar a memória da nossa terra e da nossa gente. Afinal, a verdadeira História não se escreve apenas nas páginas solenes dos livros; ela ganha corpo e alma nas esquinas da cidade, no calor dos balcões, no perfume que sai das cozinhas e no rastro sereno das famílias que ajudaram a edificar Patrocínio.
Hoje, peço licença a você, leitor, para desacelerar o relógio e prestar uma homenagem tecida com afeto e saudade a Barrijo Antônio Sahium. Um homem de fibra que tive a honra de conhecer e admirar — e de quem recebi o presente de ter seu filho, o Nadim, como amigo estimado de longas datas. Nascido sob os céus do Líbano em 1921, seu Barrijo cruzou o mar ainda moço, trazendo na bagagem o destino incerto e a esperança de fincar raízes fundas no solo brasileiro.
Quando os ecos sombrios da Segunda Guerra Mundial estremeceram o mundo, ele vivia em Ipameri, no interior goiano. Não vacilou: guiado por um sentimento de gratidão à pátria que o acolhera, voluntariou-se no Exército Brasileiro no dia 20 de setembro de 1940, alistando-se inicialmente no 6º Batalhão de Caçadores. Vestiu a farda de pracinha por exatos três anos, 11 meses e 12 dias de prontidão exemplar, até sua baixa em 1º de setembro de 1944, no 10º Regimento de Infantaria.
Sua jornada nas fileiras teve, inclusive, um traço poético e curioso. Seu Barrijo estava de mochilas prontas, cotadíssimo para embarcar rumo à Itália na Segunda Expedição dos nossos pracinhas. Mas o destino — vestido na figura de seu comandante — decidiu de outro modo: sabendo do talento raro e do tempero acolhedor do soldado libanês para a arte da cozinha, o oficial tirou-o pessoalmente da fila do embarque para mantê-lo por perto. Sem cruzar o oceano de volta, cumpriu sua missão cívica no litoral nordestino. Documentos do Exército, assinados pelo tenente-coronel Ivaldo Figueiredo Mendes e preservados na certidão fornecida pela família, registram que, entre 25 de fevereiro e 2 de abril de 1943, ele se deslocou com o 14º Regimento de Infantaria de Jaboatão para a cidade do Cabo, em Pernambuco, participando “efetivamente de operações bélicas” na vigilância da nossa costa.
A paz refeita abriu veredas para o amor. Em 1951, nas terras de Anápolis, seu Barrijo uniu seu destino ao de Nemra — a inesquecível e doce Dona Tâmara —, recém-desembarcada do Líbano. Ali cultivaram a terra e a vida até que, em 1972, após a venda da propriedade rural, a bússola do coração apontou para Patrocínio. Veio para uma visita aos irmãos de Dona Tâmara — Nadin, Amin e Brasil —, pioneiros que já ajudavam a florir a atuante e respeitada colônia libanesa local, ao lado de famílias históricas como os Facuri, os Daura, os Abdalla, os Mansur e os Chucre. O abraço da cidade foi tão acolhedor que o casal decidiu que aqui seria o seu lar definitivo.
Nascia ali mais uma bonita página da nossa terra. Seu Barrijo trocou temporariamente o campo pelo balcão e fundou o Mercado Serve Mais. Pouco depois, em 1975, deu vida ao lendário Posto Transmaica — um ponto de encontro singular que reunia posto de combustível, hotel e restaurante. Ali, entre o farfalhar dos motores e a prosa boa das tardes, trabalhou com alegria e tranquilidade até o seu derradeiro dia entre nós, em 31 de julho de 1996, sem nunca desligar o coração da roça e do cheiro de terra molhada, que cultivou até ao fim. Ao seu lado, Dona Tâmara tecia sua própria marca na cidade, presenteando Patrocínio com a riqueza cultural e os aromas inconfundíveis da autêntica culinária árabe.
Desse encontro abençoado floresceram quatro filhos: Nadim, Toninho, Samira e Sulimar (a Helena). A árvore familiar criou raízes ainda mais profundas no Cerrado: Samira casou-se com Fernando Ribeiro (mantendo vivos os laços da imigração) e deu à luz Fernando, Rodolfo e Carolina; Helena casou-se com Gilberto (filho do saudoso seu Júlio da Retífica Regional), sendo mãe de Lucas, Larissa e Beto; e o amigo Nadim construiu sua vida ao lado de Sônia, mantendo a tradição no comércio e abençoados com as filhas Letícia e Isabela.

Em Patrocínio com sua inseparável caminhonete em frente ao Transmaica nos anos 90.
O tempo, esse passageiro inexorável, encarregou-se mais tarde de levar também Dona Tâmara ao descanso eterno, deixando em todos nós a memória doce de sua presença e de sua generosidade. .
O som da memória, quando sopra hoje pelas ruas de Patrocínio, traz-nos a estampa serena desse herói discreto — registrada nas fotos de ontem com a farda em Pernambuco e nas dos 90 ao lado do sua caminhote no Transmaica. Um homem que soube trocar a sombra da guerra pela luz do trabalho honesto e pelo carinho da família. Recordar Barrijo Antônio Sahium e Dona Tâmara é ter a certeza bonita de que a nossa história é feita por braços imigrantes que, com amor, suor e dignidade, ensinaram a gente a amar esta terra.




