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O legado do Catiguá: a alma de Patrocínio | Crônicas e Contos do Caminho

Luiz Antônio Costa

Era uma manhã bonita por volta de 1969 em Patrocínio. O velho Antônio Rodrigues de Moraes, que todo mundo chamava de Vô Tonico, subiu no cavalo e logo atrás veio o neto Dalto, de uns 16 anos e cheio de curiosidade.

Os dois iam devagar pelo caminho de terra vermelha amarelada, balançando no passo do cavalo, em direção ao Rio Dourados. Dalto abraçava a cintura do avô e olhava tudo em volta. O ar tinha cheiro de mato e terra molhada.

— Vô, por que esse clube novo que tão fazendo na cidade chama Catiguá? — perguntou Dalto de repente.

O avô deu um sorrisinho calmo, ajeitando o chapéu de palha na cabeça.

— Ah, meu filho… Isso é coisa da origem de Patrocínio. Se cê quiser saber, te conto desde o comecinho. Mas é história comprida, hein? Como a gente tem um bom pedaço de estrada até o rio, dá tempo de contar direitinho. Segura firme aí.

— Pode contar, vô. Eu adoro quando o senhor conta essas coisas — respondeu Dalto, animado.

Há muito tempo, no ano de 1668, o nome Catiguá já existia. Os índios araxás que moravam aqui deram esse nome à região por causa de uma planta (também chamada de catuaba, passarinheira ou caramuru) que eles conheciam bem. Mas aquele paz que existia foi embora, quando um sujeito apelidado de “Velho”, mas que se chamava Lourenço Castanho Taques, chegou com um bando de bandeirantes e bateu de frente com os índios.

— Mas os bandeirantes matavam, vô?

— Matavam sim, meu neto, não foi bonito não: os brancos queriam a terra e o ouro, os índios defendiam o que era deles. Foram longe, até além de Paracatu. Por volta de 1690, o famoso Anhanguera, Bartolomeu Bueno da Silva, passou por aqui vindo de Sabará rumo às terras dos goiazes, descansando à beira do Rio Dourados, onde a gente tá indo pescar. Os bandeirantes paravam aqui porque tinha água limpa, pasto pros cavalos e caça fácil. Em 1729 descobriram ouro em Goiás e muita gente de Minas foi pra lá. O governo português mandou abrir a Picada de Goiás, que passava por Lagoa Seca, que depois virou nossa Patrocínio. Por volta de 1736, o governador Martinho de Mendonça abriu outra estrada saindo de Pitangui pro noroeste, passando pertinho aqui da região do Catiguá. Na metade do século XVIII, o Conde de Valadares demarcou essas terras.

— Nossa, como cê sabe disso tudo, vô?

— Essas coisas a gente aprende da mesma forma que tô te contando, meu filho.

— Bacana, vô. E aí?

— Aí, em 1771, o Conde de Valadares mandou o Capitão Inácio de Oliveira Campos vir explorar e cavar por aqui. Inácio saiu de Pitangui, chegou nos campos de Catiguá ou Salitre. Inclusive, Dalto, Salitre também foi um nome dado pelos tropeiros a Patrocínio.

— Por que, vô?

— Por causa das águas sulfurosas e salitrosas de suas nascentes, que eram abundantes e serviam como fonte de sal para o gado, um recurso essencial na época. Por isso o nome Bebedouro também está ligado a essas fontes de água, ali perto de onde está o distrito de Salitre, referindo-se ao Córrego Bebedouro e às gamelas onde os animais bebiam. Mas esse tal de Capitão Inácio destruiu vários quilombos que havia no vale do Rio Dourados, devolvendo muitos negros fugidos aos seus donos. Em 1772 ele fundou o primeiro núcleo de povoamento ao estabelecer uma fazenda para buscar ouro e abastecer os viajantes que iam de Minas para Goiás.

No ano seguinte, em 1773, iniciou a fazenda do Brumado dos Pavões, onde criava gado e plantava para sustentar a família. Mas mal chegou, o capitão adoeceu gravemente, ficou paralítico e não conseguia mais se mexer. Quem segurou as pontas foi sua esposa, Dona Joaquina do Pompéu.

— Nossa, vô. E como foi que uma mulher administrou uma fazenda tão grande naquele tempo?

— Uai, administrou com mão firme a enorme Sesmaria do Esmeril. Mandou boiadas para o Rio de Janeiro para ajudar Dom Pedro I na Independência e ainda ajudava os pobres. O povo falava que ela era dura, mas tinha um bom coração. Contavam também que ela teve um caso com um dos seus escravos.

Depois chegou o Padre Leonardo Francisco Palhano, que deu início de verdade ao povoado, mas teve briga feia com outro padre, Antônio Curvelo, que apontou arma para ele dizendo que aquele território era seu. Palhano fugiu para evitar confusão entre bispados. Em 1793 apareceram os primeiros moradores fixos, o comércio se estendia até Ouro Preto passando por Paracatu e Diamantina, e a Sesmaria do Esmeril cobria quase toda a região. Foi assim, meu neto, de 1772 até 1793: muita luta, doença, mulher forte tomando conta, padre brigando e o lugar começando a ganhar jeito de povoado.

— Que história forte, vô… — murmurou Dalto.

— Pois é. Teve muita luta por trás.

— Daí a cidade começou a crescer?

— Cresceu rápido.

Em 1804 fizeram a primeira igreja, dedicada a Nossa Senhora do Patrocínio. Em 1807 o lugar ganhou o nome de Arraial Nossa Senhora do Patrocínio. Contam que uma das filhas de Antônio de Queiroz Teles, um fazendeiro muito rico, caiu doente muito grave. Então o fazendeiro prometeu construir uma capela se ela se recuperasse. Como recuperou, ele cumpriu a promessa, construindo uma capela onde hoje é a igreja Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio.

— Mas por que “Patrocínio”, vô?

— “Patrocínio” deriva do latim patrocinium, que significa proteção, amparo ou defesa concedida por alguém mais poderoso. Então, Dalto, no contexto histórico e religioso, o termo é associado à ideia de intercessão de um santo ou da Virgem Maria em favor de uma comunidade.

— Que bonito, vô! E então?

— Em 1812 foi criado o distrito com esse nome. Em 1816, Dom João VI devolveu a região para Minas Gerais. E em 1819, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire passou por aqui, viu só umas quarenta casinhas de barro, uma praçazinha e a capelinha no meio; ele falou das águas sulfurosas do Bebedouro do Salitre, que eram abundantes e boas como as de Araxá, ajudando muito o gado que precisava de sal.

— Era bem pequeno.

— Bem pequeno mesmo.

De 1820 em diante doaram mais terras para o povoado. Os fazendeiros só vinham aos domingos para a missa com o Padre Vicente. Em 1822 virou Distrito de Ordenanças, com quarenta soldados. Em 1829 tornou-se Curato e em 1839 virou Paróquia, com Padre José Ferreira Estrela como primeiro vigário — que era até capitão. Em 1840 criaram a Vila Nossa Senhora do Patrocínio, separando de Araxá. E em 1842 virou município de verdade, com Capitão Francisco Martins Mundim como primeiro presidente da Câmara.

— E tem a história do diamante, né vô?

— Ah, em 1852 acharam o brilhante Estrela do Sul lá em Bagagem, que ainda era de Patrocínio. Mas em 1853 bandidos começaram a assaltar quem levava pedras preciosas. Em 1858 criaram Estrela do Sul e levaram um pedaço grande de Patrocínio. Em 1860 fundaram a primeira banda com José Marçal Ribeiro. Em 1862 fizeram o primeiro cemitério. Em 1868 criaram Patos de Minas, também tirando daqui. E em 1870, com festa grande, reconheceram oficialmente o arraial.

— Que história legal, vô!

— Legal, mas teve muita luta por trás. Em 1873 virou cidade de verdade. Era terra de queijo bom, rapadura, cachaça, farinha e toucinho… abastecia até Ouro Preto quando passava fome. Patrocínio sempre foi lugar de criação de gado e roça, com águas minerais famosas. Depois veio a estrada de ferro em 1918, que trouxe bastante progresso, e em 1921 chegou a energia elétrica.

— E o clube Catiguá, vô? Por que o nome?

— Porque Catiguá é o nome antigo do planalto, além da planta que lhe contei, Dalto. É pra lembrar de onde a gente veio: dos índios, dos bandeirantes, dos primeiros que moraram aqui. É a nossa raiz, filho. O clube novo é uma homenagem pra essa história toda.

O cavalo seguia devagar. O sol já estava mais alto no céu. Dalto ficou quieto um tempinho, pensando.

— Vô, quando eu crescer eu ainda quero ouvir mais dessas histórias e vou até passar prá frente.

— E eu conto quantas vezes você quiser, Dalto. Olha ali na frente… o Rio Dourados já tá aparecendo. Vamos pescar um pouco e na volta a gente continua o papo.

O menino sorriu e apertou mais o avô. A viagem que era longa ficou curta com tanta conversa boa. O Rio Dourados brilhava lá na frente, esperando os dois.


Nota do autor: Este conto é uma obra de ficção baseada em fatos reais, na história real de Patrocínio, Minas Gerais, com licença poética e livre criação. Este conto integra o livro inédito Crônicas e Contos do Caminho.

@redehoje
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