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A alegria de viver | Com a Palavra…

Elza Lima

Tem dias em que a vida acorda antes da gente. Ela entra pela janela sem pedir licença, escorre pela fresta da cortina e pousa mansa sobre o rosto ainda sonolento. Não faz barulho, não exige nada, apenas convida. E, mesmo assim, quase sempre a gente demora a aceitar.

A alegria de viver não é um espetáculo com fogos de artifício. Não chega anunciada, não vem com trilha sonora grandiosa. Ela é mais parecida com o cheiro do café passando na cozinha, com o vento que bagunça o cabelo no meio da rua, com aquele instante breve em que o riso escapa sem motivo claro. É pequena, mas insistente.

Outro dia, vi um senhor sentado na calçada, olhando o movimento como quem assiste a um filme repetido. Ele sorria sozinho, sem celular, sem pressa, sem ninguém ao lado. Fiquei pensando que talvez ele tivesse descoberto um segredo que a gente vive esquecendo: a vida não precisa ser extraordinária o tempo todo para ser boa. Basta ser vivida com presença.

A gente complica a alegria. Coloca metas, prazos, condições. “Vou ser feliz quando…”, dizemos, como se a felicidade fosse uma recompensa distante, guardada no fim de uma corrida sem linha de chegada. Enquanto isso, ela passa despercebida nos intervalos, na conversa despretensiosa, na música que toca por acaso, no silêncio confortável.

Viver com alegria não é ignorar a dor. Pelo contrário, é reconhecer que ela existe e, ainda assim, escolher enxergar o que resiste apesar dela. É rir mesmo quando o dia não foi gentil, é encontrar beleza nas coisas imperfeitas, é entender que a vida não precisa ser perfeita para ser suficiente.

Talvez a alegria de viver seja isso: um exercício diário de atenção. Um jeito de dizer “sim” para o que é simples. Um compromisso silencioso com o agora. Porque, no fim das contas, a vida não acontece depois, ela acontece enquanto a gente está ocupado esperando.

E quando a gente finalmente percebe, ela já está ali, sentada ao nosso lado, sorrindo como quem nunca foi embora.

Existe uma riqueza que não se mede em números, nem cabe em contas bancárias. Ela mora no cotidiano, no espaço compartilhado entre duas ou mais pessoas que decidiram caminhar juntas. Viver bem ao lado de quem amamos é, antes de tudo, aprender a transformar o comum em abrigo.

Não é sobre ter tudo, mas sobre valorizar o que já está ali: o café dividido, a conversa no fim do dia, o silêncio que não incomoda. É curioso como a felicidade, tantas vezes buscada em grandes conquistas, se revela nas pequenas permanências — no cuidado, na presença, na escolha diária de ficar.

Amar alguém não elimina as dificuldades. Há dias nublados, desencontros, palavras atravessadas. Mas viver bem juntos é justamente saber atravessar esses momentos sem perder o vínculo. É entender que felicidade não é ausência de problemas, e sim a capacidade de enfrentá-los de mãos dadas.

Ser feliz com o que temos exige um olhar mais gentil sobre a vida. A gente aprende a agradecer o que antes parecia pouco, a enxergar valor no simples, a desacelerar o desejo constante por mais. Porque, no fundo, o “mais” nem sempre preenche, às vezes, o que preenche é o que já ficou.

Há uma beleza discreta em dividir a vida sem pressa. Em construir memórias sem perceber, em rir de coisas bobas, em saber que, independentemente do resto, existe alguém ali. Isso basta mais do que imaginamos.

Viver bem ao lado de quem amamos e ser feliz com o que temos talvez seja isso: aceitar que a felicidade não é um destino distante, mas uma companhia presente. E quando a gente entende isso, descobre que já estava, há muito tempo, exatamente onde precisava estar.

Elza Lima é escritora, sócia de escola de idiomas em São Matheus, ES, e colaboradora da Rede Hoje

@redehoje
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