
Esta é uma reportagem especial baseada no documento histórico cedido pelo professor Marlúcio Anselmo, seguida de uma análise contextual e da transcrição integral do texto.
Da Redação da Rede Hoje
Um mergulho no túnel do tempo transporta-nos para o dia 7 de janeiro de 1934. Através das páginas amareladas do jornal O Commércio, fundado por Alfredo Borges e já em seu 11º ano de circulação, resgatamos um momento crucial da história social de Patrocínio: a inauguração da sede própria da União Operária.
O documento, preservado e compartilhado pelo professor Marlúcio Anselmo, que recebera do historiador Marelizio Alves Cortes, traz o registro vibrante do discurso proferido por F. Pacheco. Em uma época de profundas transformações globais, o texto revela como as ideias que moldavam a Europa e a Rússia ecoavam no interior de Minas Gerais, e como a elite intelectual da época enxergava o papel do trabalhador na construção da nação.
Análise Histórica: Entre o Local e o Global
O texto de 1934 é um exemplar fascinante da retórica da época. Nele, notamos três pontos fundamentais:
- A Efervescência Política Mundial: F. Pacheco cita nominalmente Lênin, Mussolini e Hitler. É um registro raro que mostra como Patrocínio estava conectada aos debates internacionais. Em 1934, Hitler havia acabado de subir ao poder na Alemanha e o fascismo de Mussolini estava no auge. O orador, porém, demonstra um ceticismo nacionalista, sugerindo que o Brasil não precisava dessas “doutrinas” estrangeiras, mas sim de trabalho e ordem.
- O Contexto da Era Vargas: O discurso menciona a “revolução” (referindo-se à Revolução de 1930) com esperança de “depuração”. Reflete o pensamento da época que buscava uma alternativa à “política indecorosa” da República Velha, exaltando o operário como o pilar moral da pátria.
- O Operário “Manso e Passivo”: Um detalhe crucial para a análise sociológica é quando o orador louva os operários que trabalham “mansos e passivos”. Isso revela a visão da época sobre o sindicalismo: o trabalhador era valorizado desde que fosse ordeiro e colaborativo com o progresso, evitando conflitos de classe radicais.
A inauguração do prédio, celebrada por Dr. Martins de Oliveira ao final da sessão, não foi apenas uma conquista imobiliária, mas o símbolo do reconhecimento social de uma classe que, nas palavras de Pacheco, “ensopa de suor a terra bendita”.
Transcrição Integral: União Operaria (1934)
Abaixo, preservamos a grafia original da época:
União Operaria
“…Eu não quero, meus senhores, com esse espírito crescente e escarpelado de cientista, penetrar-vos o âmago do coração, destronando de lá esse doce sentimento que vos unge as almas neste dia de festança e confraternização.
Eu vos desejo, sinceramente, ex-imo pectore, um feliz anno novo.
O futuro nada mais é que a projecção do passado no presente.
A União Operaria de Patrocínio teve um passado brilhante, cheio de vida e actividade. O seu presente, eis que nol-o mostraes, no vigor desta realização, que é o vosso predio, hoje inaugurado. Quem teve tão bello passado, quem vive de tão fertil presente, tem assegurado um futuro cheio de realizações e cheio de justas reivindicações.
Meus Senhores,
Existe dentro de cada um de nós, brasileiros, um sociologo teimoso e irreverente. Eu quero, e mais do que isso, tenho que fazer excepção no meio de tanta gente incorrigivel, se bem que vos peço licença para falar, por alto embora, dos ultimos acontecimentos sociaes e politicos que hoje empolgam o Occidente. Lenine, no seu tumulo ainda quente, na velha Russia; Mussolini, no seu fastígio de gloria e poder na Italia; Hitler, com as suas cogitações severas na Allemanha, constituem neste momento os pontos culminantes para que se voltam todas as attenções do mundo civilizado, curioso das ideias reformadoras do momento.
Eu não sei, porém, no que possam interessar-nos, praticamente, as reformas de Lenine, as doutrinas de Mussolini, as concepções de Hitler.
O nosso problema está ha muito resolvido sem grandes apprehensões. Basta que cada um cumpra o seu dever e seremos um povo forte e rico e poderoso.
Lembremo-nos ainda das sociedades nas especies inferiores.
Existem no cortiço, ao lado das abelhas que produzem e edificam, os individuos que se comprazem na indolencia, que vivem do trabalho alheio, que parasitam a vida dos outros.
Se os politicos profissionaes brasileiros perderam o senso e o systema nervoso, se se lhes gastaram na pratica indecorosa da politica os ultimos elementos da columna vertebral, deixemol-os que se destruam, que se consummam na luta das ambições.
Mas tenhamos fé em Deus, que nem tudo se perdeu ainda. Confiemos mesmo na revolução, nos seus fins, nos seus principios, que ella ha de depurar os elementos puros do ideal e cheios de patriotismo.
A vós, operarios do Brasil, a vós, operarios de Patrocínio, que ensopaes de suor a terra bemdicta, num trabalho sem treguas nem descanço, cabe em grande parte o futuro da Patria amada.
Eu louvo, eu bemdigo a minha Patria nos operarios que trabalham mansos e passivos, nos operarios de todo o Brasil, na União Operaria de Patrocínio.
O distincto e apreciado orador terminou a sua empolgante oração, debaixo de uma significativa salva de palmas, sendo muito felicitado.
Encerrando a sessão, o dr. Martins de Oliveira, em ligeiras e bellas palavras, agradeceu o comparecimento de todos à sessão, congratulou-se com o operariado e com Patrocínio, pelo inestimavel melhoramento que ora se effectivava aqui.“





