
Luiz Antônio Costa
Carnaval é tempo de brilho e confete, mas também é tempo de revisitar histórias. E hoje, no O Som da Memória, a fantasia que a gente escolhe vestir é a mais sincera de todas: a da saudade. Vamos abrir o álbum dos anos 1980 — essa década que não sai do coração de quem viveu e que ainda pulsa forte, como bateria na avenida.
Ah… os anos 80.
O Brasil reaprendia a ter esperança. Depois de tantos anos de regime militar, vieram as Diretas Já, a redemocratização, a Constituição de 1988. O país se reconstruía enquanto o povo seguia firme. A inflação era descontrolada, o preço mudava de manhã para a tarde, mas o brasileiro fazia conta de cabeça no mercado e ainda encontrava fôlego para cantar no Carnaval.
Em Patrocínio, no nosso pedaço de Minas, tudo tinha um ritmo próprio. A praça era ponto de encontro, os clubes ficavam lotados nos bailes carnavalescos. Todo mundo se conhecia. O rádio não era apenas companhia — era parte da família.
No meu programa, Impacto Jovem, na Rádio Difusora, eu tinha um cuidado especial. Não falava por cima das músicas. Não colocava vinheta no meio. Sabia que do outro lado tinha alguém com o dedo no botão vermelho do “rec”, gravando tudo em fita K7.
Era uma verdadeira febre.
A única exceção era “Tell Me Once Again”, da banda Light Reflections. A música tinha duas pausas de cerca de três segundos… e ali entrava a vinheta da rádio ou do programa. Era quase uma marca registrada, um detalhe calculado.
Quem viveu lembra: esperar a música começar, torcendo para o locutor não interromper. Se falasse por cima… pronto, estragava a gravação! Havia uma cumplicidade silenciosa entre o rádio e o ouvinte. Um respeito. Um pacto invisível.
Montar uma coletânea em fita era gesto de carinho. Era presente de aniversário, era declaração de amizade — e, muitas vezes, de amor. Precisava calcular o tempo certinho para caber nos dois lados. E quando a fita embolava? Lá vinha a caneta Bic para salvar o dia. Era quase um curso técnico em sobrevivência musical.
Naquela época, havia itens indispensáveis que hoje parecem relíquias:
Fita K7
Telefone de disco
TV com antena improvisada
Enciclopédia na estante
Videogame ligado na sala
A gente alugava filme na locadora e precisava rebobinar antes de devolver. Esperava a novela no horário certo, porque não existia replay. Escrevia cartas, mandava cartões, aguardava resposta com ansiedade. O mundo era menor — mas talvez fosse mais intenso.
E o Carnaval? Tinha marchinha, tinha serpentina, tinha bloco com banda de metais. Nada de megaestruturas. No salão os principais eram Catiguá, PTC e União Operário. Era simples, próximo, humano. A festa era feita de gente para gente.
Curioso é perceber que algumas dessas coisas estão voltando. O toca-discos reapareceu nas salas. O vinil virou objeto de desejo, peça de decoração, paixão de colecionador. Jovens que nunca viram uma agulha deslizando sobre o disco agora buscam LPs como quem procura tesouro.
O vinil tem aquele chiado inicial, aquele estalo que anuncia: “Agora começa.” É mais que som — é ritual.
Talvez seja isso que esteja retornando: o tempo de ouvir com atenção. De escolher o disco, colocar para tocar, sentar e simplesmente escutar.
Nos anos 80, música era acontecimento. Hoje é fluxo contínuo.
E o que também quase não existe mais?
A espera.
O mistério.
A surpresa.
A gente esperava o Carnaval chegar. Esperava a música tocar no rádio. Esperava a carta. Esperava o telefone tocar. Até a música no vinil esperávamos começar.
Hoje tudo acontece na hora. Mas talvez por isso mesmo a memória tenha ganhado tanto valor.
Os anos 80 não voltam no calendário. Mas voltam no sentimento. Voltam quando reencontramos um velho amigo. Quando ouvimos aquela canção que marcou uma fase. Quando abrimos uma caixa antiga e encontramos uma fita escrita à mão.
O som da memória não envelhece.
E neste Carnaval, enquanto o presente passa apressado como trio elétrico, a gente desacelera… coloca a agulha no vinil da lembrança… e deixa a música tocar.
Porque quem viveu os anos 1980 sabe:
Não foi apenas uma década.
Foi um jeito de sentir o mundo.
E isso… tecnologia nenhuma substitui.





