Press ESC to close

O pequeno gigante: sua glória e seus demônios | O Som da Memória

Antônio Augusto, entrevista ao programa Hoje Magine TV e Nelson Ned. Fotos: Rede Hoje e reprodução de acervo pessoal da familia de Nleosn Ned


Luiz Antônio Costa

Há vozes que não cabem no corpo que as abriga. Elas escapam, crescem, atravessam paredes, décadas e silêncios. Quando ecoam, parecem carregar mais do que notas: trazem lembranças, dores, vitórias e um certo espanto diante da vida. Assim era a voz de Nelson Ned — pequena na estatura, imensa na memória coletiva.

Conta-se, e a história gosta de quem a conta bem, que um patrocinense chamado Antônio Augusto Machado foi quem primeiro percebeu aquele brilho raro. Num programa de calouros da Rádio Inconfidência, em Belo Horizonte, ele viu além do óbvio. Antônio Augusto, homem de rádio, de TV, de palcos improvisados e sonhos teimosos, era desses que acreditavam no talento antes do aplauso. Apresentador da TV Itacolomi, voz das rádios Guarani e Inconfidência, criador da Guarani Onda Rural, ele ainda arranjava tempo — como quem arruma cadeiras antes do espetáculo — para produzir grandes shows no Cine Patrocínio, no fim dos anos 60 e início dos 70. Os “Big Show 70” eram vitrines generosas: ali passavam artistas que seriam famosos e outros que ficariam apenas na lembrança, como Maurício Mori, o galã dos auditórios. Mas todos tinham algo em comum: alguém lhes abrira a porta.

Foi numa dessas portas abertas que Nelson Ned entrou.

Antes disso, porém, havia um casarão na Rua Coronel Júlio Soares, em Ubá. Ali nasceu, em 2 de março de 1947, o primogênito de Nelson de Moura Pinto e Ned d’Ávila Pinto. A infância trouxe um diagnóstico difícil de pronunciar e de aceitar: displasia espôndilo-epifisária. O crescimento não veio como o esperado; a altura adulta parou em torno de 1,12 metro. O mundo, entretanto, parecia grande demais para caber em explicações médicas. E talvez por isso ele tenha decidido cantá-lo.

A música entrou cedo, como entra nas casas onde o rádio nunca se cala. Aos quatro anos, Nelson já ganhava um prêmio numa rádio de Ubá. Mais tarde, Belo Horizonte o acolheu quando dona Ned passou em concurso público e levou a família para a capital. Aos 12 anos, enquanto muitos ainda aprendiam a ouvir, ele já trabalhava como secretário na fábrica da Lacta. E cantava. Cantava na TV Itacolomi, nas rádios Guarani e Inconfidência, como se cada programa fosse uma promessa.

Os anos 60 chegaram com discos e estradas. Um Show de 90 Centímetros, de 1964, trazia no título uma ironia corajosa: transformar a medida do corpo em provocação artística. Em 1969, Tudo Passará confirmou o que os atentos já sabiam. A canção-título — regravada dezenas de vezes — virou oração laica, dessas que servem tanto para a dor quanto para a esperança. “Tamanho não é documento” não era só música: era manifesto.

Nesse mesmo ano, Buenos Aires o consagrou ao vencer o Festival de la Canción. A partir dali, o mundo se abriu: América Latina, Europa, África. Estádios cheios, teatros lotados, discos de ouro, milhões de cópias vendidas. Nelson Ned tornou-se o primeiro latino-americano a vender um milhão de discos nos Estados Unidos e repetiu um feito que poucos ousam sonhar: cantar quatro vezes no Carnegie Hall, sempre com casa cheia. Ao lado de nomes como Julio Iglesias e Tony Bennett, sua voz mineira atravessou fronteiras sem pedir licença.

Mas todo gigante carrega sombras proporcionais à sua altura simbólica. No auge, vieram a depressão, o álcool, as drogas. Em sua biografia, O Pequeno Gigante da Canção, de 1996, Nelson não escondeu os demônios. Contou deles como quem encara o espelho depois de muito fugir. Mais tarde, a conversão ao cristianismo trouxe um novo repertório e um novo fôlego; o gospel lhe rendeu mais um disco de ouro e uma paz possível.

A vida, porém, nunca deixou de cobrar. Um AVC em 2003 roubou-lhe a visão do olho direito. Vieram o diabetes, a hipertensão, a ameaça do esquecimento. Nos últimos dias de 2013, a véspera do Natal o encontrou numa clínica de repouso. Pouco depois, a pneumonia fez o que o tempo já ensaiava. Em 5 de janeiro de 2014, Nelson Ned silenciou.

Ficaram as cinzas, os discos, as histórias. Ficaram os filhos — três, todos herdeiros da mesma condição física, mas cada qual com seu próprio modo de enfrentar o mundo. Ficou, sobretudo, a voz. Essa não se mediu em centímetros. Mediu-se em coragem.

Quando hoje alguém cantarola “Tudo Passará”, talvez não saiba de Antônio Augusto Machado, patrocinense, dos bastidores da Rádio Inconfidência, do casarão em Ubá ou dos palcos improvisados de Patrocínio. Mas sentirá, mesmo sem perceber, o som da memória. Porque algumas vozes não morrem: apenas descansam entre um acorde e outro, esperando que alguém as escute de novo.

@redehoje
Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed com a ID 1 foi encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.