
(Foto: Reprodução/Canva)
Jornada de seis dias de trabalho por apenas um de descanso limita convívio com filhos e sobrecarrega mulheres com tarefas domésticas.
Da Redação da Rede Hoje
A comemoração do Dia das Mães neste domingo, 10 de maio de 2026, expõe a realidade de milhares de mulheres brasileiras que não podem celebrar a data com suas famílias devido a obrigações profissionais. Para muitas dessas mães, o sustento do lar depende de escalas de trabalho que impõem seis dias de atividade para apenas um de folga. Essa rotina, conhecida como escala 6×1, é apontada por movimentos sociais como um fator de exaustão extrema. A representante do Movimento Vida Além do Trabalho em Minas Gerais, Pâmela de Faria, destaca que as mulheres são as mais afetadas por esse modelo de contratação.
O cenário é agravado pelo fato de que muitas trabalhadoras são mães solo e dependem exclusivamente da própria renda para manter a casa. Além das horas dedicadas ao emprego formal, essas mulheres enfrentam o chamado trabalho invisível, que engloba cuidados com os filhos e tarefas domésticas. Em diversos casos, a jornada fora de casa ultrapassa 12 horas diárias, reduzindo drasticamente o tempo de qualidade com as crianças. A sobrecarga física e mental decorrente dessa dinâmica afeta a saúde das trabalhadoras e a estruturação dos vínculos afetivos dentro do ambiente familiar.

Na escala 6×1, a cobradora de ônibus, Michele Aparecida Silva Andrade trabalha durante a madrugada e tem pouco tempo com a filha e o marido. | Crédito: Arquivo pessoal
Pesquisas indicam que a população brasileira é composta majoritariamente por mulheres e que cerca de 70% delas são mães. Entre os 14 milhões de trabalhadores submetidos à escala 6×1 no país, estima-se que mais de 1 milhão sejam mulheres atuantes no setor doméstico. Talita Silva, integrante da Marcha Mundial das Mulheres, define esse formato como um retrato da superexploração feminina. Para a militante, a imposição de metas consideradas desumanas limita a vida das mães à reprodução social, retirando o tempo necessário para o lazer e para o autocuidado.
A falta de convivência familiar gera um sentimento de culpa constante nessas trabalhadoras, muitas vezes alimentado por cobranças sociais sobre a educação dos filhos. Faria explica que a sociedade tende a responsabilizar a mãe por eventuais comportamentos inadequados dos jovens, ignorando a ausência forçada pela jornada laboral. Na prática, o único dia de descanso semanal acaba sendo utilizado para resolver pendências domésticas acumuladas, como lavar roupas e organizar a residência. Esse ciclo impede que a trabalhadora recupere as energias necessárias para o desempenho de suas funções.
Relatos evidenciam dificuldades no acompanhamento escolar e saúde

Greyce Lages Santos, de 36 anos, trabalha com logística em uma escala de 6×1. | Crédito: Arquivo pessoal
Uma trabalhadora identificada como Gabriela, de 74 anos, relata que trabalhou a vida inteira nesse regime e continua atuando como diarista para garantir o sustento. Ela observa que suas netas e bisnetas estão seguindo o mesmo caminho de exaustão, o que dificulta a criação de vínculos profundos entre as gerações. A falta de oportunidade para viver além do trabalho é uma reclamação recorrente entre as entrevistadas, que veem na escala 6×1 um impedimento para o desenvolvimento pessoal. Para muitas, a família acaba não se conhecendo direito devido ao cansaço extremo de cada integrante.
Outro relato, de uma vendedora chamada Joyce, descreve o sofrimento dos filhos de 12 anos que reclamam da saudade constante dos pais. Ela afirma que vê o filho apenas no período da manhã antes da escola, pois ao retornar do trabalho o jovem já está dormindo. Esse distanciamento forçado é visto como um prejuízo emocional tanto para a mãe quanto para a criança em fase de desenvolvimento. A esperança de mudança reside na tramitação de propostas que visam reduzir a jornada de trabalho semanal sem que haja corte nos salários atuais.
Nina, monitora escolar e mãe de uma criança de seis anos, descreve a residência da família como um dormitório, dado o pouco tempo que passam no local. A maior parte do dia é consumida entre o posto de trabalho e o deslocamento em transportes coletivos, sobrando pouca margem para acompanhar o desempenho escolar. O descanso real é muitas vezes adiado para o período de férias anuais, gerando um estresse crônico que afeta o rendimento profissional. Flávia, repositora de loja, corrobora essa visão ao afirmar que o serviço doméstico nunca termina para a mulher.
Para Eduarda, mãe de quatro crianças pequenas, a escolha entre descansar ou resolver burocracias da vida cotidiana simplesmente não existe diante da demanda de cuidados. A falta de tempo impede inclusive a resolução de problemas simples em agências bancárias ou órgãos públicos, que funcionam apenas em horário comercial. Quando precisam se ausentar para tais fins, as trabalhadoras sofrem descontos salariais que impactam o orçamento familiar já restrito. Esse cenário de privação financeira e temporal cria barreiras para a ascensão social e profissional das mulheres.
Desigualdade de gênero e sobrecarga nas tarefas de cuidado
As trabalhadoras consultadas são unânimes ao afirmar que as tarefas de cuidado são distribuídas de maneira desigual entre homens e mulheres. Mesmo em lares onde há um companheiro presente, a responsabilidade mental de organizar a rotina das crianças costuma recair sobre a mãe. Detalhes como uniformes escolares, alimentação e acompanhamento médico são geridos quase exclusivamente pela figura feminina. Segundo Talita Silva, esse acúmulo de funções resulta em um esgotamento que se manifesta em dores físicas e crises de ansiedade recorrentes.

A gerente operacional Lucia dos Santos trabalha desde 2010 na escala 6×1 e é mãe solo. | Crédito: Arquivo pessoal
Muitas mães relatam que os homens ainda mantêm a postura de que prover o essencial financeiramente é suficiente, eximindo-se das obrigações domésticas. Gabriela recorda que, para conseguir assistir televisão, precisava colocar a tábua de passar roupas na frente do aparelho para otimizar o tempo. Esse tipo de malabarismo cotidiano é uma marca da jornada tripla enfrentada por quem trabalha na escala 6×1. Sem uma rede de apoio eficaz, a saúde física e mental dessas mulheres fica fragilizada, levando a casos de depressão profunda e doenças psicossomáticas.
A dificuldade de acesso a serviços de saúde é outro ponto crítico mencionado pelas trabalhadoras, já que as empresas nem sempre aceitam atestados para consultas de rotina. Rosa, que busca se dedicar aos estudos para concursos públicos, afirma que só procura auxílio médico quando o cansaço a impede fisicamente de trabalhar. A falta de tempo para atividades físicas e para o acompanhamento preventivo agrava condições de saúde que poderiam ser tratadas precocemente. Muitas dores articulares são decorrentes de longas jornadas em pé, comuns no setor de comércio e serviços.
A impossibilidade de levar os filhos ao médico durante a semana obriga as mães a buscarem unidades de pronto atendimento durante a noite ou madrugada. Essa dinâmica sobrecarrega o sistema público de saúde e expõe as crianças a esperas exaustivas após um dia inteiro de escola ou creche. A ausência da mãe em reuniões escolares e festividades familiares também mexe com o emocional dos filhos, que crescem sem a orientação cotidiana necessária. Para Gabriela, as crianças perdem a noção de organização por não terem uma referência presente para orientar horários e deveres.
Expectativas sobre a redução da jornada de trabalho no Congresso
A luta pela redução da jornada de trabalho tem ganhado força com propostas de emenda à constituição que tramitam na Câmara dos Deputados em Brasília. Uma comissão especial avalia o tema e existe a previsão de que a votação ocorra ainda no final do mês de maio de 2026. O objetivo é garantir que o trabalhador tenha mais tempo para o convívio social e para o descanso sem que sua remuneração seja prejudicada pelo mercado. Para as mães entrevistadas, um dia a mais de folga seria dedicado prioritariamente ao fortalecimento dos vínculos com seus descendentes.
Laura, que trabalha em um supermercado, acredita que o fim da escala 6×1 permitiria a realização de cursos de profissionalização e consultas médicas regulares. Ela relata sentir dores frequentes e ansiedade devido à rotina de trabalho de segunda a sábado com folga apenas aos domingos. O tempo de qualidade, que hoje é inexistente, passaria a ser uma realidade para o planejamento de lazer e descanso efetivo. A aprovação de novas regras trabalhistas é vista como um passo essencial para garantir a dignidade humana das famílias brasileiras.
Representantes do movimento Vida Além do Trabalho reforçam que mães doentes e exaustas não conseguem manter a produtividade desejada pelas empresas a longo prazo. O adoecimento por sobrecarga gera custos para o sistema previdenciário e para a economia de forma geral, além do impacto social incalculável. O fim da escala 6×1 é defendido não como um luxo, mas como uma necessidade básica para a manutenção da saúde pública. A dignidade de poder orientar os filhos nas tarefas diárias é o principal anseio dessas trabalhadoras que sustentam a economia do país.
A mobilização social em torno do tema espera sensibilizar os parlamentares para a urgência de uma reforma nas escalas de trabalho tradicionais. O debate envolve a análise da viabilidade econômica para os setores de comércio e serviços, que são os que mais utilizam o regime de seis por um. No entanto, as entidades de defesa dos direitos das mulheres argumentam que o lucro não pode se sobrepor ao bem-estar das famílias. A expectativa é que, em breve, o Dia das Mães possa ser celebrado com a presença física e emocional de todas as trabalhadoras em seus lares.
Propostas buscam equilibrar produção e bem-estar social
A discussão no Congresso Nacional também leva em conta a produtividade dos trabalhadores em jornadas mais curtas e flexíveis. Experiências internacionais mostram que a redução da carga horária pode aumentar o foco e a eficiência durante as horas de atividade profissional. No Brasil, a adaptação desse modelo enfrentaria desafios culturais, especialmente na divisão de tarefas domésticas entre os gêneros. As mães consultadas acreditam que uma mudança na lei seria o gatilho necessário para reestruturar a dinâmica de convivência e respeito dentro das casas.
O fortalecimento dos vínculos cotidianos é apontado como a solução para reduzir problemas de comportamento e estruturação emocional nas novas gerações. Gabriela defende que as mães querem apenas o necessário para orientar seus filhos a tomarem banho, estudarem e brincarem na hora certa. A autonomia para gerir a própria vida e o tempo é um direito que essas mulheres buscam recuperar por meio da pressão política. O fim da escala 6×1 representa, para elas, a possibilidade de conhecer melhor seus netos e bisnetos em momentos de tranquilidade.
A conclusão das análises pelas comissões de Constituição e Justiça indica que o tema possui base jurídica para avançar nas casas legislativas brasileiras. As Propostas de Emenda à Constituição que tratam da jornada de trabalho são vistas como instrumentos de justiça social para a classe trabalhadora feminina. A visibilidade dada aos relatos de mães exaustas contribui para que a sociedade compreenda a urgência da pauta além das questões meramente econômicas. O objetivo final é assegurar que o trabalho seja um meio de vida e não um impedimento para a existência plena.
Portanto, a celebração do Dia das Mães em 2026 serve como um marco para a reivindicação de direitos que garantam a presença materna no lar. A exaustão relatada por mulheres de diferentes faixas etárias e profissões confirma que o modelo atual de escala 6×1 é insustentável para a saúde da família. O compromisso das lideranças políticas com essa causa será testado nas próximas votações no plenário da Câmara Federal. Enquanto isso, as mães trabalhadoras seguem cumprindo suas jornadas na esperança de que o próximo período traga mais tempo para o descanso e para o amor.
Reportagem original: Brasil de Fato





