
Luiz Antônio Costa
O sol de janeiro ainda tateava a neblina quando dobrei a esquina da rua principal. Patrocínio despertava devagar, como sempre aos sábados, num espreguiçar de portas e janelas. Mas naquela manhã havia algo diferente no ar — um murmúrio subterrâneo, uma expectativa que não se via, apenas se sentia. Talvez fosse o burburinho incomum; talvez o compasso apressado de homens de paletó gasto e chapéu bem assentado, todos caminhando como se obedecessem a um mesmo chamado.
Ajustei o chapéu, firmei o bloco de anotações sob o braço e segui. Afinal, não era um dia qualquer. A União Operária inaugurava sua sede própria — e O Commércio não poderia faltar.
— Bom dia, seu Alfredo Borges! — saudou-me um tipógrafo ao passar, com tinta ainda nos dedos.
— Bom dia, rapaz. Hoje a cidade escreve um capítulo novo — respondi, mais para mim do que para ele.
O prédio surgia adiante, ainda cheirando a cal fresca e madeira recém-cortada. Erguia-se com dignidade simples, sem ostentação. Não era palácio, mas era conquista. À porta, operários trocavam apertos de mão demorados, daqueles que dizem mais do que palavras, como quem celebra algo maior do que paredes — celebra o direito de existir.
Lá dentro, o calor humano misturava-se a um silêncio respeitoso, quase cerimonial. Reconheci o doutor Martins de Oliveira ajeitando os óculos com cuidado; vi homens da sociedade local cochichando em vozes baixas; e, ao centro, F. Pacheco mantinha-se ereto, sério, concentrado, como quem sustenta nos ombros um peso invisível.
A sessão começou. Abri meu caderno.
Quando Pacheco tomou a palavra, sua voz ecoou firme, atravessando o salão como uma lâmina de som:
— Meus senhores…
Escrevi rápido, tentando capturar não apenas as frases, mas o espírito que as animava. Ele falava do trabalhador, do suor que fertiliza a terra, da ordem, do dever. Evocava Lênin, Mussolini, Hitler — nomes distantes, quase exóticos naquele interior mineiro, mas que chegavam até nós pelas ondas longínquas do mundo, carregados de promessas e ameaças.
Inclinei-me para o lado e cochichei com um velho conhecido, companheiro de tantas coberturas:
— Quem diria, hein? A Europa inteira cabe hoje neste salão.
Ele respondeu sem tirar os olhos da tribuna:
— Cabe, sim. Mas o que importa é o chão que a gente pisa.
Continuei anotando. Pacheco não pregava revolta. Pregava disciplina. Louvava o operário “manso e passivo”. Fiz uma pausa. A ponta do lápis hesitou. Pensei. Sabia que aquelas palavras, impressas no dia seguinte, seriam lidas com respeito — e também com silêncio. O tipo de silêncio que pesa mais do que aplauso.
Quando ele encerrou, a salva de palmas foi longa, espessa, quase solene. Anotei: empolgante oração. Não por exagero, mas por fidelidade ao instante.
O doutor Martins levantou-se em seguida:
— Este prédio não é apenas alvenaria — disse. — É símbolo de reconhecimento.
Olhei ao redor. Vi olhos marejados. Vi mãos calejadas segurando chapéus contra o peito, como quem segura a própria história. Vi ali a matéria-prima do tempo — daquelas histórias que não gritam, não se impõem, mas permanecem.
Ao final, enquanto o público se dispersava em pequenos grupos e a manhã já se afirmava do lado de fora, um operário aproximou-se de mim. Tinha o rosto marcado pelo sol e pela lida.
— O senhor vai escrever bonito sobre nós, seu Alfredo?
Fechei o caderno com cuidado, como quem encerra algo vivo.
— Vou escrever justo — respondi. — E isso dura mais que bonito.
Caminhei de volta à redação. A prensa e o tipógrafo me esperavam. As fontes de letras, ainda frias, receberiam aquelas palavras — e eu sabia: dali a noventa, cem anos, alguém poderia reler tudo aquilo e ouvir, ainda que distante, o eco daquela manhã.
Porque o jornal passa.
Mas o que ele registra, fica.
Nota do autor:
Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais — ocorridos em janeiro de 1934, registrados pelo jornalista Alfredo Borges no jornal O Commércio, edição do dia 7 daquele mês —, com licença poética e livre criação. Este conto integra o livro inédito Crônicas e Contos do Caminho.






