
Operação da Polícia Federal cumpre mandados em quatro estados e no Distrito Federal em investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro. Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil
Ação autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, também determinou bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens e valores dos investigados
Da Redação da Rede Hoje
Policiais federais cumpriram, desde as primeiras horas desta quinta-feira (7), um mandado de prisão temporária e 10 mandados de busca e apreensão durante a 5ª fase da Operação Compliance Zero. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e tem como um dos investigados o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro. A operação ocorre nos estados do Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. A Polícia Federal informou que as medidas fazem parte de um aprofundamento das investigações sobre um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Além dos mandados de busca e apreensão, a decisão do STF determinou o bloqueio de bens, direitos e valores no montante de R$ 18,85 milhões. Segundo a Polícia Federal, a nova etapa da investigação busca reunir mais provas relacionadas ao funcionamento do esquema apontado pelos investigadores. A operação desta quinta-feira é um desdobramento das fases anteriores da Compliance Zero, que já haviam atingido empresários, operadores financeiros e ex-integrantes de instituições públicas ligadas ao sistema financeiro. O foco atual da investigação envolve possíveis relações entre agentes políticos e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Em representação encaminhada ao ministro André Mendonça, a Polícia Federal afirmou existir indícios de que Ciro Nogueira teria recebido pagamentos mensais de Daniel Vorcaro. De acordo com os investigadores, os valores variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil por mês. A PF também sustenta que o senador teria recebido outras vantagens, como viagens internacionais, hospedagens, despesas em restaurantes, uso de voos privados e acesso a imóveis de alto padrão pertencentes ao banqueiro. Segundo a investigação, as vantagens teriam sido concedidas em troca da apresentação de projetos de interesse do Banco Master no Congresso Nacional.
Entre os pontos citados pela Polícia Federal está a Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição nº 65, apresentada por Ciro Nogueira em agosto de 2024. O texto ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A investigação aponta que a proposta teria sido elaborada por assessores ligados ao Banco Master e entregue diretamente na residência do senador para ser apresentada ao Congresso. Segundo os investigadores, interlocutores relataram que Daniel Vorcaro afirmou que a emenda “saiu exatamente como mandei”, indicando possível influência direta na elaboração do texto legislativo.
Investigação

Polícia Federal afirmou existir indícios de que Ciro Nogueira teria recebido pagamentos mensais de Daniel Vorcaro. Crédito:Lula Marques / Agência Brasil
Ainda segundo a Polícia Federal, a emenda poderia ampliar significativamente os negócios do Banco Master, provocando impactos relevantes no mercado financeiro. Os investigadores afirmam que pessoas ligadas ao esquema chegaram a mencionar que a medida teria potencial para “sextuplicar” os negócios da instituição financeira. A PF também investiga a aquisição de participação societária na empresa Green Investimentos S.A., apontada como outra vantagem econômica recebida de forma indevida por pessoas ligadas ao senador. Conforme os autos, uma participação avaliada em cerca de R$ 13 milhões teria sido adquirida por apenas R$ 1 milhão.
A participação na Green Investimentos foi formalmente adquirida pela empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários, administrada por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador Ciro Nogueira. Diante dos elementos apresentados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, o ministro André Mendonça determinou medidas cautelares contra Raimundo Neto, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, a proibição de manter contato com investigados e testemunhas e a retenção do passaporte para impedir saída do país. O STF também determinou restrições de contato ao senador Ciro Nogueira no âmbito da investigação.
A decisão do ministro André Mendonça destaca que os autos reúnem diversos elementos considerados relevantes para a investigação. Entre eles estão comprovantes bancários de transferências financeiras, registros de viagens e mensagens eletrônicas trocadas entre pessoas apontadas como integrantes da organização investigada. Segundo o ministro, os elementos apresentados pela Polícia Federal indicam, em tese, a existência de um arranjo voltado à obtenção de benefícios mútuos entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro. O magistrado ressaltou que os fatos investigados extrapolariam relações de amizade entre os envolvidos.
Outro alvo da operação é Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, apontado pela PF como operador financeiro ligado às movimentações investigadas. André Mendonça autorizou a prisão temporária de Felipe por cinco dias. Ele foi detido na manhã desta quinta-feira. Segundo a investigação, Felipe teria atuado diretamente na operação de aquisição societária relacionada à Green Investimentos e em outras movimentações financeiras analisadas pela Polícia Federal. Até o momento, a defesa de Felipe Cançado Vorcaro não se manifestou sobre as acusações apresentadas pela PF.
Defesa
Em nota divulgada nesta quinta-feira, a defesa do senador Ciro Nogueira afirmou repudiar “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. Os advogados também informaram que o senador permanece à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações. A defesa declarou ainda que as medidas determinadas pela investigação teriam sido baseadas em trocas de mensagens e sustentou que ações dessa natureza exigem controle rigoroso de legalidade por parte das Cortes Superiores.
Os advogados afirmaram também que medidas consideradas invasivas precisam ser analisadas com cautela pelo Judiciário. A nota menciona que discussões semelhantes ocorreram anteriormente em relação ao uso de delações premiadas em investigações de grande repercussão nacional. O documento foi assinado pelos advogados Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, além de Roberta Castro Queiroz, Marcelo Turbay, Liliane de Carvalho, Álvaro Chaves e Ananda França. A reportagem não localizou, até o momento, representantes legais de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima.
A Operação Compliance Zero já havia avançado em outras fases ao longo de 2026. Na 4ª fase, deflagrada em 16 de abril, a Polícia Federal prendeu preventivamente o ex-presidente do banco público do Distrito Federal, Paulo Henrique Costa, e o advogado Daniel Monteiro, apontado como operador jurídico-financeiro do esquema investigado. O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, já estava preso desde o início de março, quando ocorreram as primeiras medidas mais amplas da operação coordenada pela PF.
Desde o início da Compliance Zero, a Polícia Federal cumpriu 96 mandados de busca e apreensão em seis unidades da federação. As ações ocorreram na Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Além das buscas, a Justiça determinou bloqueios patrimoniais que, somados, chegam a R$ 27,7 bilhões. Também foram determinadas medidas de afastamento de investigados de eventuais cargos públicos e funções ligadas ao sistema financeiro.
A investigação segue em andamento e novas diligências poderão ser realizadas nos próximos dias. A Polícia Federal informou que o objetivo da operação é aprofundar a coleta de provas relacionadas ao funcionamento do suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro. O material apreendido durante a nova fase da operação será encaminhado para análise técnica e poderá subsidiar novos pedidos judiciais no decorrer do inquérito conduzido pelo Supremo Tribunal Federal.
Com informações da Agência Brasil





