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Artigo | Eu sou um Cristão!

(Cristo, Cristãos e Cristianismo: teoria versus prática)

Renato S. Borges

Setembro – 2026

“Eu sou um cristão!”

Que frase poderosa hein! Daquelas que parecem vir acompanhadas de certificado de bons antecedentes morais.

Mas ser cristão significa exatamente o quê mesmo?

Pelos parcos conhecimentos que tenho, a partir de alguns estudos bíblicos que fiz, tenho para mim que Jesus Cristo não fundou religião alguma. Tampouco criou uma instituição religiosa.

O que fez foi bem mais complicado:

E n s i n o u!

E ensinou coisas difíceis: ensinou a amar o inimigo. Perdoar. Dar a outra face. Não fazer da fé um espetáculo ou um negócio. Não transformar a oração em propaganda. Não acumular tesouros como se a vida não tivesse prazo de validade.

E, sobretudo, criticou duramente uma religiosidade preocupada demais com a aparência e de menos com a essência.

Aos religiosos de plantão, mandou algo parecido com um reset.

“Ouvistes que foi dito… Eu, porém, vos digo…”

Pronto. Mudou o jogo.

O problema é que, aparentemente, o reset não pegou.

Logo surgiram comunidades cristãs. Depois vieram as discussões, as interpretações, as estruturas, as hierarquias, as denominações, as doutrinas, os dogmas e, naturalmente, os especialistas em explicar aos outros como chegar ao céu (em alguns casos, vendendo um passaporte vip).

E nós, que adoramos uma regra, uma gambiarra, fizemos o que fazemos melhor: institucionalizamos tudo.

O sujeito vai ao templo no domingo, faz cara de santo e, na segunda, trata mal o funcionário, engana o cliente, sonega.

Outro fala em amor ao próximo, mas não “enxerga” quem está fazendo a limpeza, quem abre a porta.

Há quem pregue humildade com microfone na mão e quem fale de desapego contando cuidadosamente quanto entrou de recurso$.

E ainda há aqueles que descobriram que medo, culpa, promessa e esperança podem formar uma combinação bastante eficiente … e rentável.

Não estou falando de todos. Longe disso.

Estou falando da velha contradição humana: uma coisa é o que se prega; outra, muito diferente, é o que se pratica.

Cristo parece ter percebido isso há dois mil anos.

… nesse tempo … continuamos aperfeiçoando a técnica.

A fé virou, em muitos lugares, espetáculo. A religião, identidade. O templo, palanque. O discurso, marketing.

E alguns líderes religiosos descobriram que política, fake news, teorias da conspiração, medo e fé podem conversar muito bem entre si … Controle!

O curioso é que Cristo não parece precisar de nada disso.

Nem de palanque.

Nem de like.

Nem de espetáculo.

Nem de grana.

Talvez porque a experiência religiosa mais profunda seja justamente aquela que não precisa de plateia.

No silêncio da madrugada, quando não há microfone, templo, líderes religiosos, algoritmo ou multidão.

Só você … e Deus.

Por isso, meu amigo e minha amiga, ando correndo de denominações e templos, igual o gato aqui de casa, o mingau, corre do banho.

Talvez eu esteja apenas tentando encontrar Cristo sem precisar das gambiarras humanas.


Renato S. Borges é patrocinense, escritor, ex-funcionário público, mora em Brasília – DF

@redehoje
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