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Quando a praça era o nosso mundo | O Som da Memória

Luiz Antônio Costa

Patrocínio, início dos anos 1970. A cidade era provinciana, romântica, solteira e, acima de tudo, lúdica.

Ninguém, nem nas ficções científicas mais malucas, imaginava o que seria a modernidade, o conhecimento, a internet no século XXI – nem mesmo para as crianças. O que nos movia era a paixão por coisas que, no futuro, teriam pouco ou nenhum sentido para a juventude. Uma delas? O vaivém da Praça Santa Luzia.

Ah, minha geração! A gente curtia aquela praça como se o mundo inteiro coubesse ali. Rodar por horas, batendo papo, trocando ideias, tentando “conquistar” uma daquelas garotas era a nossa principal preocupação. Não tinha Tinder, não tinha stories, não tinha nada. Só o coração acelerado, o cheiro de perfume Lancaster misturado com o ar fresco da noite e a certeza de que o fim de semana valia a pena só por causa daquilo.

A trilha sonora do lazer vinha da fonte luminosa – orgulho máximo dos patrocinenses. Toda noite, a “função” abria com A Praça, do Ronnie Von, e seguia com os sucessos fresquinhos do Bread, Bee Gees e Ray Conniff. O equipamento ainda novinho deslumbrava a todos. As águas dançavam ao ritmo da música, em cores variadas, jatos fortes subindo mais alto que os prédios baixinhos da praça e quase à altura da torre da igreja, enquanto jatos menores formavam um balé de cores, sons e efeitos visuais inesquecíveis. Parecia Hollywood em Patrocínio.

O guarda da praça era o “Compadre”, figura lendária, conhecido e respeitado por todos os adolescentes que invadiam o logradouro nos fins de semana. Ele até se parecia com os nossos heróis do cinema: como o personagem Django, usava capa estilo cavaleiro e um chapéu – claro, para se proteger nas madrugadas frias. Tinha como fiel escudeiro um pastor alemão que, para nós, adolescentes, parecia um leão, mas o cão era chamado de Lobo.

Como em toda sociedade que se preza, havia divisões nítidas. O “miolo” da praça, em frente à igreja, era misturado. Do lado direito da fonte, no caminho para a Presidente Vargas, ficavam os mais pobres. Em volta da igreja e no passeio da Rui Barbosa, a classe média. E, no passeio da Rui Barbosa, em frente ao cinema – e no muro da residência do senhor Alberto Ibrahim –, era o ponto dos “riquinhos”.

O ápice do movimento chegava quando terminava a primeira sessão do Cine Patrocínio, lá pelas nove da noite. As moças tinham que estar em casa até as 22h (no máximo), e os rapazes até as 23h30. A garota que ficasse na praça depois das 23h já era “mal falada”. Se você fechasse o quarteirão inteiro – Presidente Vargas, Elmiro Alves, Rui Barbosa e Coronel João Cândido –, tinha um extrato perfeito da sociedade patrocinense, com todas as virtudes e defeitos a céu aberto.

No Cine Patrocínio, em cartaz, filmes que faziam a cabeça da turma jovem: Sem Destino (Easy Rider – 1969, de Dennis Hopper), o clichê inevitável de sexo, drogas e rock and roll; Shaft (1971, de Gordon Parks), o mais icônico da “blaxploitation”, onde uns caras dando tiros ao som de um soul agitado deixavam a plateia eletrizada; O Poderoso Chefão (The Godfather – 1972, de Francis Ford Coppola), o primeiro da série; e o impagável O Exorcista (The Exorcist – 1973, de William Friedkin), considerado, na época, o filme mais assustador de todos os tempos. Tinha também A Primeira Noite de um Homem, que caía como uma luva naquela adolescência efervescente: após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa indeciso quanto ao futuro e acaba seduzido pela Sra. Robinson (Anne Bancroft), uma amiga de seus pais. A relação se complica quando ele é forçado a ter um encontro com a filha dela, Elaine (Katharine Ross). E, para completar, os melodramáticos Love Story, Blue Balloon e todos os bang bangs da época.

Os casais mais espertos preferiam as áreas menos iluminadas: o trecho entre a escadaria da igreja e a esquina da Elmiro Alves, o passeio e jardim da Rua Presidente Vargas ou, nos fundos, atrás da fonte luminosa (onde fica a banca de revistas da Yara). Aqueles bancos foram testemunhas mudas de tantos amores que, se falassem, o livro seria proibido para menores.

E quem não tinha par? Ah, meu Deus, era diversão garantida. Sempre em grupos, os mais afoitos na arte da conquista soltavam cantadas que hoje dariam vergonha alheia – e recebiam respostas ainda piores das meninas, que também vinham em bandos:

– Eu não acreditava em amor à primeira vista. Mas, quando te vi, mudei de ideia.
– Que coincidência! Eu não acreditava em assombração.
– Nossa, não sabia que boneca andava!
– E eu não sabia que assombração falava!

Minha irmã estava com uma amiga e o namorado dessa amiga. De repente, a amiga resolveu que não ia ficar mais.

— Vou embora — disse a colega.

— E eu vou ficar aqui sozinha — respondeu minha irmã.

O namorado da amiga resolveu a questão:

— Fico aqui com você —, assim, de bate-pronto.

Minha irmã diz que nunca mais viu a outra e namorou um bom tempo com o rapaz.

Outras pérolas imperdíveis:
– Este lugar está vago?
– Está, e este aqui onde estou também vai ficar, se você se sentar aí.
– A gente vai para a sua casa ou para a minha?
– Os dois. Você vai para a sua casa, e eu vou para a minha!
– Oi. Está procurando boa companhia?
– Estou, mas, com você por perto, vai ficar muito mais difícil encontrar.

No fundo, era só brincadeira de turma de jovem que estava mais interessada na diversão. Ninguém conquistava ninguém de verdade com papo daqueles – e todo mundo sabia. Mas a noite passava gostosa, o fim de semana terminava e a gente já ficava na expectativa do próximo sábado para voltar ao vaivém da Praça Santa Luzia.

Esta crônica estará compondo o novo livro do autor: “Contos e Crônicas do Caminho”.


@redehoje
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